Festas, Informática e Navios que passam

Tribuna do Norte. Natal, 03 jul. 2011.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 01 jul. 2011.


Uma das melhores características de nós brasileiros é esse viver alegre, essa postura bem humorada, a nossa propensão ao riso fácil e a tendência de fazer piada sobre tudo. Queremos mesmo é festa; samba, futebol e praia. E, para melhorar, com uma cervejinha que ninguém é de ferro. Isso é bom. O que não é tão bom é o outro lado da moeda: estamos cada vez mais deixando de encarar a vida com responsabilidade.

Há exemplos. Certa vez, quando participava de um debate em um programa de TV, fiz uma afirmação universalmente aceita. Afirmei que se a renda nacional não crescesse não é possível aumentar o nível do bem-estar das pessoas. Um cidadão que participara do mesmo programa quis desqualificar esse argumento, simplesmente dizendo que não aceitava muito “essa coisa de economia”, que mais importante é fazer o povo feliz. Como feliz, ganhando salários de fome? Recentemente, durante um conclave sobre contabilidade, em Salvador, assisti a uma palestra sobre o uso da informática. O expositor usou e abusou de ganchos humorísticos para prender a atenção do auditório. Até ai nada de mais. Entretanto enveredou por caminhos obscuros ao tentar fazer a defesa de que os funcionários não devem ser cerceados no uso pessoal da Internet, nos locais de trabalho. Ora, se local de trabalho é para se trabalhar e uso pessoal não é trabalho, a empresa não estaria pagando para o empregado não trabalhar? Piada é bom de ouvir, mas trabalho é coisa séria.

Essa palestra me chamou a atenção para outro assunto ligado à computação: a grande maioria de nossas empresas não fazer uso racional da informática. Muitas delas usam seus equipamentos como se fossem máquinas de datilografia para seus relatórios e outros escritos, ao mesmo tempo em que imprimem planilhas que ninguém sabe para que servem e, além do mais, em número de vias desnecessário.

Enquanto isso, o resto do mundo e algumas empresas brasileiras, aquelas que brilham no Panteão do êxito, vão pelo caminho certo e já se preparam para usar a Web 3.0, a chamada terceira onda da Internet, que projeta reestruturar todo o conteúdo disponível rede aberta e das intranets (as redes internas das companhias), com um novo conceito: a “compreensão das máquinas”; a “semântica das redes”. Vamos traduzir em linguagem simples. A Web 3.0, que já engatinha e que está prevista para os próximos cinco anos, pretende usar todo o conhecimento armazenado nas redes de maneira analítica e inteligente. Por mais espantosos que sejam os sistemas atuais (inclusive os “googles” da vida), eles nada mais fazem que encontrar e mostrar uma lista de dados armazenados. São os chamados “programas sintaxes”, que estudam cada parte de uma relação de arquivos, como elementos de uma mesma identidade. O que a nova era da informática se propõe a fazer é uma nova abordagem, com “plataformas semânticas”, que buscam o significado dos arquivos. Assim, o programa será capaz de entender mais sua necessidade do usuário e responder com mais eficiência as suas consultas, organizando e agrupando páginas por temas, assuntos e interesses previamente expressos.

Vejamos um exemplo possível. Se a engenharia de produção de uma empresa desejar saber quais as matérias-primas possíveis de serem usadas em sua manufatura, quais os fornecedores, quais os melhores custos, quais os prazos de financiamento e de entregas e, ainda, qual a experiência da empresa com cada um dos possíveis fornecedores, a resposta será ponta, rápida e sem exigir que se façam comparações, cálculos ou análises. O sistema fará tudo isso e, de quebra, ainda apontará as melhores opções e dará oportunidade de se saber tudo sobre os possíveis fornecedores. As redes serão capazes de fazer e refinar a pesquisa, realizando o trabalho que atualmente é executado por milhões de pessoas em empresas de todo o mundo.

Como todo avanço tecnológico, esse também tem duas faces: vai ser eficaz e não somente eficiente, vai reduzir os custos nas empresas e, portanto, baratear seus produtos o que é ótimo para os consumidores, porém vai penalizar as empresas que não acompanharem os novos tempos e desempregar quem acha que trabalhar e ocupar o tempo de trabalho com as redes sociais é a mesma coisa. Tudo é importante, desde que no lugar e tempo apropriados.

A tecnologia, como um dos fatores de produção, tem sido um grande impulsionador da economia e, portanto, da elevação do bem-estar social. Todavia, é uma senhora exigente. Quem a despreza paga caro. Nós sofremos alguns anos de atraso porque, no governo Sarney, foi proibida a importação de equipamentos e programas de computadores. Agora, se não nos prepararmos desde já para a nova informática, corremos o risco que ficarmos a “ver os navios” que passam ao largo, como ficou o porto de Rio de Janeiro quando, no Século XIX, preferiu o trabalho escravo em detrimento dos guindastes comprados, pagos e abandonados.