Fascínio pelos refletores

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 10 fev. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 17 fev. 2008.

É comum se dizer que o Rio Grande do Norte é “vocacionado” para o turismo. Turismo é uma atividade econômica e social séria, que envolve muitos recursos financeiros, humanos e naturais. Portanto, tentemos entender a importância desse setor. A maioria dos estudos econômicos centra seus levantamentos e análises nas operações e resultados das atividades produtivas, considerando apenas a interação dos agentes diretos (produtores e consumidores) e indiretos (governo, financiadores etc.), isto é, limitando-se aos elementos macroeconômicos da oferta e da procura. Entretanto, outros estudiosos do comportamento da economia – economistas, sociólogos e pesquisadores de outras áreas afins – têm-se dedicado a estudar outras variáveis que interferem no processo produtivo, mas que estão fora do mercado. Esses processos, que terminam fazendo parte do fator econômico, compreendem o estudo dos chamados recursos gratuitos, cujos valores e características não possuem preço e não são contemplados pelos valores do mercado. O fator que diferencia um pólo turístico de outro, sob o ângulo de recursos gratuitos, é a forma como se associam os recursos naturais e os recursos estruturais. O nosso Estado é pródigo na oferta de recursos gratuitos. Temos praia e outros recursos naturais em excesso, um folclore riquíssimo, dunas, estradas relativamente boas etc.

Entretanto falta algo. Falta-nos a consciência da importância do turismo para a economia e para a vida da nossa sociedade. Há muita improvisação, muito amadorismo, muito descaso público e até muita resistência contra o turismo. A nossa terra pode ter recursos exploráveis para o setor, mais uma parte de nossa gente e do nosso aparato governamental às vazes dá mostras de ser contra a vinda das empresas e dos turistas.

Há outro fator: todas as tentativas de levantamento de dados sobre a economia e o potencial econômico do setor de turístico do Rio Grande do Norte, resultam na evidência de que há poucos elementos disponíveis, de que esses elementos não são homogêneos e nem mesmo suficientes para que se expresse uma opinião mais completa sobre o potencial do Estado no setor. Por outro lado, alguns dos números e valores obtidos não nos oferecem o grau de segurança necessário. Há elementos cuja metodologia de cálculo não está disponível aos pesquisadores e outros cujas datas já se apresentam desatualizadas. Por esses motivos a análise das regiões turísticas do Rio Grande do Norte, carece de maior profundidade, de exames que tenham continuidade e integração regional, desejáveis em projeto desta espécie.

É sabido que a chamada indústria do turismo possui elementos que muitas vezes são desconhecidos para aqueles que não são afeitos ao setor. O seu efeito multiplicador de atividades econômicas é apregoado por quase que todo mundo, porém nem sempre isso acontece na região. Há casos, e muitos, em que esse efeito acontece em outros pontos geográficos. Por exemplo: em Nova Iorque a maioria dos suvenires (miniaturas da Estatua da Liberdade ou do Empire State Building) vendidos aos turistas é fabricada na China; na Bélgica, há rendas fabricadas na França; em Tibau, dizem que as suas famosas garrafas de areias coloridas são fabricadas em Icapui e que na feira de artesanato de Natal há produtos “made in Paraguai”.

Por outro lado, há na capital do Estado uma pretensa elite que, invariavelmente, se posiciona contra os empreendimentos mais arrojados na área de turismo. O hotel da BRA, os edifícios de Ponta Negra e agora o mega-projeto do Grupo Sánchez são exemplo típicos da ação daqueles que se dizem “defensores dos interesses” da cidadania, da ecologia, da integridade e da autonomia nativa. O problema é identificar até que ponto isso é verdade; até que ponto a contestação a esses empreendimentos não é mera fascinação pelas luzes dos refletores. É claro que temos que defender tudo isso. É até inerente da consciência de cidadão de um mundo civilizado e entregue a senha do capital apátrida. O questionamento que se faz é a oportunidade em que se age. Por que se esperar para defender a cidadania, a ecologia, a integridade e a autonomia nativa somente quando as construções se iniciam? Por que essas pessoas e esses órgãos não se posicionam na fase de projeto?

O resultado das ações dessa espécie é desastroso. Sabe-se agora que o Ceará tem levado alguns empreendimentos turísticos que, originalmente, tinham como destino o nosso Estado. Sabe-se, também, que temos perdido alguns programas e vôos charter para outros Estados do Nordeste. Isso acontece enquanto Estados mais desenvolvidos lutam para aumentar sua participação no setor. São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia, Pernambuco e até Minas Gerais lutam por uma fatia maior dos investimentos hoteleiros, parques temáticos e no turismo receptivo; isso para não falar no Rio de Janeiro. No cenário internacional, todos querem ficar com um naco do turismo do sudeste asiático, grandemente afetado depois do tsunami. Itália, França, Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia desejam aumentar o ingresso de dólares e euros dos turistas e das empresas do ramo. Nós até parecemos que não.