FALTAM SENSO E CIÊNCIA

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 03 mar. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 06 mar. 2008.

Um dos modismos deste século XXI tem sido uma estranha ideia que prolifera entre alguns meios – que engloba no mesmo balaio conhecidos periódicos sensacionalistas e revistas editadas por conceituadas instituições de ensino superior. Estou falando da tendência de considerar a “ciência” como um simples aperfeiçoamento do “senso comum”. Vamos entender melhor: ciência é o conjunto de conhecimentos produzidos com objetividade, estruturados com métodos e teorias e que visam compreender e orientar a natureza e as atividades humanas; senso comum é o conjunto de opiniões e modos de sentir, aceitos tradicionalmente como verdades, embora que não testados.

Se considerada ao pé da letra, esta é uma posição muito simplista, principalmente porque a ciência caminha pela lógica e o senso comum anda pela intuição. Talvez se tomada em casos de pessoas e ciências individuais, isoladas, singulares, a afirmação pudesse ser considerada parcialmente verdadeira. No entanto, ela não poderia ser universalmente válida; válida para todos os casos. Há, ainda, de se colocar a pouca distância que esses “pensadores” atribuem existir entre o “senso comum” e o “senso científico”. Essa colocação não seria muito primária? Se assim for a ciência não ficaria sem senso? Da mesma maneira que não se deve mitificar (dar um caráter fabuloso) o cientista ou mistificar (abusar da credulidade) a ciência, não se deve “cientificar” (tornar ciência) o senso comum, sem correr o risco de se institucionalizar o tal jeitinho brasileiro, que nem brasileiro é; é universal.

Existe outro aspecto da ciência que esses autores abordam, camuflando a abordagem: o aspecto formal da produção científica, quando da montagem dos modelos que embasam a produção do saber. Geralmente eles simplesmente desprezam os métodos de pensamento linear e binário, advogando a utilização de sistemas multifocais e que usam bases de raciocínio não contínuas, desde que multipolares. Ora, o raciocínio binário não seria um dos melhores instrumentos a ser usado na pesquisa científica, na construção de modelos e na formulação de teorias, isso quando evita que se fuja das explicações das diferenças básicas entre “senso comum” e “ciência”?

Esses autores vão mais longe: pregam o desmantelamento do modelo cartesiano (modelo criado por Descartes que estuda os fenômenos, isolando-os da totalidade em que aparecem). Isso é, mandam dividir cada uma das dificuldades em parcelas menores, de forma a encontrar mecanismo de solução adequado. Em outras palavras: a solução dos problemas científicos deveria optar por uma ordem de pensamento que se inicie por aquele que seja o caminho mais fácil, para solucionar as questões mais simples. Somente então é que se deveria adentrar no campo mais denso dos problemas mais complexo. Ora isso é simplificar o máximo a produção científica e um desprezo total pela epistemologia, a ciência e técnica que usa o estado presente do conhecimento humano para explicar os seus condicionamentos, sistematizar a correlações desses saberes, evidenciar seus vínculos e avaliar os resultados e aplicações da produção das ciências.

Por último, eles pregam a elasticidade ou contração do campo de estudo, de acordo com a conveniência e o objetivo que se deseja alcançar. No entanto silenciam sobre como se estabelecer o ponto ideal de tensão, para se obter um resultado ótimo. Essa é uma das maiores dificuldades da ciência e nunca deve ser desprezada. Se não, vejamos: a teoria científica é uma projeção sobre o desconhecido, tendo como parâmetros ideias (a lógica) e/ou fatos (fenômenos reais). Abrir ou fechar um pouco, pode significar abrir ou fechar um pouco de mais ou de menos do que se deveria abrir, além ou aquém do necessário para se ficar no ponto bom.

Faltam senso e ciência, nessa proposta.