EUROPA, FRANÇA, BAHIA E MOSSORÓ

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 07 abr. 2008.
O MOssoroense. Mossoró, 10 abr. 2008.
Metropolitano. Parnamirim, 11 abr. 2008.

A cidade de São Paulo é um mistério até para quem nasce ou lá vive por muito tempo; e foi lá que vivi a maior parte de minha vida: cerca de 35, dos meus quase setenta anos. A capital paulista é hoje a terceira maior concentração humana do planeta, sendo superada apenas por Tóquio e a cidade do México. No ano passado o seu centro urbano tinha 10.886.518 habitantes, enquanto que no “complexo metropolitano estendido” esse número ultrapassava os 29 milhões de pessoas. É a décima quarta cidade mais globalizada e a décima nona mais rica do mundo. Nela é gerado 12,26% de todo o PIB brasileiro, de toda a riqueza do país.

Nos anos setenta ela já sofria desse gigantismo e era o centro de atração de correntes migratórias dos outros Estados e, também, de outros países. Pois bem, nesse cenário em que é tão difícil encontrar casualmente uma pessoa quanto encontrar uma agulha num palheiro, certa vez dei de cara com Vilmar Pereira, em plena calçada da Av. São Luiz, quase esquina da Av. Ipiranga. O encontro somente foi possível porque eu trabalhava nesta última e uma loja da Vasp ficava na Av. São Luiz, então a rua das agências de viagens, de turismo e das companhias aéreas nacionais e internacionais.

Como não poderia deixar de ser, o principal tema de nossa conversa foi as coisas de Mossoró; nossos amigos comuns, a política, as festas, o futebol e até a economia da cidade. Conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo que ele estava indo para Tóquio, pois tinha ganho uma passagem de cortesia da Vasp. Eu, por outro lado, tinha regressado há menos de um mês da minha primeira viagem à Europa. Quando descobriu essa outra coincidência, Vilmar tascou: “É isso ai, bicho, de Mossoró para o mundo”. De fato, éramos dois rapazes da região mais podre do país e de um dos Estados mais podre da região, porém éramos de Mossoró.

Para se entender a essência dessa nossa conversa – hoje sem sentido -, é preciso entrar no túnel do tempo. Há trinta e tantos anos, sair do Brasil era um privilégio para poucos brasileiros. Existiam muitas dificuldades a serem vencidas, tais como os altos preços das passagens, a obtenção de visto dos países a serem visitados e o baixo valor da moeda do país, em comparação com o dólar, então a única moeda universalmente aceita. Além disso, haviam os procedimentos impostos pela ditadura: primeiro a barreira do “visto de saída”, uma das aberrações do regime militar, depois só se podia levar uma quantia muito limitada de dólares comprada no câmbio oficial – todo mundo levava mais, porém comprado no câmbio negro. Era um jogo de faz de conta: os passageiros fingiam que estavam cumprindo a Lei e o governo fingia que a Lei estava sendo respeitada.

Hoje Francisco Vilmar Pereira é um empresário dos setores de construção civil, financeiro, petrolífero e metalurgia. É o presidente do Simetal-Sindicato das Indústrias Metalúrgicas do Estado do Rio Grande do Norte e da ACIM-Associação Comercial e Industrial de Mossoró. Como titular desse último cargo, puxou a construção do Centro de Convenções da capital do oeste, obra que custou mais de R$ 2,2 milhões. Entretanto no começo de sua vida empresarial poucos eram seus amigos e os que acreditavam nele, como empreendedor. Entre eles estava Silvio Mendes de Souza, que lhe concedeu crédito ilimitado para instalar a loja da Vasp em Mossoró, seu primeiro negócio. Na época houve até quem torcesse contra. Um outro comerciante, preterido na indicação para representar a empresa aérea, moveu uma campanha contra o jovem Vilmar, publicando anúncios inverídicos na imprensa cearense. Este articulista, então correspondente do jornal “O Povo”, desmentiu as noticias caluniosas. Mas nem era necessário. A história de sua vida, de suas lutas, de seu empenho e seriedade nos negócios prova que Vilmar sempre foi um cidadão responsável. Depois daquele nosso encontro, ele já deu varias voltas ao planeta.

Pelo lado de cá, eu também terminei conhecendo “Europa, França e Bahia” e alguns livros escritos por mim estão nas prateleiras de algumas das importantes universidades do mundo: Harvard, Princeton, Stanford, Brown e, também, das universidades de Washington, Illinois, Indiana, Texas at Austin, Coimbra, UBA-Universidad de Buenos Aires, UCA-Universidad Catolica de Argentina e UNCh-Universidad Nacional de Chile, além da Biblioteca Nacional da Holanda.

Daquela época para cá, muita água do rio passou por baixo da ponte. Conhecemos o mundo, ganhamos muitas experiências, nossos cabelos estão embranquecidos e mais ralos, porém ainda somos tão somente dois rapazes de Mossoró.