Em Busca da Prática Perdida

Tomislav R. Femenick
 Boletim Unibero. São Paulo, XXI, nº 20, out. 1995

 

Épocas houve em que o saber vivia encastelado nos mosteiros religiosos ou em castas sociais, quando o saber tinha razão por si mesmo, quando parecia não haver relação entre a vida e a cultura. Nos tempos atuais, tempos de cultura e consumo de massa, essas lembranças deveriam ser somente registros de história… mas não é bem assim. Ainda sobrevivem restos do saber acadêmico desassociado da vida vivida pelos homens e mulheres do Século XX, já no limiar do novo milênio. Por outro lado, idéias novas nascem visando interpolar os conhecimentos, o cognoscível e a realidade vivenciada e profissional.

Uma das tendências do ensino universitário que vem se impondo às demais pela sua visão utilitária e prática do conhecimento é a que prega a interação escola/empresa. Há várias correntes pedagógicas que abordam esse conceito: das mais “praticistas” às mais “utilizadoras”; as que dão mais ênfase no atendimento imediato à demanda do mercado profissional e as que procuram profissionalizar o aluno, dentro do conceito técnico do momento, na última onda das novas técnicas.

Em todas essas concepções há um ponto pacífico: o mundo profissional invade a sala de aula que, por sua vez, se expande ao mundo externo à escola. É um processo em que a visão pedagógica explica o mundo profissional, objeto e fim do estudo.

Há, no entanto, que se preocupar para que a universidade não se ‘transforme em uma fonte que jorre candidatos a ocupar os cargos abertos pelas empresas, tendo por função apenas atender a demanda do mercado de trabalho, dentro das exigências do dia-a-dia da economia. A articulação universidade/empresa deve ir mais longe, deve se preocupar com o “estado da arte” tanto do ensino como da vida profissional, impondo-se como instrumento de pesquisa, raciocínio lógico e aplicação rentável do saber. Essa busca deve acontecer tanto no campo teórico como no prático.

A teoria deve ser transmitida utilizando-se as várias fonte do conhecimento, das mais tradicionais (fontes orais e documentais, por exemplo) às mais inovadoras (pesquisas científicas, meios de informática de última geração etc), sempre em busca do real. Partindo-se desta ótica, a prática pedagógica pode simular a realidade empresarial, mas de modo a não limitar a visão criadora dos alunos e. ao mesmo tempo, não permitir que eles sejam desvinculados da realidade possível. Esse é o ponto de equilíbrio que deve ser perseguido.

Tem-se como papel da universidade a difusão de conteúdos, não somente abstratos mas estes e os fatos concretos, indissociáveis da realidade da vida profissional ligada aos respectivos cursos. Se a faculdade é parte integrante do todo social, agir dentro desse conceito é também melhor contribuir para o aprimoramento do desempenho técnico da sociedade. Essa atuação resulta na preparação dos alunos para a vida real e seus fatos concretos, fornecendo-lhes o instrumental teórico e prático de que irão necessitar para uma participação ativa no mundo competitivo.

Nesse universo conceitual, o ensino deve contemplar os conteúdos técnico/culturais com o cuidado de permanentemente reavaliá-los, face à realidade que permeia as empresas, a política da vida profissional da vida nacional e internacional. Embora esses conceitos sejam realidades exteriores aos alunos, eles (os conceitos) não devem ser tidos como “caixas pretas” inexplicáveis, fechadas, refratárias à realidade vivenciada. Não basta que os conceitos sejam ensinados. É preciso que sejam explicados, testados e postos em prática, mesmo que em realidade simulada.

E, nisso tudo, qual o papel do professor? A responsabilidade indelegável do mestre é obter meios para que os alunos tenham acesso à experiência concreta da prática dos conceitos teóricos e proporcionar-lhes elementos de análise e crítica dos ensinamentos expostos. Para que isso ocorra, é imperativo que o método de ensino favoreça a correspondência dos conceitos com a realidade testada, isto é, há que haver uma relação direta entre o saber teórico transmitido e a experimentação prática das salas de aula, confrontados com a realidade profissional. Em outras palavras: os métodos de ensino devem ir sempre da compreensão à ação experimental, para que dessa se possa ir à ação profissional.