ELES OUSARAM SONHAR

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje, Natal, 29 mar. 2010.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 29 mar. 2010.

Alguns pesares são tão intensos que adormecem os sentidos, impedindo qualquer reação de imediato. Outros são tão virulentos que nos levam a querer esquecer a causa da dor. Esses podem ser sentidos fisicamente – os menos cruéis – ou de consternação; os mais intensos e duradouros. Recentemente fui vitima de três desses sentimentos. Os senti, compreendi as causas, porém quis afastá-los de toda compreensão possível. Procurei esquecê-los, porque eles apagavam grande parte da história da minha vida. Então procurei fugir da realidade, fazer de conta que nada aconteceu, que nada tinha havido, que nada tinha mudado, que o mundo continuava a ser risonho e franco.

Mas, não. Os fatos aconteceram, eram reais. Por mais que eu quisesse escapar da realidade, não havia como ligar para Brasília e falar com o meu primo João Batista Cascudo Rodrigues; ligar para Mossoró e falar com o meu vigário, o Padre Américo Simonetti, ou com uma das monitoras de aprendizado da minha infância, a Professora América Rosado. Eles já não estão no rol dos viventes deste mundo. Pouco a pouco, lentamente fui me acostumando, até que as dores causadas por essas perdas ficassem meãs e suportáveis. Quando pude, procurei analisar o que essas pessoas tinham de diferente das outras que estão no meu particular panteão do país de Mossoró: todos eles ousaram sonhar e transformaram seus sonhos em realidade.

João Batista foi um sonhador inveterado. Estudante de direito em Maceió, Alagoas, já sonhava com uma faculdade em Mossoró. Em 1960, quando secretário da prefeitura, ele reativou a idéia de Raimundo Nonato da Silva e conseguiu fundar a Faculdade de Ciências Econômicas de Mossoró. Quatro anos mais tarde, de 1964, planejou e o prefeito Raimundo Soares criou a Funcitec, embrião do que é hoje a Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, de quem foi o seu primeiro reitor, e também da Ufersa, a antiga Escola Superior de Agricultura de Mossoró, criação feita a oito mãos por Dix-huit Rosado, Vingt-un, Raimundo Soares e Cascudo. Nos anos seguintes, junto com o prefeito Raimundo Soares, instalaram as Faculdades de Serviço Social e Filosofia, Ciências e Letras e Enfermagem. Por tudo isso e muito mais, convenhamos, João Batista Cascudo Rodrigues era muito realista quando sonhava. A última vez que o vi foi em minha casa, em uma das últimas vezes que veio a esta cidade do Natal.

Monsenhor Américo Somonetti, foi o mais mossoroense dos assuenses. Foi nomeado pároco da Igreja de Santa Luzia desde 1980 e, depois, Vigário Geral da Diocese, fundador da Radio Rural (ligada à Diocese), reitor do Santuário do Coração de Jesus, diretor do Lar Sacerdotal, do Departamento Diocesano de Ação Social, da Cáritas Diocesana, do Curso Superior de Iniciação Teológica e do Centro Pastoral de Ciências Religiosas. Foi um grande educador, por meio do Movimento de Educação de Base. Idealizou a Feira da Providência e o Festival dos Municípios. Não foi prefeito porque não quis. Em agosto de 1967 Aluízio Alves lançou sua candidatura para fazer a pacificação da política local, em uma composição que integraria os Rosados e o então prefeito Raimundo Soares. Américo não aceitou, dizendo que sua ocupação era tão somente com os desígnios de Deus. Assim foi que sua maior virtude foi fazer com que as festividades em comemoração ao dia de Santa Luzia se transformasse na maior manifestação religiosa do Estado, caracterizando-a principalmente como uma expressão de fé, embora com celebração de alegria. A última vez que nos falamos foi quando ele, já doente, me ligou para reclamar porque eu tinha parado de escrever. Queria meus escritos de volta.

Quando criança, no período da segunda guerra, eu passei longo tempo em companhia de pessoas adultas que falavam varias línguas e nada saudável à infância de quem quer que seja: o campo de concentração de Jundiaí. Daqui fui para o Rio de Janeiro onde, repentinamente, me vi jogado em um colégio interno. Como não poderia deixar de ser, tinha que acontecer algo; aconteceu: a minha fala ficou travada. Entendia tudo, mas não falava nada. De volta a Mossoró, com esforço da minha família e de minhas professoras, de repente comecei a falar, escrever e ler ao mesmo tempo. Falar, escrever e ler errado. Nesse período, o professor Vingt-un estava inaugurando um dos seus sonhos, compartilhado, como todos os outros, com a sua mulher, a América Rosado, a Biblioteca Municipal. Foi lá que eu fui buscar livros; foi lá que o casal me explicou o significado da palavra “liberdade”, escrita em um pavilhão verde. Daí para frente era Dona America quem escolhia os livros que eu deveria ler, quem tirava as minha dúvidas sobre as leitura, sob os olhares de Vingt-un e de meu primo Jorge Ivan Cascudo Rodrigues, ainda moço.

Dona América uma cidadã do país de Mossoró, com direito passado em papel, embora mineira de nascimento. Colega de turma de seu futuro marido, com ele veio para um beiral da caatinga nordestina, tão logo se formaram. Professora, assistente social e escritora – escreveu diversos livros e organizou outros muitos. Porém o seu maior legado – além dos filhos – foi o seu trabalho junto com seu marido, numa afinada cumplicidade intelectual em inúmeros empreendimentos: bibliotecas, escolas, livros e, principalmente, na Coleção Mossoroense. A última vez que beijei a minha mestra foi na sua posse na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, na cadeira que antes era ocupada por seu marido.

O que havia de comum entre eles é que Cascudo, Padre Américo e Dona América estão entre os grandes educadores do Estado.