EINSTEIN E A MENINA DE DIX-NEUF

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 30 jul. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 02 ago. 2007.
Metropolitano. Parnamirim, 04 ago. 2007.

Cheguei a uma conclusão absurda: a famosa equação E = mc2, de Albert Einstein, deve está errada, pois penso que, ao contrario do que afirma a teoria do famoso cientista alemão, nem sempre o espaço e tempo são relativos, e não absolutos. Pelo menos para mim, ambos, espaço e tempo, têm sido sempre inelásticos. A rigidez do espaço eu senti quando, recém-casado, fui morar em um pequeno apartamento, lá na terra dos paulistanos. Com um pouco de exagero, posso dizer que o apartamento era tão pequeno que nele quase não havia espaço para acomodar o meu corpo e os meus pensamentos, ao mesmo tempo. Sempre tinha que deixar alguns deles do lado de fora, antes de fechar a porta.

Depois houve aquela vez em que fiquei preso em um elevador. Foi na época do apagão energético do governo FHC. É uma experiência que não desejo para ninguém, nem para os meus piores inimigos, se houvesse algum – graças a Deus não os tenho; e se alguém foi meu inimigo está perdendo tempo, porque não sou inimigo de nenhum ser humano. Primeiro a gente sente a surpresa do elevador parar e ficar fechado. E ainda por cima com as luzes apagadas. Quando a luz de emergência acende, você se pergunta: Por que logo comigo aqui dentro? Depois vem o sentimento de impotência e a sensação de que o elevador vai se estreitando. Você sabe que é somente uma sensação, mas não adianta. O espaço parece que fica menor e a gente fica cada vez mais espremido. Quando lhe tiram de lá, você ver que a cabina sempre esteve do mesmo tamanho e que você apenas teve uma sensação que “relativizou” o seu tamanho.

Em sentido contrário, a impressão de amplidão do espaço, eu tive quando me encontrei em pleno Oceano Atlântico, ao fazer uma viagem de navio. Para onde se olhava só se via um mundão de água. Essa mesma impressão se repetiu quando vi o mundo em cima de um dos picos dos Alpes e mais uma vez nos Andes. Entretanto, a sensação de um espaço sem fim mesmo senti quando olhei o céu pela primeira vez, através das lentes de um telescópio. É um mundão grande danado. E agora tem gente dizendo que, lá no fim, ele se acaba. O problema é saber se existe mesmo esse “lá no fim”.

E o tempo… será que é relativo? Sei não. Se é relativo, por que é que eu envelheço todo dia? E olha que eu não sou muito chegado a esse negócio de ficar velho. Só fico porque a outra opção e pior. Quem não fica velho morre, e esse negócio de morrer é zilhões de vezes pior que envelhecer. Envelhecer é olhar no espelho e ver os cabelos brancos e as marcas que o tempo deixa em nosso rosto, quando não as rugas, como consequência de sua passagem. E o tempo, ao passar, é inexorável. É igual ao Zorro, sempre deixa a sua marca.

Porém, você nota mesmo que está ficando velho quando as crianças de ontem são os adultos de hoje. Recentemente senti essa sensação. Aqui preciso contar uma estória. Em meado dos anos 50 do século passado, o seu Dix-neuf Rosado comprou uma radiola, uma radiovitrola de último tipo, com som Hi-Fi, de alta-fidelidade. Um dia Noguchi, seu filho, convidou alguns amigos para conhecer a novidade, inclusive a mim. Fomos ver aquela maravilha da tecnologia. Era uma mobília grande, quase do tamanho de uma cômoda, com radio, toca-discos e dois canais de som separados, porém ainda compondo um único móvel. Hoje, com os mini-systems e com o MP3, aquilo é peça de museu.

Todavia, o importante daquela visita, para a minha crônica de hoje, não foi a radiovitrola. Em determinado instante duas crianças, gêmeas e vestindo roupas iguais, entraram na sala correndo. Uma foi para o colo de seu Dix-neuf e a outra para o colo de dona Odete, sua mulher. Eram tão iguais que eu perguntei: “Como é que vocês distinguem uma da outra?”. Respondeu-me o dono da casa: “É fácil. Esta é Fátima, a menina de Dix-neuf. Aquela é Conceição, a menina de Odete”. Isso é, uma delas era mais chagada ao pai, e a outra à mãe.

A prova que o tempo não é relativo é que Fafá Rosado hoje é a Prefeita de Mossoró, e eu sou do tempo das radiovitrolas e em que ela era a “menina de Dix-neuf”. Em outras palavras, se eu envelheço dia-a-dia, como é que o tempo é relativo?

Em tempo: não estou verdadeiramente contestando Albert Einstein. Tomei a sua equação tão somente como tema desta crônica, como uma pilhéria e para provar que não estou tão velho assim, pois ainda sei brincar… até com a teoria da relatividade.