É uma Falácia Marxista, com certeza

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte
. Natal, 13 nov. 2011.
Gazeta do Oeste
. Mossoró, 17 nov. 2011.

 

Numa tese marxista fica bem, a exploração capitalista sobre a mesa. E se alguém humildemente questionar, se bate nesse alguém. Sim, o mundo marxista é assim mesmo. Nele não há outra possibilidade: ou se concorda ou se leva, no mínimo, desaforo. Totalmente diferente da casa portuguesa, da famosa canção imortalizada por Amália Rodrigues, na qual me inspirei para compor as duas frases iniciais desse artigo.

Em um dos meus livros publicados este ano, “Conexões e reflexões sobre economia”, há dois artigos que foram originalmente publicados neste jornal. Neles eu me refiro a vários posicionamentos bizarros da esquerda, principalmente aquele que prenuncia o fim do capitalismo e um outro, que contesta a tese de que o valor das mercadorias somente está no trabalho socialmente necessário para produzi-la, ou seja, somente o trabalho é que atribui valor às mercadorias. Esse conceito se chama de “teoria do valor-trabalho” e é o âmago, o centro de toda teoria social de Marx, na qual ele procura demonstrar a “exploração do homem pelo homem”.

Esta semana recebi de um amigo de São Paulo uma correspondência eletrônica com a reprodução de uma matéria, publicada em um jornal sindical, em que o autor procura me contestar, dizendo que sim, o capitalismo vai acabar (bastaria ver a crise atual) e que eu não entendia nada da teoria de valor-trabalho de Marx e com mais outras tantas bobagens que caracterizam os parlapatões (fanfarrões) aferrados aos dogmas de esquerda, direita ou da coluna do meio.

Sobre o fim do capitalismo basta dizer que esse é um modo de produção que se renova com suas próprias crises, como já aconteceu tantas vezes, para uma continuada decepção dos socialistas. Vamos ao valor-trabalho. Originalmente esse conceito não tinha nada de socialista, pois foi “encontrado” por Adam Smith, o pai do liberalismo econômico, e desenvolvido por David Ricardo, também defensor do capitalismo. Só mais tarde é que Marx a eles se juntou. Essa teoria faz parte daquilo que os economistas chamam de “teoria objetiva do valor” e sofreu um processo evolutivo que se iniciou com a concepção original de Adam Smith, para quem o valor de um bem é decorrente do custo de remuneração dos Fatores de Produção: Recursos da Natureza, Trabalho, Capital e Tecnologia. David Ricardo reduziu os Fatores formadores do valor para só dois: Trabalho e Capital. Marx considerou somente o Trabalho Socialmente Necessário, criando um reducionismo, uma unicidade sobre a qual soergueu sua concepção particular de valor-trabalho.

Jacob Gorender, um dos maiores pesquisadores brasileiros sobre a obra de Marx, afirma que, de: “Smith e Ricardo recebeu Marx a teoria do valor-trabalho: a ideia de que o trabalho exigido pela produção das mercadorias mede o valor de troca entre elas e constitui o eixo em torno do qual oscilam os preços expressos em dinheiro. Ao explicitar que se tratava do tempo de trabalho incorporado às mercadorias, Ricardo clarificou a medida do valor de troca, embora se enredasse no insolúvel problema do padrão invariável do valor”.

Tomar o trabalho como fato gerador único do valor, criou um problema epistemológico para Marx, cuja pseudo solução foi encontrada na mais-valia, isto é, se toda a riqueza era gerada pelos trabalhadores, a parte da riqueza que não fosse distribuída entre eles seria, então, uma usurpação que beneficiava os “não trabalhadores”. Indo nessa direção, a abordagem socialista da teoria do valor estabeleceu o princípio segundo o qual o valor das mercadorias e serviços é o valor-trabalho necessário para a sua obtenção, ou seja, o tempo e o trabalho que foram gastos por todos os indivíduos envolvidos no processo de elaborar esses bens. Repito, sobre esse conceito foi estruturada toda a teoria social de Marx.

A questão está em aceitar as palavras do criador do chamado “socialismo científico” como verdades absolutas, inquestionáveis, dogmáticas. Por que aceitar a exclusão dos recursos da natureza, da capital e da tecnologia na formação do valor das mercadorias? A explicação marxista é que todos esses elementos foram construídos ou obtidos com o trabalho e têm, portanto origem no trabalho do homem. O problema dessa tese é que, embora tenham sido obtidos com o trabalho, os recursos da natureza, o capital e a tecnologia não são mais trabalho, no máximo será trabalho imaginado, isso porque esses fatores foram transfigurados, tiveram suas respectivas naturezas irreversivelmente alteradas.

Não resta dúvida que, a primeira vista, os argumentos marxistas encantam, quer por sua simplicidade, quer pelo pretenso conteúdo científico. Todavia, não resistem a uma confrontação epistemológica, pois se alicerçam em premissas falsas, em falácias, em raciocínio falso.