É Proibido Pensar?

Prof. Tomislav R. Femenick 
Boletim Unibero. São Paulo, Ano XXI, nº 21, nov. 1995 

Como tudo o que forma o ideal da concepção ocidental de cultura, o ensino universitário brasileiro nasceu e se desenvolveu se espelhando em conceitos gerados na realidade européia. O conhecimento “universal” das coisas do saber e das ciências, era o objetivo das Universidades ciadas no velho mundo. O panorama universitário brasileiro, germinado desta mesma semente, tem recebido enxertos de várias espécies, porém mais e, principalmente, de conceitos educacionais norte-americanos.

Essas idéias, essas influências, esses sistemas e essas metodologias geraram algo que, se por um lado é dinâmico e abre opções de escolha, é ao mesmo tempo difuso, pouco claro e um cipoal entrecortado, difícil de ser atravessado durante os anos em que o aluno freqüenta os bancos das faculdades. Não é o caso isolado desta ou daquela universidade, pública ou particular, deste ou daquele Estado. É uma situação genérica… e preocupante.

De uns tempos para cá procurou-se dar uma feição tecnológica, “praticista” demais até, ao ensino superior brasileiro. Tentou-se ensinar aos alunos uma carga eminentemente técnica, voltada para cada um dos campos de especialização educacional; optou-se pelo ensino profissionalizante. O resultado foi uma amalgama de dificuldades, de obstáculos, de incompreensões que privaram ao aluno o entendimento global (que lhe era ministrado anteriormente) e lhe negaram o sagrado direito de formular raciocínio sobre o que lhe era dado em forma de instrução escolar superior. Este mundo mudou, acabou? Não, muito dele persiste, resiste e luta para continuar vivendo.

O aluno quando entra numa escola universitária tem por objetivo aprender novos conceitos, novas matérias e, via de regra, adquirir uma nova maneira de pensar, o célebre saber universitário, que lhe daria um espírito e capacidade crítica suficientes para desenvolver suas qualidades científicas, filosóficas e até estéticas. A maneira de ensinar adotada nas escolas superiores brasileiras atende a essa expectativa? Será que nossa maneira de ensinar faz acordar nos universitários a necessidade de pesquisar, raciocinar logicamente e formular idéias próprias? Fichar livro nunca foi pesquisa, resumir texto não é raciocínio lógico e fazer certos seminários nunca será pensar por si mesmo. Será que se fugindo do questionamento metodológico, ou até mesmo dos conteúdos programáticos, não estaremos apenas querendo manter o insustentável? Muitas outras interrogações poderemos fazer. Por exemplo: desde quando a rotina é mais importante do que o aprendizado? E a rotina tem o seu império acadêmico, de atividade meio as vezes se torna um fim em si mesmo.

Outro fator que atrapalha, distorce e deforma a universidade é o fato de não haver o empenho suficiente para fazer com que o aluno pense por conta própria. Muitas vezes aquilo que é dito, que é estabelecido, que é divinizado pelo professor não somente passa a ser a verdade absoluta, como se transforma no “absoluto” em si. Aqui está o impasse: só se pode praticar o uso da mente quando se pode questionar, inclusive, as verdades absolutas. Foi se questionando o geocentrismo que se descobriu a insignificância da terra perante o universo; foi ao se duvidar da forma achatada da terra que se descobriu a sua forma esférica e a América. Então por que não permitir, e mesmo incentivar, que se questione uma fórmula matemática não muito clara, uma teoria econômica, um conceito de administração, um princípio de contabilidade? As evidências históricas nos permitem concluir que, se não fossem os questionamentos constantes às coisas estabelecidas como verdades imutáveis, certamente a raça humana estaria ainda em um estágio de desenvolvimento que nos colocaria bem próximo dos nossos parentes primatas.

Mas nem tudo é sombra. Várias correntes de pensamento acadêmico já se posicionam buscando soluções, fazendo alterações, mudando métodos e comportamento. A estes mestres outros se agregam. Até o governo já fala em “reforma universitária”. Entretanto, mesmo que ainda haja muitos lugares vagos no trem das mudanças, o importante é termos consciência de que o corpo universitário é dinâmico, inquieto, irrequieto e sabedor de suas responsabilidades.