E EU ACREDITEI

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 15 mar. 2010.
Jornal Metropolitano, Parnamirim, 19 mar. 2010.
O Mossoroense, Mossoró, 27 mar. 2010.

Em 1983 as oposições ao governo militar lançaram a campanha das Diretas Já, entretanto o Partido dos Trabalhadores relutou a entrar na luta ao lado das outras lideranças, só o fazendo mais tarde, junto com a rede Globo, quando o movimento já tinha ganho as ruas e o apoio do povo. O novo partido dizia que queria manter distancia dos políticos tradicionais, mesmo que opositores do regime militar, embora esses políticos fossem Leonel Brizola, Tancredo Neves, Franco Montoro, Miguel Arrais ou Ulysses Guimarães. Afirmava que era um posicionamento conceitual, ideológico. Eu não entendi muito bem, mas aceitei como parte das diferenças que fazem parte e que devem coexistir na democracia.

Em 1984, quando o PT se posicionou contra a candidatura de Tancredo Neves à Presidência da República, ainda por eleições indiretas, dizendo que o mineiro era igual ao outro candidato, o paulista Paulo Maluf, eu discordei, mas acreditei que era uma outra postura ideológica. Para mim, a prova estava na expulsou de três de seus deputados que votaram no dr. Tancredo: Airton Soares, Beth Mendes e José Eudes.

Quatro anos mais tarde, em 1988, o PT não quis subscrever a nova Constituição, classificando-a de burguesa, retrograda e conservadora. Só a assinou sob protesto e por insistência e persistência do presidente da Constituinte, o deputado Ulysses Guimarães. Eu discordei, mas acreditei que era mais uma vez uma postura ideológica, o que, nas regras da democracia, deveria ser respeitada.

Em 1993, o partido ajudou a cassar Fernando Collor de Melo, mas, convidado, não quis fazer parte do governo de Itamar Franco. A deputada Luiza Erundina, um dos quadros mais forte do partido e ex-prefeita de São Paulo pela legenda, foi expulsa do PT por ter aceito o convite para ocupar o cargo de Secretária da Administração Federal, equivalente a de ministro de Estado. Achei estranho, mas acreditei ser mais vez uma postura ideológica.

No ano seguinte, em 1994, o PT ficou contra o Plano Real, propagando que ele seria mais um plano mirabolante, igual aos planos Cruzado I e Cruzado II, Bresser, Verão (governo Sarney) e ao confisco do Collor. Pensei: com tanto bons economistas, como o petismo poderia pensar assim? Mas, em todo caso, havia certa lógica na desconfiança. Eu novamente acreditei na boa índole do partido que eu tinha ajudado a organizar, mas que havia recusado a me filiar.

Em 1996, o partido das causas ideológicas expulsou mais um dos seus deputados, o Eduardo Jorge, porque ele votou a favor da Lei 9.311, que criou a CPMF. Eu concordei com o partido, porque achava (e acho) que nós brasileiros já pagávamos (e pagamos) impostos de mais da conta.

Na passagem do século, em 1999 e 2000, com argumentos confusos e pouco inteligentes, o Partido dos Trabalhadores se juntou às mais tradicionais e retrogradas lideranças do coronelismo político (Maluf et cetera) para combater o projeto que resultou na Lei Complementar Nº 101, a chamada lei de responsabilidade fiscal, que impõe disciplina nos gastos públicos. Dessa vez não acreditei, não concordei e fiquei contra.

Houve muitas outras oportunidades em que discordei do PT, mas creditava nas suas boas intenções. Ai chagaram a aceitação de Brizola como vice de Lula em uma das eleições perdidas, Marcos Valério, os mensalões, dólares nas contas de Duda Mendonça, nas cuecas e em maletas, o neo-liberalismo (o que é que é isso, afinal de contas?) de Antonio Palocci, Henrique Meirelles e do meu ex-professor Guido Mantega, as amizades coloridas com Sarney, Antonio Delfim Neto, Renan Calheiros, Fernando Collor, Jader Barbalho e muitos outras mais. Não deu mais para acreditar em boas intenções e postura ideológicas de um partido que assim age.

Agora entornou o caldo: em entrevista a uma agencia de notícia internacional, Lula disse (e alguns líderes do PT coonestaram; fez parecer honesto) que a “justiça” cubana merecia respeito quando prende os opositores da ditadura castrista e colocou na mesma categoria os presos políticos de Cuba e os assassinos, estupradores, ladroes e sequestradores presos em São Paulo. Chega, definitivamente deixei de acreditar no PT.

Esse é um caso explicito de suicídio de uma bonita biografia.