Dólar fraco, melão azedo

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 24 jun. 2007.
Tribuna do Norte. Natal, 24 jun. 2007.

A primeira cidade europeia que conheci foi Londres, a capital do ex-império britânico. Foi no início da década de setenta do século passado. Como era de se esperar, tudo me fascinava, pois tudo era diferente. Os carros andando pelo lado esquerdo das ruas e das estradas, a fleuma e a elegância inglesa, a educação distinta das pessoas e uma série de outras novidades para um interiorano nordestino, muito embora já com passagens por outros países da América Latina e pelos Estados Unidos. Era um mês de janeiro em que houve um brabo período de nevasca. As ruas estavam brancas de neve. Como não poderia deixar de ser, fui conhecer a Harrod’s. Para minha surpresa, a principal vitrine da celebre loja de departamento continha somente três frutas tropicais, exibidas como troféus naquele frio de rachar: um melão, um mamão e uma anorética penca de bananas. Hoje em dia, como a globalização da economia e a dinamização dos meios de transportes, esse seria um fato banal, mas em 1972 era algo de extraordinário. E o nosso Estado contribuiu com uma parcela, para que houvesse essa transformação. Contribuiu cultivando racionalmente frutas, para exportação.

A história da fruticultura do Rio Grande do Norte, especialmente a irrigada, deve ter, obrigatoriamente, um capítulo dedicado à atuação de D. Elizeu Simões Mendes, o terceiro bispo de Mossoró. Em seus quase seis anos à frente da Diocese – de janeiro de 1954 a outubro de 1959 – ele desenvolveu os programa de Valorização dos Vales dos Rios Apodi e Assu, com planos de construção de açudes, irrigação, reflorestamento, moto-mecanização e armazenagem. Os problemas da agricultura da região começaram a ser discutidos e analisados em seminários e cursos, mas havia carência de recursos para financiar os projetos, grande parte deles envolvendo agricultores pobres. Dom Eliseu conseguiu esses recursos junto ao governo federal e, ainda, a participação direta do governo do presidente Juscelino Kubitschek nos projetos. Veio dinheiro para financiar as motobombas e vieram, também, agrônomos e veterinários. Foram perfurados cacimbões, construídos canais de alvenaria, distribuídas sementes e mudas, organizadas cooperativas e sindicatos rurais, instaladas linhas telefônicas e postos de saúde. Com a sua transferência para Campo Mourão, no Paraná, os programas de fruticultura irrigada definharam e quase que desapareceram.

Depois, houve novos capítulos, passando pelo pioneirismo da Maisa e de outros empresários que tiraram do semi-árido potiguar o doce sabor do melão, da manga, da melancia e de outras frutas tropicais – ai incluído até o cultivo recente da variedade ornamental do abacaxi, essa exportada para países europeus. É importante saber que o nosso Estado ocupa o segundo lugar nas exportações brasileiras de frutas e que, no início deste ano, o agronegócio foi responsável pela maior parte das nossas exportações. Mas nesse cenário é o melão que tem papel de destaque, pois o Rio Grande do Norte é o maior produtor e exportador nacional dessa fruta. Por sua vez, a mesorregião de Mossoró (especialmente os Municípios de Mossoró, Baraúnas e Assu), lidera as exportações de frutas, especialmente de melão, mamão, manga e melancia, além de castanha de caju, isso porque o cultivo destas frutas requer pouca água e muito sol; a primeira escassa na região, e a luminosidade e calor solar abundantes. Resultado: a fruticultura responde por cerca de 30% de toda movimentação do porto de Natal, além de também usar terminais portuários de Estados vizinhos.

Entretanto os produtores vêm sentindo o gosto amargo da baixa cotação do dólar perante a moeda nacional. Se em 2005 as exportações de melão somaram 180 mil toneladas, em 2006 caíram para 173 mil toneladas – sete mil toneladas e dois milhões de dólares a menos. Para este ano, estima-se que as exportações de melão se situem no mesmo patamar do ano passado. Tal fato é, na verdade, uma perda da rentabilidade dos empresários do setor. Como os produtores exportam em dólar mas recebem as suas exportações em real (a moeda brasileira), quando menos valor tenha a moeda norte-americana menos reais eles recebem.

Para enfrentar essa realidade, os fruticultores potiguares – em sua grande maioria, cerca de 70%, agrônomos que vivem de sua atividade e empregam avançadas técnicas de produção – partiram para o corte de custos e contenção de investimentos. Visam manter o nível das exportações para não perderem o mercado externo já conquistado e segurar a clientela cativa. Resumo da situação: hoje os exportadores de frutas se esforçam para evitar prejuízos, não têm como fazer novos investimentos para aumentar a área de produção, procuram manter o nível de emprego no setor e segurar o mercado externo, este conquistado a duras penas. Isso não é “catastrofismo” de economista. Não. É a realidade de um setor pioneiro que não foi contemplado pelas medidas recentemente anunciadas pelo governo federal, visando “compensar” alguns exportadores pelas suas perdas cambiais.

Alias, no regime de cambio flutuante adotado pelo Banco Central, tais medidas são inócuas, pois são apenas paliativos circunstanciais e de curto prazo. O que se precisa fazer é uma drástica revisão de nossa política fiscal visando reduziu a carga tributária, realizar fortes investimentos na infra-estrutura de logística, reativar e atualizar a nossa malha ferroviária, melhorar as estradas de rodagem (operação que deve ir além do simples “tapa buracos”), modernizar os portos, reduzir a burocracia em todas as fases produtivas et cetera e tal. Em outras palavras: é necessário reduzir o “custo Brasil”; um conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas, ideológicas e econômicas que encarecem as atividades produtivas no país, dificultando o crescimento econômico e as exportações, ao mesmo tempo em que favorece o desemprego, o trabalho informal, a sonegação de impostos e a evasão de moedas fortes. Assim, o “custo Brasil” abrange, entre outros, fenômenos tais como: a corrupção ativa e passiva, a alta incidência de impostos, o déficit público elevado, as dificuldades criadas por órgãos ambientais, a burocracia excessiva, os juros altos, os custos trabalhistas.

Enquanto as exportações forem bem mais altas que as importações, enquanto entrar mais dólares no país que a quantidade que sair (a qualquer título) e se não houver uma comoção política por aqui ou lá fora, o real vai se manter no patamar atual, pois em economia não há milagres. Há, primordialmente, a lei da oferta e da procura.

E quem vai arcar com o “custo Brasil”? Os industriais dos setores têxteis, da carcinicultura, do turismo receptivo e da fruticultura e tudo o povo brasileiro.

HA QUASE 40 ANOS

“Como um dos pólos de desenvolvimento potiguar, a Capital do Oeste está reestruturando sua máquina burocrático-administrativa, criando novas condições de trabalho, implantando nova estrutura, que dará meios ao Oeste Potiguar, Alto Sertão da Paraíba e à região do Jaguaribe, no Ceará, para acompanhar o rush da industrialização regional. O novo sistema de telecomunicações, que liga o município ao resto do Brasil; a instalação de um novo serviço de abastecimento de água; a construção de um perfeito serviço de esgotos; a recuperação do aeroporto; a instalação de novas linhas de eletrificação; a edificação de novos núcleos habitacionais; o reaparelhamento hospitalar e o aumento substancial da rede escolar atestam o interesse dos que comandam a administração municipal em vencer a batalha em que se acham empenhados. Mossoró vive, hoje, uma fase de transformações. Há, em toda parte do Município um clima de mudança. Até nos costumes, nos hábitos e no espírito do povo. Desse povo de bravos, povo que sorrindo enfrentou Lampião e seu bando de cangaceiros e não poderia capitular ante a ameaça do subdesenvolvimento. É por esta razão que Mossoró é um desafio à parte”. – Matéria publicada na edição especial dedicada a Mossoró do Diário de Pernambuco, Recife, 23 de junho de 1968.