DO COLONIALISMO ÀS TRANSNACIONAIS

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 15 jul. 2007.
Tribuna do Norte. Natal, 15 jul. 2007.
Jornal de Fato. Mossoró, 15 jul. 2007.

A globalização da economia tem atingido de formas diversas a economia do Rio Grande do Norte. Abriu as portas para a exportação de nossos produtos (frutas, minérios, camarão, turismo, têxteis etc.) e, ao mesmo tempo, trouxe para cá os efeitos da concorrência de produtos similares elaborados no exterior. Como e por que isso acontece?

A história da humanidade mostra que os povos e os países só conseguem viver isolados por um curto período de tempo, pois o intercâmbio é uma tendência natural entre o ser humano. Nenhum país, mesmo os mais ricos e poderosos, consegue viver por muito tempo isolado do resto do mundo – as experiências do início da União Soviética e da China maoísta são exemplo típicos. Dependendo do contexto histórico e das condições políticas e econômicas objetivas, os povos omitem-se, entram em conflito ou cooperam entre si. Por isso é que se evidencia que as relações entre as nações têm-se ampliado – com avanços, recuos e novos avanços – ao longo da história. No momento, vive-se um período de cooperação que parece ser de natureza duradoura, porém também com avanços e recuos.

Nos últimos anos o termo globalização vem sendo usado com muita frequência, para caracterizar a expansão internacional do capital, produção, tecnologia, comunicações, consumo, assim como de manifestações culturais. Esse fenômeno se intensificou a partir dos últimos 20 ou 30 anos. O conceito de internacionalização comercial, tecnológica e cultural é converso entre as várias correntes do pensamento das ciências econômicas, sociais e históricas, no mais das vezes carregadas de fortes conteúdos e preconceitos ideológicos.

Para se poder localizar, historicamente, o início do processo maior de internacionalização das relações comerciais, há de se retroceder aos descobrimentos ibéricos do final do século XV, quando portugueses e espanhóis lançaram-se ao mar desconhecido, em busca do “caminho das Índias”. Esse passo quebrou as barreiras da economia feudal da Europa de então, proporcionando meios de comercialização de mercadorias europeias na Ásia, África e América e de produtos desses “novos mundos” no mercado europeu (e por seu intermédio no mercado internacional), se bem que ainda em pequena escala. O passo seguinte foi dado com o colonialismo, também um movimento europeu, que sedimentou o mercantilismo e adensou as trocas internacionais, objeto mesmo da empresa colonial. Junto com o comércio, intensificaram-se, também, as relações culturais, que alteraram costumes e comportamentos de colonizados e colonizadores, num processo de assimilação mútua.

Desmoronado a partir do final da Segunda Guerra Mundial, isto é, a partir de 1945, o colonialismo deixou herdeiras: as empresas multinacionais que, a partir de então, passaram a controlar o comércio entre as nações do mundo, naquilo que se convencionou chamar de “imperialismo econômico”. Essas organizações (industriais, comerciais, financeiras ou de outros setores de prestação de serviço) eram as que tinham maior alcance além-fronteiras. Na esfera capitalista, eram corporações empresariais e financeiras norte-americanas, européias e japonesas. No mundo atrás da cortina de ferro, eram as grandes organizações estatais soviéticas e chinesas – e algumas poucas da Tchecoslováquia e da Alemanha Oriental – que desempenhavam esse papel, com o mesmo caráter de exploração comercial.

Hoje, na primeira década do século XXI, as transnacionais estão tomando outra feição, estão lentamente perdendo as ligações com os interesses dos países que lhes deram origem e se tornando empresas transnacionais, isto é, organizações sem amarras fronteiriças, com acionistas espalhados por todo o mundo. Essa demorada metamorfose não é resultado de planejamento interno, é consequência de movimentos exógenos a essas empresas: tais como oportunidade de obtenção de lucros, origem dos acionistas, custo da mão-de-obra, incentivos governamentais etc. Porém para que essas organizações atinjam a uma completa desvinculação dos seus respectivos países de origem, ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Entretanto, o processo de internacionalização do capital nada tem de muito recente. A rigor, vem sendo observado desde o último quartel do século XIX. Já no início do século XX, vários historiadores e economistas, entre eles o inglês J. Hobson, sinalizaram o fim do “capitalismo de concorrência” e sua gradual substituição pelo sistema classificado como “imperialismo”. Esta seria uma nova fase do capitalismo, baseada em grandes empresas transnacionais que exportariam capitais e instalariam unidade de produção em diversas regiões do globo, dando início ao que Lênin chamou de a “era do domínio dos monopólios sobre a economia”. Embora não da forma catastrófica como prevista, a internacionalização capitalista ocorreu e continua evoluindo, a ponto de ter alcançado a dimensão atual. O fenômeno expressa uma formidável concentração e centralização do capital, cuja expansão exige a ampliação dos mercados e fenômeno que não se pode realizar satisfatoriamente nos limites de uma só nação. Do ponto de vista ideológico, o velho liberalismo, sustentáculo teórico do “capitalismo de concorrência pura”, foi criticado e, de certo modo, demolido em seus principais pressupostos pelas ideias desenvolvidas por um outro economista inglês, John Maynard Keynes, durante os anos 30.