CRISE E VIÉS IDEOLÓGICO

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 25 fev. 2009.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 23 jan. 2009.

Assim como na política, no mundo o ano econômico começou de fato no dia 20 passado, com a posse de Barack Obama na presidência dos Estados Unidos. Por enquanto vemos um mapa de intenções e um cenário de calamitosa devastação. Assim como nos outros países, por aqui temos um quadro que mostra o crescimento da crise. Diversos fatores apontam para isso: no mês passado o desemprego somou um corte de mais de 650 mil vagas, o real foi a moeda que mais se desvalorizou com a crise (48%), os fundos de pensão brasileiros perderam cerca de R$ 20 bilhões em 2008, ano que registro “fuga” de moeda estrangeira em montante equivalente a 25% das reservas do país. Para completar, o valor de mercado de 323 empresas que têm ações negociadas na Bovespa sofreu uma desvalorização de R$ 871 bilhões, no ano passado.

Apesar de tudo isso, nós não estamos na pior situação. O jornal Financial Times, a bíblia financeira de Londres, acha que o Brasil está bem colocado para a tempestade que abala o mundo das finanças. Diz mas: “os bancos brasileiros estão entre os mais capitalizados do mundo” e que “quando a poeira baixar, o Brasil estará em boa posição”.

Que a situação do mundo e do Brasil é grave, é. Daí porque as mentes lúcidas estudam os fatos atuais associados ao tempo e espaço presente, isto porque, como dizia Kant, todos os fatos estão justapostos no espaço e as mudanças de representações não são possíveis senão no tempo. Em contraposição a forma séria de pensar, o doutor Jorge Almeida Guimarães, presidente da CAPES, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do MEC, pôs em dúvida a qualidade dos cursos de doutorado em economia das universidades de paises do primeiro mundo, perguntando: “Vamos continuar mandando alunos para formar doutores num modelo que faliu o mundo?”. Será que ele pensa que o capitalismo faliu ou isso é simplesmente um caso de astereognosia ideológica (incapacidade de identificar os fatos como eles realmente são)?

Desde que eu comecei a ler sobre economia que me deparo com livro, ensaios, artigos etc., anunciando o prenunciando do fim do capitalismo. Essas obras são de varias origens ideológicas. Partem de “O capital”, de comunista Marx, e vão até “A crise do capitalismo”, de mega-investidor internacional George Soros, passando por Fernand Braudel, Michel Aglietta, Giovanni Arrighi, Beverly Silver e Andre Gunder Frank. No Brasil temos Maria da Conceição Tavares, Maurício Dias David, Theotonio dos Santos, Maria Yedda Linhares, Théo Araújo Santiago, Osvaldo Coggiola e Vláudio Katz. O capitalismo não morreu; mas o socialismo, sim.

A causa da sobrevivência do capitalismo sempre foi buscada pelos pensadores de esquerda. Socialistas e comunistas sempre se destacaram no estudo sobre o comportamento do capitalismo. Na sua maior obra, Marx estudou não o socialismo ou o comunismo, analisou o capitalismo. O soviético Nikolai Dmitrievich Kondratiev, escalado pelo partido comunista de URSS para pesquisar como se daria o fim do capitalismo, chegou à “teoria dos ciclos econômicos”, segundo a qual no modo de produção capitalista existem períodos com duas fases que se contrapõem, que geram novas formas de produção e distribuição de riqueza.

Um outro grande estudioso do capitalismo foi o polonês Michal Kalecki, conhecido como o Keynes da esquerda, um teórico cuja formação foi baseada unicamente em obras de Marx e de marxistas, como Tugan-Baranovski e Rosa Luxemburg. Embora não seja inteiramente correto, há quem diga que Kalecki seja uma keynesiano, com idéias semelhantes às de Lord Keynes – o polonês foi seu antecessor no estudo de alguns temas. Além do mais Kalecki foi inovador. Ao estudar a economia capitalista, introduziu a perspectiva, o ângulo do monopólio, da concorrência imperfeita e da manipulação dos preços, bem como a renda e o consumo (é famosa a sua frase: “Os trabalhadores gastam o que ganham e os capitalistas ganham o que gastam”) e a cadeia existente entre investimentos-lucro-investimento.

Não sei qual a orientação política do Dr. Jorge Almeida Guimarães. Fazendo parte de um governo petista, certamente não é de direita, indicado que foi para ocupar o cargo de diretor do Capes pelo “democrata” Tarso Genro, aquele que deporta sumariamente atletas cubanos que queriam ficar no Brasil e oferece asilo a um terrorista italiano de esquerda. Talvez ele não raciocine na linha correta por medo. Medo de que aconteça com ele o que aconteceu aos socialistas que estudaram o capitalismo e concluíram que este é um sistema que se renova e se refaz. Kondratiev foi deportado para a Sibéria, aonde veio a morrer. Kalecki, que não se entendia com o governo stalinista da Polônia, foi acusado de não marxista e de plagiador. Morreu, ele não morreria. Ser acusado de não ser esquerdista, é possível. Perder o cargo, certamente.