COOPERATIVISMO COMO IDEIA

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte
. Natal, 24 out. 2010.

O cooperativismo prega a ação conjunta como forma de organização e ação econômicas, agrupando pessoas ou grupos de indivíduos que têm o mesmo interesse, a fim de obter vantagens comuns em suas atividades de produção, reduzindo custos, obtendo melhores condições de prazo e preço e edificando instalações de uso comum. Usa os mecanismos do sistema em vigor, em busca de alternativas e soluções para os interesses de seus associados. Por isso, as sociedades cooperativas são um tipo singular de associação que exigem uma visão mais ampla e detalhada de suas característica, ideologia e legislação.

O primórdio do cooperativismo remonta aos tempos das comunidades primitivas, e perpassou por todos os tempos históricos e continua na época atual. Como movimento moderno, o cooperativismo apareceu no século XIX, tendo como causa a revolução industrial, processo resultante de um conjunto de fatores, tais como o desenvolvimento tecnológico (notadamente o aparecimento dos motores a vapor), a acumulação de capitais obtidos pelo colonialismo e o liberalismo econômico. Além do impacto econômico, obtido pelo ganho da escala produtiva proporcionado pelas máquinas e pelas novas tecnologias de produção, houve o abalo social provocado pela falta de regras que regulassem as relações dos detentores dos meios de produção com as pessoas que formavam a força de trabalho; homens, mulheres e crianças. O liberalismo econômico exacerbado chegou a adotar jornadas diárias de trabalho de até 16 horas, em condições miseráveis de trabalho e salários. O cooperativismo despontou como contrapondo a esse estado de coisas, como uma unidade de ação mutuaria de colaboração conjunta.

Talvez o pioneiro entre os pensadores e ativistas do cooperativismo tenha sido o holandês Peter Cornelius Plockboy (1620-?), que fundou associações de agricultores, artesãos, marinheiros e professores em sua terra e, na América colonial inglesa, uma colônia de bases pré-cooperativistas, que foi dissolvida logo após de sua fundação, por ordem do governo inglês. Outro foi Robert Owen (1771-1858), industrial e filosofo socialista do País de Gales, que organizou duas cooperativas, como forma de dar ocupação aos desempregados; uma na Inglaterra e outra nos Estados Unidos. Louis Blanc (1811-1882), idealista e ativista político francês, com importante participação na Revolução de 1848, idealizou associações de trabalhadores de um mesmo ramo de produção e conseguiu financiamento para a criação das Oficinas Nacionais (cujos lucros seriam divididos entre o Estado e os associados), porém a experiência durou pouco tempo.

Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), outro francês (filósofo, economista e político), defendia as associações dos trabalhadores e a propriedade coletiva dos meios de produção pelos trabalhadores e tentou criar um “banco operário”, semelhante em alguns aspectos, às atuais cooperativas de crédito. Anarquista, é um dos mais influentes teóricos desse movimento. Foi alvo de ferrenhas criticas por parte de Karl Marx, que o considerava um “socialista utópico”.

Outros pensadores e ativistas do cooperativismo devem ser citados. Entre eles estão os ingleses John Bellers (1654-1725) e Willian King (1786-1865). Em 1690 o primeiro idealizou as “colônias cooperativas de trabalho”, para reduzir despesas, eliminar os intermediários e as interferências de terceiros. O outro se dedicou ao “cooperativismo de consumo”. Há os irlandeses William Thompson (1775-1833), cujas concepções deram base aos organizadores dos sindicatos de trabalhadores (e, de certa forma, ao pensamento de Marx), e Edward T. Graig (1804-1894) que em 1830 participou da organização da Colônia Integral de Ralahine, no Condado de Clare, na Irlanda.

Ainda na França, Charles Fourier (1772-1837), filósofo, economista e político foi o idealizador das cooperativas integrais de produção e consumo, criando comunidades onde a posse dos meios de produção era comum a todos os associados. Essas comunidades eram chamadas de falanstérios. Por sua vez, o anarquista Michel Derrion (1802-1850) fundou em 1835, em Lyon, a cooperativa Commerce Véridique et Social, para venda de comestíveis e produtos para o lar, de curta duração. Na década seguinte, formou no Brasil a Colônia do Palmital, na Província de Santa Catarina, com ideias de cooperação para a produção agrícola.

Nessa lista não pode falta o belga Philipe Buchez (1796-1865), que criou o chamado cooperativismo de autogestão, independente do governo ou de terceiros. Na França, tentou organizar as “associações operárias de produção” e organizou cooperativas de trabalho. Por último, temos o anarquista russo Piotr Alexeyevich Kropotkin (1842-1921), que estudou as cooperativas de exilados na Sibéria, ainda no governo dos Czares.