Conversando com… TOMISLAV FEMENICK

Gazeta do Oeste.Mossoró, 16 jan. 2000

 

Um mossoroense croata. Assim se auto define o multifacetado Tomislav R. Femenick. Nascido em Mossoró, no dia 19 de abril de 1939, ele é filho do croata Edmund Femenick e da mossoroense Maria José Mota Lima. Com mestrado em Economia, tendo extensão em sociologia e história pela Pontifícia universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Tomislav fez pós-graduação em Economia Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), tem bacharelado em Ciências Contábeis e formação em Administração de Empresas e Ciências Econômicas. Antes de viajar para São Paulo, há 30 anos, onde está radicalizado até hoje, Tomislav se notabilizou na direção da casa de shows Snob, uma das mais tradicionais de Mossoró, à época. Antes, havia instalado a primeira agência de publicidade da cidade, a Propag, com Walter Gomes e Francisco Ferreira Souto (Soutinho). Nos idos de 64 também instalou o instituto de pesquisas Serpes. Nesta entrevista, ele relembra fatos da história de Mossoró, anuncia lançamento de um mega livro sobre a cidade, avalia o atual momento econômico do país e discorre sobre outras questões. Ei-la:

GAZETA DO OESTE – Há quanto tempo o senhor partiu de Mossoró e onde reside atualmente?

TOMISLAV R. FEMENICK – Há 28 anos sai de Mossoró, e já faziam dez anos que não visitava a minha cidade. Desde que parti de Mossoró, resido em São Paulo, capital. Porém, nunca perdi os laços de amizade deixados em Mossoró e, principalmente, a formação cultural aqui absorvida na minha infância, adolescência e mesmo na fase adulta. Eu me considero o homus mossoroense por formação e por adoração. Não há por que quebrar os laços telúricos.

GO – Enquanto residiu em Mossoró, o senhor desenvolveu inúmeras atividades. Poderia relembrar algumas?

TRF – A. minha primeira afetividade profissional em Mossoró foi como jornalista no jornal “O Mossoroense”. Na mesma época, associado com Walter Gomes e Francisco Ferreira Souto (Soutinho), criei a primeira agencia de publicidade de Mossoró, a “Propag”. Fui funcionário do Banco do Nordeste durante 13 anos, já possuí estabilidade, porém pedi demissão. Em 1964, criei o Serpes, um instituto de pesquisa, que depois se transformou em agência de notícia e que fornecia informações sobre Mossoró e sua região para os jornais “Diário de Natal”, “Diário de Pernambuco”, “O Povo” de Fortaleza (CE), “Correio Braziliense”, “Folha de São Paulo” e, eventualmente, para as revistas “Visão”, “Banas” e “Veja”. Dessa ‘forma, Mossoró estava na mídia nacional com duas matérias diárias. Acredito que tenha sido o período em que nossa cidade tenha tido mais divulgação.

GO – O senhor acredita que, a partir da criação do Serpes, passou a influenciar outros profissionais da comunicação a divulgar a cidade de Mossoró também?

TRF – Sim. Seguindo os passos do Serpes, outros jornalistas passaram também a mandar notícias de Mossoró para outros jornais. Elviro do Carmo Rebouças passou a ser o correspondente do jornal “Tribuna do Norte” e François Paiva tornou-se o representante do “Jornal do Commercio”, de Recife (PE). Não devemos nos esquecer que a “Folha de S. Paulo” naquela época contava em seus quadros de jornalistas com a figura de Calazans Fernandes, que muito divulgou Mossoró e todo o Estado do Rio Grande do Norte naquele periódico paulistano. Calazans usava as notícias do Serpes e as distribuía em várias seções da “Folha de S. Paulo”.

GO – O senhor atuou também como empresário na noite. Como se envolveu com uma atividade tão estranha para sua personalidade?

TRF – Desde criança, tenho uma persistente insônia. Durmo somente três horas por dia. Tinha que ocupar meu tempo. pensei numa boate, que era afinal de contas um clube para me divertir. Dois meses depois fui alertado pelo meu gerente de que a boate dava lucro. Deixei de me divertir e passei a trabalhar. Transformei as 12 mesas de então em 150, e o salão inicial de 30 m2 em 200 m2, com dois dancings. Sempre fui muito exigente com a qualidade do que faço. Com a “Snob” aconteceu a mesma coisa. Se era para ter uma boate, que fosse a melhor. E foi a melhor. Inovamos em iluminação, em som, em distribuição de espaços, em atendimento e na qualidade dos produtos servidos.

GO – O senhor transformou, então, a “Snob” em ponto obrigatório da sociedade mossoroense?

TRF – Melhor do que eu, a minha querida amiga Ivonete de Paula poderia responder sua pergunta. Porém, diria que a “Snob” passou a ser o clube da família mossoroense. Lá aconteciam as melhores festas, se apresentavam os melhores artistas, bem como passou a ser um ponto de referência do turismo do Estado. Não diria somente que a “Snob” foi apenas uma casa de diversão. Era um ponto de encontro onde aconteciam grandes negócios, grandes entendimentos políticos e casamentos também.

GO – Qual era a principal dificuldade em manter um estabelecimento desse porte, naquela época?

TRF – Só havia uma dificuldade: receber os pinduras.

GO – O que o levou a abandonar esse ramo e qual a sua atual função?

TRF – Vendi a “Snob” quando me transferi para São Paulo. Lá, tive que me redirecionar profissionalmente. Hoje, a minha principal atividade profissional (se não a que me dar maior renda, porém a que me consome maior tempo) é ser professor universitário. Tenho cerca de 40 horas semanais. Além disso, tenho uma empresa de auditoria e consultoria e uma outra de designer gráfico. Na primeira delas, trabalho com equipe que atende grandes empresas nos setores de indústria, transporte e alimentação. Na outra, fazemos atendimento a jornais no desenvolvimento de novas diagramações e escolha de tipagem etc. O que nós procuramos é criar uma forma de o jornal atrair o leitor e facilitar a leitura. Aí, como nas mulheres, a beleza é fundamental. Saravá, Vinícius!

GO- Como professor, quais as matérias que o senhor leciona?

TRF – Eu sou titular das cadeiras de Economia, Microeconomia, Contabilidade, Custos, Perícia Contábil, Câmbio, Comércio Exterior, Administração Financeira e Orçamento. Basta!

GO – Qual a avaliação o senhor faria de nossa economia?

TRF – Economia é uma matéria que não deve ser vista isolada das outras realidades. Não se pode falar em economia sem se falar em política. Economia não tem vida autônoma, ela é dirigida pela política. Da mesma forma que também influencia a política. Essas duas atividades são imbricadas tal qual irmãs siamesas. A realidade econômica se apresenta difícil, como resultado de uma série de políticas totalmente erradas, adotadas por governos de direita e de esquerda. Desde o regime militar que se criou dois monstros. De um lado a reserva de mercado para as empresas nacionais. Do outro, a inflação. Então, nós tínhamos empresas que não sabiam quanto estavam gastando e nem se preocupavam com isso, pois o consumidor brasileiro era obrigado a consumir os seus produtos a qualquer que fosse o preço. Paralelo a isso, houve a defasagem tecnológica, que transformou os produtos nacionais em mercadorias de segunda ordem. Nesse quadro, o Brasil foi cada vez mais se transformando em um fornecedor internacional de matérias-primas básicas e de produtos semi-manufaturados. Em outras palavras: se produzia um baixo valor agregado que resultava um pequeno poder aquisitivo dos trabalhadores. Essa situação perdurou desde o golpe de 64 até o governo Sarney. Todos os planos econômicos do governo Sarney foram meros paliativos. Menos que operação plástica, foram retoques de maquiagem. O que se teve que fazer foi acabar com a inflação, para se identificar o custo real da produção; acabar com a reserva de mercado, para que o empresário se visse compelido a reduzir os seus custos; atualizar tecnologicamente o sistema produtivo e o próprio produto. Então, a economia de hoje é uma economia que visa a transição de uma ordem arcaica para uma ordem globalizada, em que a castanha de caju de Mossoró compete com a castanha de caju da Índia, por exemplo.

GO – Retornando a Mossoró. Como o senhor vê a economia da região?

TRF – Quando saí de Mossoró, havia uma situação em que politicamente o Estado tinha Natal como pólo diretor e Mossoró era o pólo econômico. Além do mais, as grandes empresas de Mossoró eram mossoroenses. Dirigidas por mossoroenses. A S/A Mercantil Tertuliano Fernandes, a Alfredo Fernandes & Cia., Antonio Ferreira Néo & Cia., J. Duarte & Cia., F. Souto & Cia., e várias outras. Hoje, as grandes empresas de Mossoró não são mossoroenses. Estão em Mossoró. Hoje em Natal também está o pólo econômico do Estado. A minha analise é que Mossoró, infelizmente, perdeu a importância. O preço disso tudo é um inchaço da cidade, que cresceu de forma desordena e que, além de tudo, recebeu o impacto do reflexo da política econômica em crise.

GO – O senhor já publicou 17 obras e prepara o lançamento de um livro sobre Mossoró nos anos 60 e 70. De que se trata essa obra?

TRF – A culpada de tudo isso é minha mulher, a professora Goreth Femenick. Mexendo nos meus arquivos, ela descobriu os recortes de todas as notícias divulgadas pela Serpes. E viu que era a história de Mossoró, de 1966 a 1971, período em que foram descobertos a água e o petróleo em Mossoró, que aqui chegou a luz de Paulo Afonso, que foram criadas a Esam e a Universidade Estadual, que foi iniciada a construção do Porto Salineiro, que as estradas começaram a ser asfaltadas. Em síntese, foi um período fértil. O governo de Raimundo Soares e o início do segundo mandato de Antônio Rodrigues de Carvalho.

GO – Sobre suas obras já lançadas?

TRF – Tenho publicado um total de 17 obras. São 13 monografias, todas voltadas para o campo da economia, da sociologia e da história econômica, e mais quatro livros. Existe uma aspecto que eu gosto de ressaltar. E que dois livros meus são resultado de pesquisas realizadas pelos meus alunos. No Centro Universitário lbero-Americano, eu ensino duas matérias que julgo bastante interessantes. Uma delas é Contabilidade para o curso de Hotelaria. Os alunos do segundo ano pesquisaram a Metodologia de Custos e resultou no livro “Sistema de Custos para Hotéis”. Também os alunos do curso de Administração Financeira fizeram um trabalho sobre Câmbio e Comércio Exterior, e resultou no livro “O Brasil na Crise Global”. Note-se que eu publico o nome dos alunos nos seus respectivos capítulos.

GO – Em que período o senhor realizou uma pesquisa eleitoral que acabou se tornando histórica na política de Mossoró?

TRF – Havia um compromisso das duas grandes correntes políticas de Mossoró, Rosado e Duarte Filho, em se unirem na eleição de um senador e, posteriormente, na eleição do prefeito, o que resultaria numa pacificação das forças, que se chocavam até então. Duarte Filho foi eleito senador e me encomendou uma pesquisa de opinião pública para identificar o melhor candidato dá coligação para ocupar a prefeitura de Mossoró. Feita a pesquisa, o nome do único candidato a candidato, Vingt-un Rosado, apareceu como o mais votado. Porém, correndo por fora, sem ser cogitado de nenhuma forma, apareceu em segundo lugar o nome de Antônio Rodrigues de Carvalho. Na interpretação da pesquisa, eu indiquei que a única força política independente, com votos próprios, era o senhor Antônio Rodrigues. O detalhe importante é que Duarte Filho tinha sido derrotado para a Prefeitura de Mossoró anos antes, pelo mesmo Antônio Rodrigues. Querendo obter apoio de Aluízio Alves para a coligação, o senador Duarte Filho apresentou-lhe o resultado da pesquisa. Então, Aluízio interpretou que Antônio Rodrigues poderia vencer os Rosado, o apoiou, e, ao final, todos sabem: Antônio Rodrigues venceu Vingt-um Rosado. O fato curioso é que eu é que fiz a campanha de Vingt-un, pessoa por quem tenho o melhor e mais respeitoso afeto, desde a minha infância.

GO – Como funcionava a imprensa no período em que o senhor militava em Mossoró?

TRF – Realmente, eu comecei a trabalhar na imprensa no “Jornal de Alagoas”, um órgão dos Diários Associados na capital alagoana. Eu comecei com treze anos exercendo as funções de repórter, me forçando a escrever, pois eu não sabia escrever ainda. De lá é que vim para Mossoró. A grande diferença da imprensa daquela época para hoje é que essa era uma atividade mais idealista, mais intelectualizada e menos profissional. Isso era bom, sob o aspecto de ambiente nas redações. Porém, se refletia num trabalho de menos qualidade técnica. Havia ainda uma certa associação indecente entre parte da imprensa e o poder da vez. Não é que hoje isso tenha acabado. Mas até quem faz se envergonha de dizer que faz. Antes era escancarado.