Considerações sobre a Rubrica Estoques

A interpretação do termo estoque dá margem a distorções e erros que podem provocar resultados e registros equivocados e incorretos. A compreensão do censo comum é que estoque é toda mercadoria disponível para uso ou venda ou, ainda, representa uma quantidade ou importância acumulada em determinada data. Por esse entendimento, qualquer que seja a natureza dos itens “disponível para uso ou venda” estes seriam classificados como estoque, mesmo que invendáveis. Se considerada a possibilidade desses itens serem em quantidades e valores expressivos, ter-se-ia uma situação que desfiguraria a realidade apresentada pelo Balanço Patrimonial, uma vez que este estaria registrando bens com um valor realizável que não possui.

A moderna teoria contábil corrige esse desvio ao estabelecer que somente as “mercadorias destinadas à venda no transcorrer normal das operações e materiais a serem utilizados no processo de produção para venda” sejam entendidas como sendo verdadeiramente os componentes dos estoques de uma empresa, “excluindo-se dessa categoria os materiais que serão consumidos em operações não produtivas”.

Por possuírem caráter específico, os estoques devem ser tratados levando-se em conta os aspectos que lhes são únicos e que os diferenciam dos outros itens do Ativo. Observe-se como esses aspectos podem ser evidenciados. Os ativos monetários representam: a) disponibilidade imediata – caixa, bancos e aplicações financeiras de pronto resgate; b) disponibilidade em data futura – contas a receber, e c) valores a serem ressarcidos por lucros futuros da própria organização – despesas de exercícios seguintes. Os itens do almoxarifado encontram-se fora de qualquer um dessas conceituações, uma vez que “o volume de caixa ou recursos líquidos a ser gerado por sua venda geralmente depende de expectativas quanto a variações futuras de preços; mas, mesmo quando os preços podem ser previstos com precisão, o momento de ocorrência dos recebimentos futuros também pode ser incerto” (HENDRIKSEN e BREDA, 1999, p. 391 e 392).

1. CONCEITOS

Nas empresas industriais, comerciais e de atividades agropecuárias – isto é, em todas as empresas, exceto aquelas que se dedicam exclusivamente à prestação de serviços, onde não há a utilização de matérias-primas e produtos – os estoques têm dois aspectos fundamentais, embora que conflitantes entre si. Primeiro, representam bens da empresa, ativos circulantes, disponíveis e necessários para a efetivação dos negócios, de tal forma que sem estoques, essas organizações não teriam meios para realizar vendas e, consequentemente, obter faturamento. O outro ângulo relacionado aos estoques é que eles têm significativo reflexo na situação financeira das empresas.

O conflito de posições de gerenciamento é inevitável. E o fato curioso é que esse conflito é saudável e deve ser incentivado. Por um lado, a maximização dos níveis de estoques é justificada por aqueles que os veem como elementos preponderantes na geração de recursos para a organização, pois são eles que atendem à demanda interna por matérias-primas fornecidas por terceiros, ao mesmo tempo em que satisfazem a procura externa por produtos acabados fornecidos pela empresa, tudo isso em cenários de incertezas e flutuações constantes dessas mesmas demandas, de modo que a falta de itens podem afetar a produtividade, o faturamento e os lucros. Por outro lado, outros administradores analisam o problema com outra visão e advogam a sua minimização, alegando que os itens parados nos estoques não agregam valor aos produtos, que são encarecidos pelos custos da manutenção física (seguro, guarda, segurança e controle), além dos custos meramente financeiros; estes, causados pelo emprego de recursos escassos na compra dos produtos estocados, sem retorno em tempo hábil. Há, ainda, que se considerar os riscos de encalhe, danificação e defasagem tecnológica.

Assim, não se pode entender o conceito moderno de estoque, sem se entender as várias facetas dessa categoria e sua interdependência com outros fatores, tais como: o desenvolvimento de novos produtos, tecnologia de produção, processamento da produção, análises mercadológicas, logística de compras, logística de vendas etc. A interação desses aspectos com o condicionante financeiro fecha o ciclo da imbricação do fator estoque com esses outros elementos que compõem a empresa.

Os estoques devem ser considerados sob cinco conceitos: legal, fiscal, financeiro, contábil e gerencial.

a) Conceito legal

Segundo a Lei das Sociedades Anônimas, no seu Artigo 183:

“No balanço, os elementos do ativo serão avaliados segundo os seguintes critérios:
II – os direitos que tiverem por objeto mercadorias e produtos do comércio da companhia, assim como matérias-primas, produtos em fabricação e bens em almoxarifado, pelo valor de aquisição ou produção, deduzido de provisão para ajustá-lo ao valor de mercado, quando este for inferior.
§ 1º – Para efeito do disposto neste artigo, considera-se valor de mercado:
a) das matérias-primas e dos bens do almoxarifado, o preço pelo qual possam ser repostos, mediante compra no mercado”.

Muito embora a Lei 6.404/1976 seja voltada às empresas do tipo sociedade anônima, ela é também aplicável aos demais tipos de organizações, até pelo parâmetro de boa técnica que apresenta. No caso específico das sociedades limitadas, o Artigo 18º do Decreto 3.708/1919, estabelece que: “São observadas quando às sociedades por quotas de responsabilidade limitada, no que não for regulado no estatuto social e, na parte aplicável, as disposições da lei das sociedades anônimas”.

b) Conceito fiscal

Já, no que diz respeito ao aspecto fiscal, via de regra a Receita Federal tem reeditado os mesmo critérios para a avaliação de estoques. Assim, o Regulamento do Imposto de Renda tem estabelecido que, ao final de cada período de apuração do imposto, a pessoa jurídica deverá promover o levantamento e avaliação dos seus estoques, observando que as matérias-primas e os bens em almoxarifado sejam avaliados pelo custo de aquisição e, os produtos em fabricação e acabados, sejam avaliados pelo custo de produção.

Se a empresa mantiver sistema de contabilidade de custo integrado e coordenado com o restante da escrituração, poderá utilizar os custos apurados para avaliação dos estoques de produtos em fabricação e acabados. O RIR considera sistemas de contabilização de custo, integrados e coordenados com o restante da escrituração, aqueles que sejam apoiados em valores originados de escrituração contábil (matéria-prima, mão-de-obra direta, custos gerais de fabricação) e que permitam a determinação contábil, ao fim de cada mês, dos valores dos estoques de matérias-primas e de outros materiais, produtos em elaboração e produtos acabados, apoiado em livros auxiliares, fichas, folhas contínuas, ou mapas de apropriação ou rateio, tidos em boa guarda e de registros coincidentes com aqueles constantes da escrituração principal e, ainda, que permitam avaliar os estoques existentes na data de encerramento do período de apropriação dos resultados, segundo os custos efetivamente incorridos.

O Regulamento estabelece, ainda, que o valor dos bens existentes no encerramento do período de apuração seja o custo médio ou o dos bens adquiridos ou produzidos mais recentemente, ou que a avaliação seja efetuada com base no preço de venda, subtraída a margem de lucro. Se a escrituração não satisfizer essas exigências, os estoques deverão ser avaliados da seguinte forma: a) os de materiais em processamento, por uma vez e meia o maior custo das matérias-primas adquiridas no período de apuração, ou em 80% do valor dos produtos acabados, b) os dos produtos acabados, em 70% do maior preço de venda no período de apuração. Para aplicação desse critério, o valor dos produtos acabados deverá ser determinado tomando-se por base o preço de venda, sem exclusão de qualquer parcela a título de imposto e ser reconhecido na escrituração comercial. Já os estoques de produtos agrícolas, animais e extrativos poderão ser avaliados pelos preços correntes de mercado, conforme as práticas usuais em cada tipo de atividade.

O Fisco não reconhece como válidas reduções globais de valores inventariados, nem formação de reservas ou provisões para fazer face à sua desvalorização, deduções de valor por depreciações estimadas ou mediante provisões para oscilação de preços, manutenção de estoques básicos ou nominais a preços constantes ou nominais, bem como, despesa com provisão mediante ajuste para o valor de mercado, se este for menor, do custo de aquisição ou produção dos bens existentes na data do balanço.

c) Conceito financeiro

Do ponto de vista financeiro, os estoques são vistos, ao mesmo tempo, como necessários “ao funcionamento dos processos de produção e venda” e como fator que “exige o comprometimento de recursos que a empresa poderia aplicar em outras alternativas rentáveis” (GITMAN, 1997, p. 713 e 714). Daí o porquê da necessidade das empresas dimensionarem o nível das quantidades ótimas de cada item de insumos e mercadorias a serem mantidos estocados. Se não considerado o caso muito especial de especulação financeira com os estoques – prática rara e desaconselhável em épocas de inflação desacelerada e de pouca expressão –, têm-se duas situações não recomendáveis: a) a manutenção de quantidades em estocagem acima do necessário acarreta um maior custo e impossibilita uma maior rentabilidade dos capitais utilizados pela empresa; b) estoques abaixo do nível necessário exigem comprar ou fabricar pequenos lotes em maior número de vezes, implicando em mais trabalho para o setor de compras, alteração na programação da produção, ajustes de máquinas etc., além do que, a empresa corre o risco de não dispor do insumo ou da mercadoria em momentos críticos, implicando na paralisação da produção ou mesmo das vendas.

O grande desafio para o setor financeiro está no fato de que os estoques precisam ser adquiridos antes da realização das vendas. Além do mais, não há certeza absoluta da realização das vendas desses bens, a menos que se trate de produção ou aquisição com venda pré-estabelecida. Esses dois fatores tornam incertos quaisquer níveis preestabelecidos para os itens estocados. A melhor solução financeira seria aquela em que as vendas impulsionassem a produção e esta, por sua vez, motivasse as compras de insumos e produtos. Acontece que o movimento da realidade vai no contrafluxo dessa probabilidade. Daí o porquê de sempre os estoque representarem um investimento financeiro de realização incerta. Cabe ao setor que cuida da administração financeira proporcionar meios para garantir as operações de produção e venda, porém, sem descuidar do controle dos níveis dos estoques. Em quaisquer condições, um nível de estoques acima do recomendável encarece o produto final da empresa, podendo reduzir resultados ou inviabilizar a presença de um ou mais produtos da organização no mercado (BRIGHAM, 1999, p. 577 a 579), abrindo brechas para que os concorrentes “roubem” seus clientes.

d) Conceito contábil

O tratamento contábil dos estoques leva em consideração fatores que vão muito além da simples escrituração, do simples registro de entradas, saídas, quantidades, valores etc. Há que se considerar a classificação e a adequação dos registros, a constatação se os itens devem ou não ser considerados como estoques ou como bens de consumo, a propriedade e a posse etc. De forma geral, compõem a rubrica estoques (IUDÍCIBUS, MARTINS e GELBCKE, 2000, p. 101):

“a) itens que existem fisicamente em estoques, excluindo-se os que estão fisicamente na empresa, mas que são de propriedade de terceiros, seja por terem sido recebidos em consignação, seja para beneficiamento ou armazenagem por qualquer outro motivo;
b) itens adquiridos pela empresa, mas que estão em trânsito, a caminho da sociedade, na data do balanço, quando sob condições de compra FOB, ponto de embarque (fabrica ou depósito do vendedor);
c) itens da empresa que foram remetidos para terceiros em consignação, normalmente em poder de prováveis fregueses ou outros consignatórios, para aprovação e possível venda posterior, mas cujos direitos de propriedade permanecem com a sociedade;
d) itens de propriedade da empresa que estão em poder de terceiros para armazenagem, beneficiamento, embarque etc.

Outro grande problema contábil com relação aos estoques refere-se a sua valorização. O estabelecimento do valor de qualquer bem ou direito é eminentemente uma questão de julgamento subjetivo. Entretanto, a contabilidade não pode se pautar por decisões intangíveis. O único caminho é seguir as prescrições legais, isto é, o da Lei das Sociedades Anônimas, Lei 6.404/76 (aplicáveis às sociedades de demais tipos) e do Regulamento do Imposto de Renda e, ainda, dos procedimentos técnicos que forem recomendáveis para se obter uma certeza – a maior possível – das quantidades e valores dos itens do almoxarifado, de forma que não haja divergência entre o estado físico dos bens e os registros.

Resta ainda solucionar a questão da avaliação dos insumos e produtos. Essa, a avaliação, pode ser efetuada com base no custo médio ponderado de todos os itens da mesma espécie, adquiridos ou produzidos durante o exercício. Considere-se, também, a possibilidade de uso dos sistemas FIFO (first-in-first-out), ou PEPS (primeiro a entrar, primeiro a sair), hipótese em que se concebe que os bens retirados do estoques sempre seriam os mais antigos, de forma que os itens registrados no Balanço seriam os mais novos e, portanto, com valores mais atualizados.

Uma questão pouco analisada nos meios acadêmicos e pouco tratada na prática profissional e na própria legislação, diz respeito às mercadorias fungíveis, aquelas que se gastam facilmente ou que tenham alto percentual de perecibilidade. Esses estoques devem ser avaliados pelo valor de mercado, porém, computando-se os custo com suas respectivas quebras (perdas) por deterioração, obsolescência ou ocorrência de riscos não cobertos por seguro, desde que comprovadas por laudos de autoridades de segurança sanitária, certificado de perito (no caso de danos não cobertos por seguro) ou laudo de autoridade tributária competente à ocorrência.

Há, ainda, que se analisar as despesas que normalmente são incorporadas aos custos dos estoques e que não representam dispêndios com a sua aquisição. Nessa categoria estão incluídas as despesas com transporte, seguro, armazenamento, aluguel de prédios e instalações, taxas e armazenagem alfandegárias, além de outras mais. Alguns desses dispêndios podem ser considerados como custos administrativos – no elenco retro citado, por exemplo, seria questionável incorporar aluguel de prédio e taxas de armazenagem alfandegária aos custos de estoques. Isso porque só é recomendável adicionar despesas gerais e administrativas aos custos dos itens estocados, quando o ato ou fato representado pelas despesas estiver diretamente relacionado aos respectivos itens, adicionando-lhes valor ou evitando uma perda de valor.

e) Conceito gerencial

Apresentado de outra forma, o problema assume uma configuração que vai além das fases de produção-custo e venda-lucro. A problemática dos estoques envolve aspectos muito maiores e com faces múltiplas, que envolvem o recebimento de matérias-primas e mercadorias, sua classificação, armazenamento, alimentação do sistema de controle de estoques, separação, acompanhamento de uso do material na produção (no caso de indústrias e empresas rurais), abastecimento da produção ou dos pontos de vendas e Auditoria de estoques.

Tudo isso tem por finalidade um melhor controle dos estoques, por meio de uma maior eficiência e uniformidade nas informações de gerenciamento. O efeito esperado é a redução de custos das operações de produção e comercialização, obtida pela maior disponibilidade do produto para venda imediata, o que agiliza o pronto atendimento ao cliente, resultando na sua fidelidade aos produtos da empresa e, consequentemente, a repetição de suas compras e a obtenção de lucros adicionais.

Somente se entende a importância dos estoques se estes forem colocados na sua dimensão correta: além dos aspectos quantitativos, qualificativos, financeiros e físicos, eles devem integrar a representação matricial do sistema de logística da empresa. Isto porque, os novos desafios do mercado globalizado exigem que os administrados façam uso das alternativas e das ferramentas oferecidas pelas modernas técnicas de gerenciamento e de informação. A palavra “logística” integra atualmente o elenco dos termos em moda na administração, a ponto de a ela serem atribuídos vários significados, às vezes até conflitantes entre si. Entretanto, optamos pela definição dada pelo Concil of Logistics Manegement, segundo a qual: “Logística é o processo de planejar, implementar e controlar o fluxo e armazenagem, eficaz e eficiente em termos de custos, de matérias-primas, materiais em elaboração e produtos acabados, bem como as Informações correlatas, desde o ponto de origem até o ponto de consumo, com o propósito de atender às exigências dos clientes” .

É sob essa ótica que se faz necessário aperfeiçoar técnicas que assegurem a disponibilidade de insumos e produto ao menor preço, na qualidade e na quantidade certas, no momento em que sejam necessários à produção ou à venda. Aqui se destaca o papel das funções planejamento e controle, relacionadas aos estoques.

Os estoques podem ser entendidos de ângulos diferentes. Primeiro, eles podem assumir o papel regulador do fluxo, amenizando os efeitos das flutuações da oferta e da demanda (externas e internas), nas operações e nos resultados da empresa. Para isso a organização precisa está adequada ao seu mercado, considerando fornecedores e compradores, dimensionando corretamente os itens de uso (matérias-primas e outros insumos) e de venda (produtos acabados ou de revenda). Depois, os estoques devem ser organizados de forma a poder enfrentar riscos conjunturais, relacionados com variações de curto prazo na atividade produtiva ou nos preços dos materiais. Esses riscos relacionam-se com a possibilidade de falta do insumo, pela impossibilidade do fornecedor dar continuidade ao fluxo do seu abastecimento. Por último, os estoques podem assumir a função de ativos financeiros. Isso ocorre quando a empresa trabalha com produtos sazonais, que têm preços baixos nas épocas de safra e preços altos nos períodos de entressafra. Entendidos esses aspectos, há que se voltar às funções planejamento e controle.

O planejamento exige uma série de medidas que devem integrar uma política para os estoques, entre as quais: identificação dos itens de maior rotatividade (de uso constante) e dos itens de segurança (que apresenta dificuldade para reposição), estabelecimento de estratégia de dimensionamento (por quantidade e qualidade) dos itens em entoques, definição dos níveis de disponibilidade e de tolerância, definição dos lotes econômicos de compra ou produção, análise dos planos de contingências (compras ou fornecedores alternativos), plano de revisão periódica etc.

Por sua vez, o controle dos estoques deve considerar, entre outros, os seguintes aspectos: o comprometimento do capital de giro da empresa com a “função estocagem”, o atendimento aos setores produtivos e de venda, a interrupção ocasional nesse atendimento e a justificativa dessa falha (quando houver), a evidência de erros na projeção de demanda projetada (interna ou externa), a possibilidade de ocorrência de faltas críticas, o acompanhamento do giro dos diferentes itens de rotatividade e de segurança, a confiabilidade dos saldos dos registros contábeis e extracontábeis, o expurgo dos itens não vendáveis (meterias e produções danificadas, fora de linha e obsoletos tecnologicamente) etc.

2. DIMENSIONAMENTO DOS ESTOQUES

Aqui não se tem o objetivo final de apresentar as fórmulas ou de ensinar o dimensionamento ótimo dos níveis dos estoques. Se o assunto é abordado o é somente para destacar a sua importância, a sua relevância, nas empresas dos setores primário e secundário e algumas do setor terciário. Mesmo feita essa ressalva, há que se sugerir algumas soluções praticas, considerando-se os três aspectos principais da questão: rotatividade dos itens estocados, quantidades economicamente indicadas para compra e estoques mínimos recomendáveis. A análise desses três elementos é que pode indicar a posição ótima dos estoques, em termos de quantidade e custos. Partindo-se do princípio de que existe um custo para cada lote de materiais adquiridos e um custo de armazenagem, que independe de quantidade, tem-se o conceito de lote econômico, que nada mais é do que a quantidade que minimiza a soma desses dois custos. Ao se fixar os parâmetros para esses dois custos, é possível determinar o custo de gerenciamento dos estoques. A teoria do lote econômico é, ainda, a base para outras decisões administrativas, como, por exemplo, a que fixa o nível máximo de estoque (GITMAN, 1997, p. 112, 717 a 719; ROSS et al, 1995, p. 51, 538 e 539).

a) Giro dos estoques

O giro dos estoques mede a atividade ou a rotatividade dos estoques da empresa, em um determinado período. Ele é calculado utilizando-se o saldo da conta Custo dos Produtos Vendidos, dividido pelo saldo médio da rubrica Estoques. Se realizado pelo saldo geral da conta Estoques, evidencia quantas vezes, no período, houve a renovação (entradas e saídas) de todos os itens do almoxarifado. Se, por outro lado, tomar-se por base o saldo de um determinado item e se o dividir pelos custos dos itens da mesma natureza vendidos, mostra quantas vezes no período houve a renovação daquele mesmo item. A fórmula é simples:

G = CMV / SME = nº de giro dos estoques.

Onde:

G = Giro dos estoques.
CMV = Custo das mercadorias vendidas.
SME = Saldo médio dos estoques.

A rotatividade dos estoques também pode ser calculada em termos de número de dias. O cálculo pode ser efetuado tomando-se todo os itens dos estoques ou somente a posição individual de cada um deles. A fórmula assume a seguinte configuração:

G = 360 / (CMV / SME) = nº de dias de permanência

Assim, a rotatividade dos estoques evidencia o numero de dias que decorre entre o recebimento e registro da matéria-prima ou mercadoria, no almoxarifado, e a data da sua saída, ou por requisição para a elaboração de produtos ou por venda.

b) Lotes econômicos

Um dos grandes problemas da gestão de estoques é estabelecer o que comprar ou fabricar de cada vez. A solução desse dimensionamento é que vai indicar o quanto deve ser adquirido ou elaborado pela empresa, para fazer face as suas necessidades de produção e/ou venda, dentro dos menores custos financeiros e administrativos. É essa a quantidade (e esse o valor) que é mais conveniente para a empresa obter periodicamente, otimizando os custos.

O conceito de lote econômico é justamente estabelecer a quantidade de unidades que deve ser comprada aos fornecedores ou fabricada em cada pedido, de maneira que a empresa obtenha o menor custo com a aquisição e com o armazenamento das unidades que passam a compor seus estoques. O objetivo básico que se busca ao determinar o lote econômico é redução de custos, obtendo-se respostas para as pergunta: Quanto adquirir? Quando adquirir?

Para determinar o lote econômico tem-se que, em primeiro lugar, identificar os custos associados aos itens estocados. Entre eles os custos de:

• Colocação do pedido, ou seja, a mão-de-obra envolvida na preparação do pedido, o tempo de uso dos computadores, a burocracia de aprovação etc. Este é um valor fixo, qualquer que seja a quantidade do lote, pois essa função não é afetada pelo aspecto quantitativo da compra ou produção.
• Manutenção dos estoques, que estão diretamente relacionados com o seu volume. Quanto maior o volume, maior o custo e vice-versa. Além dos custos administrativos e financeiros, há outros provocados por perda, roubo, obsolescência e danificação.
• Custos do não atendimento ao cliente é um tipo de custo intangível. Ocorre quando a empresa, por falta de estoque, não pode atender a um pedido. Nesse caso, além da perda do lucro da venda, ainda podem ocorrer duas situações. Se a empresa trabalha por encomenda, o cliente espera para ser atendido, mas no futuro pode não voltar a comprar na organização. Quando se trata de venda não cativa, perde-se a venda e se pode perder o cliente.
• Superdimensionamento, que são aqueles causados por deteriorarão, obsolescência, perecibilidade e inutilização de itens do almoxarifado.

Para resolver esses problemas é que são estabelecidos os lotes econômicos de aquisição. Há várias formulas. Uma das mas simples tem os seguintes componentes:

q = (2.Q.P/c.i)1/2

Onde:

Q = Consumo do período.
P = Custo de aquisição ou fabricação.
c = Custo unitário da peça.
i = Custo de tendência (calculado em forma de taxa).

Esta fórmula é deduzida da seguinte maneira:

Custo de tendência: (q/2) c.i, sendo q/2 o estoque médio.
Custo de aquisição ou produção: (Q/q).P, sendo Q/q o número de compras ou produção.
Custo total = custo de tendência + custo de aquisição ou produção.
Isso faz com que o ponto mínimo tenha o mesmo nível que:
Custo de tendência = Custo de aquisição ou produção.

A partir desta igualdade:

(q/2).c.i = (Q/q).P

Ou então:

q = q (q/c).(P/i)

A partir deste lote econômico, pode-se calcular:

Número de compras: N = Q/q = consumo do período / lote econômico.
Freqüência de compras. Fr = 365 / número de compras.

c) Estoques mínimos

A adoção da política de estoques mínimos é uma forma de se atender às necessidades de produção e venda e, ao mesmo tempo, levar em consideração as condições financeiras da empresas. Isso determina a seguinte fórmula:
Em = ER + dt

Onde:

ER = Estoque de reserva.
d = Tempo médio para uso ou venda, em dias.
t = Tempo médio de espera para reposição, em dias.

Segundo Zaccarelli (1979, p, 53): “Existe estoque de reserva ER somente porque o consumo durante o tempo de espera [tempo médio para uso ou venda, em dias] não é constante. Se adotássemos Em = dt, cerca de 50% dos pedidos de reposição seriam recebidos após ter esgotado todo o estoque. Isso pode constituir grave inconveniente para a produção ou para fornecimento ao cliente. Como se deseja ter segurança de que o estoque não se esgote em situações normais de operação, inclui-se no cálculo do estoque mínimo uma parcela cuja função é evitar o esgotamento do estoque quando o consumo durante o tempo de espera e/ou o próprio tempo de espera assumirem valores maiores do que as respectivas médias […]. O estoque de reserva deve ser, em primeira aproximação, igual ao número máximo de unidades saídas de estoque durante o tempo de espera subtraído do número médio de saídas de estoque durante o tempo de espera. Desse modo, o estoque mínimo torna-se igual ao número máximo de saídas durante o tempo de espera”.

Essa noção de estoque mínimo deve ser adaptada para fazer com que o sistema em uso na empresa atenda às suas circunstâncias específicas e não, ao contrário do que muito recomendam, fazer a empresa se adaptar ao sistema.

BIBLIOGRAFIA

BRIGHAM, Eugene F. e HOUSTON, Joel F. Fundamentos da moderna administração financeira. Tradução de Maria Imilda da Costa e Silva. Rio de Janeiro: Campus, 1999.
GITMAN, Lawrence J. Princípios de administração financeira. Tradução de Arthur Ridolfo Neto et al. 7ª ed. São Paulo: Harbra, 1997.
HENDRIKSEN, Eldon S. e BREDA, Michael F. Van Breda. Teoria da contabilidade. Tradução de Antonio Zonatto Sanvicente. São Paulo: Atlas, 1999.
IUDÍCIBUS, Sérgio de; MARTINS, Eliseu e GELBCKE, Ernesto Rubens. Manual de contabilidade das sociedades por ação. 5ª ed. São Paulo: Atlas, 2000.
ZACCARELLI, Sérgio Baptista. Programação e controle da produção. 5ª ed. São Paulo: Pioneira, 1979.