COMO O ESCRITOR NORTE-AMERICANO JOHN DOS PASSOS VIU A CIDADE DE MOSSORÓ

 Tribuna do Norte – 25.12.1967

            “De Martins, o voo foi tranquilo através da luz do sol horizontal, até Mossoró, a segunda cidade do Estado. A viagem de carro do aeroporto para a cidade foi um pesadelo de barulhos. Em três ou quatro fitas, caminhões e jipes se dirigi para a cidade num lento e barulhento engarrafamento do tráfego. Todas as buzinas tocam as duas notas da canção da campanha do governador: ‘Aluísio, Aluísio’.

            O comício é dedicado aos meninos, às crianças da cidade. A caravana de carros tem de parar numa rua que leva á praça. Um desfile se misturou com o engarrafamento. São filas de rapazes e moças fardados, bandas de música que marcham, moças que servem de balizas.

            Em frente ao coreto da praça, dois carros alegóricos estão desgarrados. Num, está sentada uma mocinha vestida como a Estátua da Liberdade. Já está cansada de levantar o seu archote. No outro, um jovem vestido apenas de calções está amarrado a uma coluna com correntes de alumínio novas para representar a servidão. Embora já esteja evidentemente há tempo ali, ainda conserva em posição as mãos algemadas com perfeita boa vontade.

            Vendo que eu pareço um tanto ressecado depois de ouvir tantos discursos debaixo de tanto sol, um homem da prefeitura, magro e de bigode grisalho, me leva para tomar uma cerveja no bar da esquina. O bar está cheio de homens mal-encarados, que evidentemente não são meninos, e que estão aproveitando das festas para encharcam-se completamente. Somos abordados pelo inevitável bêbado desmazelado que julga que sabe falar inglês. Trabalhou na base americana de submarinos durante a guerra. Adora os americanos.

            O chofer do governador, um homem de pescoço taurino que tem o mesmo aspecto dos guarda-costas no mundo inteiro – Lacerda diria dele que era um ‘espécie de Gregório’ – apareceu para chamar-nos. Os discursos iam começar. Conseguiu habilmente desvencilhar-nos do bêbado que adora os americanos.

            Todas as crianças de Mossoró estão de fato presentes. Garotos de colo e os que já engatinham nos seus trajes melhores. Todas as moças bonitas. Garotos e homens se empoleiram como pardais nas árvores da praça repleta.

            O ar da tarde está absolutamente parado. O coreto está superlotado. Todo menino que deseja é chamado a subir. É difícil prestar atenção aos discursos pois os meninos embarafustam, esgueiram-se, torcem-se e passam por entre as pernas dos políticos, ali reunidos. Todos querem chegar perto do governador.

            As tábuas do coreto estalam. Não sei se aguentarão o peso.

            Ao meu lado, um cavalheiro de terno branco, a quem não se deu oportunidade no programa, dá pulinhos coléricos enquanto discute com alguma autoridade. O coreto balança e range. Estou na expectativa de que os caibros que o sustentam cedam a qualquer instante.

            Os discursos prosseguem. Todos os políticos locais têm o que dizer. Um cavalheiro chamado Duarte Filho é candidato a prefeito. A campanha é evidentemente violenta em Mossoró porque os ataques à oposição se tornam mais violentos à medida que a tarde caí. Há muitos adultos entre as crianças na praça. São homens mal encarados com os do bar. Estou preocupado com o que poderá acontecer às crianças se o comício degenerar em briga.

            Enquanto procuro entender o que os oradores estão gritando, um homem magro de cabelos brancos que multidão no coreto lançou contra mim, conta-se no ouvido uma história que só no Brasil poderia ouvir. Também trabalhou na base de submarinos americana. Também gosta dos americanos. Conhece uma gruta onde há cristais que brilham como os faróis de um carro. Tem amostras em casa. Se não forem diamantes, devem ser alguma coisa tão preciosa quanto eles. Quer que eu lhe indique o nome de um engenheiro americano. Os engenheiros brasileiros não têm condições para explorar uma coisa tão grande ou, estão, procurariam roubar tudo. Não posso descobrir-lhe um engenheiro americano para examinar a gruta. Diamantes de tamanho de uma mão fechada brilham com luz própria dentro da escuridão.

            Está escurecendo na praça. A multidão compacta está ficando cada vez mais quente. No coreto, transpiramos em borbotões. os discursos têm um aspecto ameaçador. Parece que se está formando uma perigosa tensão. De repente, uma orquestra principia a tocar um samba.

            Eu havia notado uma pequena orquestra que as autoridades procuravam conter, atrás do coreto, afastando os homens dos instrumentos. No instante em que o governador acabou de falar, não foi mais possível contê-los. Os seus tambores ressoaram. Melodias de sambas se elevam de todas as ruas que levam à praça.

            Daí a três minutos, metade do povo está dançando. A oratória se desvanece. Não há mais engarrafamento. Os carros alegóricos começam a mover-se. O comício se transforma numa espécie de desfile carnavalesco, com escolas de samba dançando à frente dos carros, cada qual com seu estandarte. “Muito moço para votar”, diz um deles. As canções substituem os discursos. Crianças, adolescentes, velhas e velhos, todo mundo está dançando.

            Não há mais tensão. Um vento frio parece refrescar as ruas. Os garotos são maravilhosos. Em frente à casa de Duarte Filho é como um “ballet”. Nunca vi danças tão belas quanto as que encheram as ruas de Mossoró durante horas, pela noite adentro.

            O governador e sua comitiva foram para outro comício. Essa gente não se cansa nunca? Ainda ouço os apitos e a palpitação dos sambas distantes que me entram pela janela do agradável e antigo hotel tropical – há um chuveiro, uma cama limpa, o vento que entra pelas persianas e até um abajur para a leitura, que mais se poderia querer? – quando vou conciliando o sono”.

Nota da redação: Do livro do escritor norte-americano, John dos Passos – “O Brasil Desperta”.