Coisas nossas?

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 28 maio 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 30 maio 2007.
Metropolitano. Parnamirim, 06 jul. 2007.

Muito embora admirada no mundo todo, a boa música brasileira enfrenta um verdadeiro boicote por parte de certas emissoras nacionais de rádio e televisão, sem falar na publicidade, onde nossa música é algo quase que pejorativo. Há muito tempo que isso é verdade verdadeira, inconteste. Até novelas – um produto que tem um sinal pátrio de qualidade – têm trilha “sonora internacional”.

Esse fato talvez seja, e certamente o é, um reflexo de nosso complexo de colônia, do qual nunca nos libertamos. Não só em se tratando de música. Até as “nossas” ideologias são importadas. Assim se deu com o Império, que copiamos de Portugal; com a República, proclamada sob a égide do positivismo de Auguste Comte; os nossos variados movimentos esquerdistas, que foram procurar inspiração na União Soviética, depois na China de Mao, na Albânia e agora em Cuba e Coréia do Norte; de centro esquerda, que brigam entre si para serem os “legítimos representante” da Internacional Socialista no país; do centro direita, que procuram se inspirar na terceira via do Partido Trabalhista inglês. Isso para não falar de outros terrenos mais insólitos: o movimento “gay” faz a sua passeata inspirado em um desfile similar que acontece anualmente pelas ruas de New York; no país do futebol os bonés de beisebol já fazem parte da indumentária básica dos jovens; os executivos de algumas profissões usam e abusam de terminologias da língua inglesa (não se fala mais de impressa para identificar qualquer meio de comunicação de massa: imprensa escrita, o conjunto dos jornais, revistas e publicações congêneres, a imprensa falada, isto é, a radiodifusão, a imprensa televisionada, a televisão), somente se diz “midia”.

Mas voltemos ao nosso tema. Nunca assumimos a nossa musicalidade a não ser em momentos isolados – no carnaval, no período junino e nas festas características das várias regiões do país. Enquanto a desprezamos, já presenciei a apresentações de músicas brasileiras, executadas por instrumentistas e cantores de vários países. Assisti a um show no “Blue Note”, o templo do jazz em New York, em que havia peças nacionais, o mesmo acontecendo no “Yellow”, um tradicional pub londrino, no salão de festas do hotel Costa Galan, em Mar del Plata, no navio “American”, em um cruzeiro pelo Caribe, para não falar em cabarés, boates e bares franceses, suíços, italianos, alemães, holandeses, belgas, austríacos etc.

Há, entretanto, que se fazer uma ressalva: não é toda baboseira que se apresenta com o rotulo de música brasileira, que de fato o seja. Como quase toda a nossa cultura, a música nacional é também um produto que tem origem em outras culturas. Entretanto ela é o resultado de um processo antropofágico, como diriam Oswald e Mário de Andrade, isto é, foi alterada, adaptada ao nosso gosto e à nossa maneira de ser. Assim, para poder ser considerado brasileiro o ritmo precisa ser representativo da alma e da índole brasileira e a letra precisa falar como a gente fala e falar de coisas nossas. O ritmo precisa ter o balanço do samba, a malícia do choro, o sincopado do baião e do xaxado, a energia do frevo, a melancolia da canção, a indolência do samba-canção, o refinamento da bossa nova, o gingado do “axé music” (por que “music”?), a brejeirice da verdadeira música sertaneja. Isso para não falar nos ritmos regionais do sul, do norte e de algumas outras partes desse quase continente: nas cantigas mineiras, as canções caipiras do interior de São Paulo, os lundus fluminenses, as rancheiras, as chulas, os xotes e as polcas dos Estados do Sul, as músicas de viola pantaneira, as emboladas, os cocos e tantos outros. Não devemos pensar no baião como uma expressão nitidamente regional, pois cariocas, paulistas, gaúchos e mineiros também ouvem, tocam e compõem esse ritmo que nasceu nordestino.

Uma parte especial deve ser dada ao rock nacional. Ele é uma versão suavizada do original norte-americano, geralmente usando letras românticas, descontraídas ou com crítica social, de que são exemplo Roberto e Erasmo Carlos e Rita Lee. Mas até esse ritmo mundial aqui assumiu feição verde-amarela. Por exemplo, fundido com ritmos nordestinos nascer o “mangue beat” de Chico Science & Nação Zumbi, Mestre Ambrósio e Os Raimundos, movimento em que os aspectos da cultura musical regional são valorizados por uma releitura de caráter internacional. Há as cópias descaradas do metalismo ensurdecedor e burro, mas esse é um outro capítulo.