COISAS DE UM RIO ANTIGO

Tomislav R. Femenick
O Globo. Rio de Janeiro, 29 set. 2008
O Jornal de Hoje. Natal, 29 set. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 30 set. 2007.

Meus amigos dizem que eu tenho uma memória descomunal para as coisas do passado, inclusive da minha infância, que já vai longe. Assim se dá com a minha primeira viagem ao Rio de Janeiro, acontecida em 1944. Eu, meu pai e minha mãe lá chegamos a bordo de um Ita, o Itanagé, que tomamos no Recife. Era um navio da Companhia Nacional de Navegação Costeira, empresa que, com seus navios, ligava as cidades costeiras do Brasil. Então, parodiando Dorival Caymmi, posso dizer que certa vez tomei um Ita no Nordeste, “e fui pro Rio morar”. A viagem foi horrível. Era época de guerra. A noite quase todas as luzes eram apagadas, fizemos quase todo o percurso no porão e o navio balançava de mais. Na então capital federal, desembarcamos no cais do porto e logo estávamos na Praça Mauá. Foi a primeira vez que vi o que para mim era uma “multidão de gente”; todos falando alto, gesticulando e apressados – notem que era a pressa dos anos quarenta; apressados, mas nem tanto.

De lá fomos para o antigo Hotel Jardim, onde nos espera o coronel Miguel Faustino, tio do meu avô e padrinho de minha mãe. Malas desarrumadas, fomos tomar um chá na Rua do Ouvidor. Eu que, como já disse, não era acostumado a ajuntamento de muita gente, fiquei meio que perdido naquele novo mundo que se abria em minha frente. A rua, que no dizer de Joaquim Manuel de Macedo, era a “a mais passeada e concorrida, e mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, fútil, noveleira, poliglota, elegante, vaidosa, tafulona [garrida] e rica” das ruas cariocas, simplesmente me deixou deslumbrado. O que mais me chamou atenção naquela agitação toda foram os antigos lampiões de iluminação, reminiscência dos tempos da iluminação a gás, que foram adaptados para a eletricidade; sem perder as suas características externas. Grandes arcos de ferro iam de um lado a outro da rua, como que a abraçando, tendo no centro os globos de luz. Talvez tenha sido o efeito que eles causaram quando, no passar da tardinha para o começo da noite, foram acesos.

Tenho varias lembranças dos dois anos em que morei no Rio de Janeiro, naquela época. Do Instituto Guararapes, onde fiquei interno, na Rua Lins de Vasconcelos, no bairro do mesmo nome, que então era quase que zona rural, com muito de bucólico. Do campo do Atlas, um time de futebol amador, que ficava vizinho ao colégio. Da Confeitaria Colombo, na Rua Gonçalves Dias, onde uma só vez entrei para comer uma guloseima qualquer, comprada pela minha mãe. Lembro-me do desembarque dos pracinhas na Praça Mauá e do seu desfile na Av. Getulio Vargas, quando eles voltavam dos campos batalha da Itália, na Segunda Guerra Mundial. Do “carnaval da vitória”, que celebrou a vitória dos aliados nesse conflito. E do Sanatório na estrada do Corcovado, onde meu pai ficou internado e depois morreu.

Lembro-me, também, do Cristo Redentor e do bondinho do Pão de Açúcar (ambos eu somente via de longe), do restaurante chinês onde, nos primeiros dias após nossa chegada no Rio, algumas vezes almoçávamos. Ele ficava perto da Rio Gráfica e Editora (hoje, a Editora Globo), onde eu pegava algumas edições velhas do Globo Juvenil Mensal, do Gibi e outras publicações em quadrinhos que eram jogadas fora. Dos passeios de bonde e das andanças que fazíamos pelas ruas da Urca, de Copacabana e do Leme. Como o Rio de Janeiro era maravilhoso, como o povo era cortês, cordato e bem-educado.

Ainda hoje, apesar do curso do tempo, para mim a marca registrada daquela época eram os lampiões da Rua do Ouvidor. Imponentes e contraditoriamente singelos e belos, no meu ver eles representavam a capital da Republica que não era soberba, que era a mais brasileira das cidades brasileiras e que, como o Cristo do Corcovado, recebia a todos nós, outros brasileiros, de braços abertos, abraçando-nos como os arcos dos lampiões abraçavam a Rua do Ouvidor.

Mas, isso são coisas cariocas, coisas de um Rio antigo, coisas que não existem mais e que ninguém mais se lembra, por serem coisas banais. Infelizmente.