Caráter, essa bobagem

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 11 fev. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 14 fev. 2008.
Metropolitano. Parnamirim, 15 fev. 2008.

Há assuntos dos quais eu me esquivo de falar em minhas despretensiosas crônicas semanais. Uns por serem muitos chatos mesmos, outros porque não atraem a atenção de ninguém e, ainda, aqueles que, de tão comentados por outros articulistas, parecem até Judas de Sábado da Aleluia, de tão batidos que são. Então eu passo ao largo e deixo a tarefa para aqueles que diariamente estão no batente. Afinal de contas eles, esses articulistas, devem ter melhores ferramentas de trabalho, muito diferentemente de mim, um pobre marquês, isso é, um simples escrevedor de linhas tortas.

Entretanto um assunto, já bastante abordado, comentado e analisado pelos jornais, rádios e televisão ficou batendo em meus ouvidos nos dias de carnaval que passei lá nas praias de Touros. E batendo mais que o baticum reproduzido pelos equipamentos de som de alta potência dos carros dos jovens, o que hoje é moda – aliás, uma moda bastante incomodativa e sem educação. O carnaval passou, mas o assunto não largou mão e ficou “nas minhas idéias”. Sim, estou falando do mais novo escândalo do governo Lula, o tal dos Cartões Corporativos.

Afinal de contas, o que é que esse tal de Cartão Corporativo? É um cartão de crédito desses que as pessoas têm, só que emitido em nome de uma empresa; no caso no nome do governo federal. Segundo o site de uma administradora de cartão, esse sistema fornece aos seus portadores toda conveniência e poder de compra, tanto em gastos e viagens de representação, tanto nacionais quanto internacionais. O funcionário não precisa receber adiantamentos ou realizar reembolsos pelas despesas efetuadas. É aceito em 20 milhões de estabelecimentos comerciais em 150 países e territórios e pode ser utilizado para sacar em moeda local em mais de 890 mil caixas automáticos credenciados, espalhados pelo planeta.

O governo federal instituiu o uso do cartão corporativo em 2001, para substituir o uso dos cheques na administração federal, para cobrir despesas e sacar dinheiro vivo, eliminando várias etapas e processos de prestação de contas em papel que, com o cartão, seria feito por meio eletrônico, acessível a qualquer cidadão através do site da Controladoria Geral da União. Entretanto não foi o que aconteceu. Perdeu-se o controle e a transparência. No ano passado, as contas dos cartões corporativos diretamente ligados aos gabinetes e residências oficiais do presidente, vice-presidente e seus familiares somaram cerca de R$ 4 milhões, dos quais R$ 3,7 milhões estão guardados sob sigilo para “garantia da segurança da sociedade e do Estado”. Só o restante (aproximadamente R$ 300 mil ou míseros 7,5%) pode ser verificado no site Portal da Transparência.

A defesa do governo do PT é bastante esquisita. Diz que isso vem desde o tempo de FHC e que no governo peessedebista de José Serra, em São Paulo, aconteceu e acontece a mesma coisa. Isso me faz lembrar um fato acontecido há muito tempo. Quando jovem e estudante do Colégio Diocesano Santa Luzia, em Mossoró, um dia o Diretor, o Padre Sátiro, me pegou fumando no banheiro. Tentei me justificar dizendo que todo mundo também ia ao banheiro para fumar. O mestre riu e disse: “Não use os erros dos outros para desculpar os seus. Se assim o fizer, você será mais um pecador. E pior, um pecador que acha que não tem pecado”.

Grande Padre Sátiro. Essa foi uma das muitas lições que aprendi com o velho educador: a educação moral é tão ou mais importante do que a formação didática ou profissional. Hoje em dia quase ninguém liga para “essa bobagem”. O importante é ter status e possuir um Cartão Corporativo, de preferência do governo, pois com ele se compra tudo, até o voto e o caráter das pessoas.