CAPITALISMO EM CRISE?

Tomislav R. Femenick
O Globo. Rio de Janeiro, 22 set. 2008.
Tribuna do Norte. Natal, 21 set. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 20 set. 2008

Bancos falindo, bolsas em queda livre, juros subindo e commodities se desvalorizando… Será que o capitalismo está em crise? Evidentemente que não. O que está havendo é “uma crise no capitalismo”. Obvio que o sistema em si foi abalado, mais este é um modo de produção que possui, entre outras, a qualidade de se recompor; de se refazer – nem que para isso tenha que incorporar novos conceitos e novas diretrizes. Assim foi muitas vezes e assim serão outras tantas. “Remember the crash” de 1929.

O que a economia mundial vivencia hoje é uma violenta ruptura de equilíbrio entre oferta e procura de fatores de produção e bens e serviços, provocada unicamente pela falta da prática reguladora e fiscalizadora do mundo financeiro norte-americano, principalmente durante o “reinado” de Alan Greenspan à frente do Federal Reserve. Desde que assumiu a presidência do banco central dos Estados Unidos, em agosto de 1987, até quando deixou o cargo, em janeiro de 2006 (portanto, durante quase 20 anos), ele deixou que crescesse a bolha financeira, principalmente um dos seus componentes, a bolha hipotecária, sem fazer uso de nenhum dos inúmeros instrumentos de que dispunha para contê-la. Sua filosofia sempre foi contrária à regulamentação da economia. Era uma situação anômala: o ocupante do principal cargo encarregado pela regulamentação e fiscalização da economia era alguém que não acreditava em regulamentação.

O resultado não poderia ser mais catastrófico. Sem fiscalização, empresas financeiras americanas passaram a também não fiscalizar seus clientes, concedendo créditos a juros relativamente baixos a empresas e pessoas que já estavam super endividadas e que, portanto, não tinham condições e liquidar seus débitos. O caso mais típico e citado foram os financiamentos para aquisição de imóveis, inclusive às famílias de baixa renda – os clientes de segunda linha, menos confiáveis, os chamados subprime. No vencimento, ou mesmo antes, os empréstimos eram renegociados e os prazos alongados. Como esse segmento do mercado estava aquecido, era comum os imóveis financiados sofrerem valorização. A consequência era que, vez por outra, os devedores alongarem o prazo e, ainda, levarem para casa algum dinheiro. Era uma verdadeira corrente da felicidade.

Quando o mercado desse tipo de imóvel ficou saturado (oferta maior que a demanda), começaram as primeiras inadimplências. Muitos devedores deixaram de pagar as prestações e – com a essa altura os imóveis estavam tremendamente desvalorizados, a ponto de seu valor ser inferior ao saldo da dívida – simplesmente abandonaram as suas casas. Aí se criou uma bola de neve: sem vendas, o setor imobiliário deixou de construir e jogou muita gente no desemprego; sem receber, os bancos deixaram de emprestar; muita gente desempregada causou a redução do consumo; sem vender, o comércio deixou de fazer compras às indústrias; sem produzir e sem vender, indústria e comércio botam mais gente nas filas do desemprego. Criou-se uma bola de neve.

O resultado todo mundo já sabe: os bancos IndyMac, Fifth Third Bancorp, National City, Wachovia Corp e outros bancos regionais estão devagar, quase caindo. As agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac foram temporariamente estatizardas. O Bear Stearns foi vendido ao J.P. Morgan. O Merril Lynch vai ser vendido ao Bank of América e o Lehman Brothers, depois de 158 anos vai fechar portas. Para completar a AIG-American International Group, a maior seguradora americana (e talvez do mundo) também teve que ser socorrida pelo tesouro do Tio Sam. Dos Estados Unidos a crise migrou para o mundo. As bolsas de européias, asiáticas e a Bovespa acompanham as quedas diárias da Bolsa de Nova York e da Nasdaq.

Embora séria – bota séria nisso -, a atual crise financeira não representa o fim do capitalismo, por dois motivos. Primeiro, porque não há nada de sério para substituí-lo e, segundo, porque já há um grande e importante movimento para evitar que a turbulência atinja um grau sistêmico. Na semana passada, os seis principais bancos centrais do mundo anunciaram uma ação conjunta, numa tentativa de controlar o caminho da crise que já afeta a economia global. Fazem parte desse esforço o BoJ (o Banco Central do Japão), o Federal Reserve (dos EUA), o BCE (Banco Central da União Européia), o BoE (da Inglaterra), o SNB (da Suíça) e o Banco do Canadá. Essa ação representará uma injeção de mais de meio trilhão de dólares no sistema financeiro desses países, a juros baixíssimos.

Portanto, o capitalismo continua vivíssimo. O liberalismo clássico tem horror ao intervencionismo estatal na economia, como agente produtor ou protetor. Entretanto, é de sua doutrina que o governo deve atuar instaurando regras de comportamento econômico e fazendo com que elas sejam cumpridas. O papel do governo é o de agente regulador e fiscalizador, intermediando os interesses dos outros agentes econômicos: os produtores e os consumidores