Camarão Globalizado

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 03 jun. 2007.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 03 jun. 2007.

Embora as autoridades monetárias digam e o presidente Lula confirme que o real, a nossa moeda, supervalorizado como está tem proporcionado um “momento bom para a economia do país”, a realidade não é bem assim. É bom somente para os importadores e pessoas que vão gozar férias no exterior. Para os exportadores e o setor do turismo receptivo, entre outros, a situação está cada vez mais preocupante. Em artigo passado abordei o desemprego na indústria têxtil do Estado; agora uma outra notícia: também no Rio Grande do Norte, 12 mil trabalhadores já foram demitidos nos três últimos anos pelos produtores de camarão, as exportações caíram em 30% e o faturamento em torno de 40%. Vamos entender. Quando o dólar valia R$ 3,33, para cada quilo vendido no exterior o produtor brasileiro recebia R$ 11,00. Agora, com o dólar orbitando em torno de R$ 2,00, pelo mesmo quilo vendido lá fora o exportador tupiniquim recebe somente R$ 6,60.

Culpa de tudo isso: a supervalorização do real e a globalização. No caso da indústria têxtil, esses fenômenos favorecem a importação de produtos chineses a preços baixos, que concorrem deslealmente com os produtos nacionais, fechando fábricas e provocando desemprego aqui. No setor de camarão o que acontece é a perda da competitividade do produto brasileiro no mercado internacional, que fica mais caro do que o camarão cultivado em outros países, tais como Tailândia, China, Equador, Índia e Vietnã. Há, ainda, a acusação que os norte-americanos fazem à indústria nacional de prática de dumping e a sobretaxa aplicada ao nosso crustáceo, que chegou a 23,66% e retrocedeu para 10,40%.

O fato é que as empresas que produzem camarão no Rio Grande do Norte não estão em condições de enfrentar tais problemas. De cada quatro, três delas são pequenas ou micro empresas, sem estrutura técnica ou financeira. Para completar o quadro, a dívida desses produtores junto aos bancos é superior a R$ 91 milhões. Elas não estão preparadas para enfrentar a economia globalizada.

A participação das empresas no cenário mundial de produção e comercialização só passou a ganhar mais projeção após o uso recente e intensivo do termo globalização. A convergência global vinha crescendo sem despertar grande interesse na opinião pública. Era uma evolução contínua e despercebida, pois desde o fim da II Grande Guerra a atenção de empresários e governantes estava voltada para os fantasmas macroeconômicos da recessão, da inflação, do desequilíbrio dos Balanços de Pagamentos, da dívida externa e do protecionismo.

Os exames dos aspectos microeconômicos dessa expansão também são determinantes, quer pelas suas características dinâmicas, quer pelas transformações que o cenário econômico global impunha ao processo produtivo. Hoje, com a consolidação do novo quadro, o tema sobre o qual se insiste com frequência no meio empresarial é uma política de produção que resulte no aumento da produtividade e na redução dos custos dos processos de produção e comercialização, considerando um volume de produção capaz de atender os consumos interno e externo. Para que isso aconteça, o processo não pode ser aleatório. Há que se atentar para elementos tais como: investimentos rentáveis, condições favoráveis de mão-de-obra, condições de independência de importações de matérias-primas etc. O campo microeconômico da globalização teve como base os mecanismos de eliminação de barreiras à circulação de bens, serviços e capitais e a abertura das economias dos países emergentes.

É difícil avaliar o grau real da eficácia da livre concorrência e das políticas de planejamento governamental. Nos países líderes, a liberdade competitiva e a formação das grandes corporações tiveram como consequência uma competição desleal, a manipulação de preços e a redução do emprego. Nos países em desenvolvimento, aumentaram a especulação nas bolsas e a tutela de governos corruptos – que favorecem grupos empresariais ligados ao poder, mecanismos formais e informais de manipulação de preços, corrupção ativa e passiva e distorção das regras do mercado. Este é um quadro bastante conhecido dos brasileiros.

Foram esses os caminhos percorridos pelas empresas nacionais e transnacionais na disciplina e manutenção dos fluxos internos e de intercâmbio externo, condicionadas que estavam ao grau da ação estatal, com sua maior ou menor intervenção no processo econômico. É difícil conciliar a globalização, no seu plano microeconômico, com a excessiva atuação reguladora do governo, em suas funções de manutenção da estabilidade econômica, do crescimento ordenado, da distribuição mais igual da renda nacional etc. Por outro lado, a função do Estado na condução da política macroeconômica, choca-se com teorias “globalistas” que advogam o declínio da atuação da liderança governamental e a limitação do seu poder de arbítrio final.

A extensão atual e os futuros estágios evolutivos da globalização permanecem motivos de análises conjeturais, influenciadas que são por interpretações especulativas e avaliações polêmicas sobre seus efeitos sociais (o desemprego, por exemplo) e políticos (a soberania nacional e regional). A nova dimensão da participação da iniciativa privada na estrutura informal da globalização deve ser encarada, igualmente, como fator associado às políticas governamentais, que devem atender a toda uma vasta rede de interesses nacionais, inter-relacionados no âmago do Estado.