CABRAL, O BRASIL E AS ÍNDIAS

Tomislav R. Femenick – Historiador

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Quem descobriu o Brasil? Até há poucos anos esta era uma pergunta que tinha uma resposta fácil: Pedro Álvares Cabral. Agora existem controversas. Um francês, dois espanhóis, um português e um florentino disputam lugar na resposta. Cronologicamente, o primeiro deles teria sido Jean Cousin que, em 1488, associado a “comerciantes de grosso trato” da cidade francesa de Dieppe, teria comandado uma fantástica viagem exploratória que simplesmente teria resultado na descoberta do rio Amazonas, da metade do caminho para às Índias e, mais surpreendente, na própria descoberta da América. Porém grande parte dessa viagem é contestada, contestação que vai até à autenticidade do documento que a descreve (Mémoires chonologiques pour servir à l”histoire et de la navigacion française), que contém uma série de inexplicáveis coincidências com as descrições das navegações de Cabral e Vasco da Gama.

O segundo candidato seria o português Duarte Pacheco que, em 1498, no comando de uma frota exploratória de Rei Dom Manoel I teria aportado em terras brasileiras. Em seguia viria nada mais nada menos que o homem que deu o nome ao continente, Américo Vespúcio. Em 1499 teria acompanhado o navegador espanhol Alonso de Ojeda, quando de sua expedição à costa norte da América do Sul, acima do Rio Orenoco. Nessa viagem sua embarcação teria atingido a costa norte do Brasil.

Vicente Yuñes Pinzon, que teria sido o imediato na expedição de Jean Cousin e que realmente foi o comandante de Nina, um dos navios da frota de Colombo, também em 1499, teria descoberto o Brasil, mais precisamente as costas do Ceará e a foz do Rio Amazonas. Aqui teria vindo a mando dos reis católicos da Espanha. Outro espanhol, Diogo de Leppe, em 1500, meses antes da chegada de Cabral, teria aportado no nordeste e no norte do Brasil.

Todas essas viagens e expedições são mal documentadas e não tiveram nenhum resultado prático. No máximo foram “achamentos”, atos isolados e inconsequentes. O território continuou isolado do resto do mundo e o resto do mundo desconhecendo a existência desta vasta extensão de terra. Não houve maiores relações sociais nem econômicas, que somente se iniciaram com a expedição de Pedro Álvares Cabral, mesmo assim adormecidas por mais trinta anos, quando de fato se iniciou a colonização. Sob o ponto de vista eminentemente histórico, a passagem de Cabral produziu até a certidão de nascimento do Brasil: a carta do escrivão Pero Vaz de Caminha.

A INTENÇÃO DA CASUALIDADE

A outra controversa diz respeito à intenção ou casualidade da descoberta feita por Pedro Alvares Cabral. Por trezentos e cinqüenta anos essa foi uma questão inexistente. Entre os historiadores era assente a casualidade da descoberta até que, em 1853, Joaquim Norderto de Souza Silva publicou na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro um estudo em que levantava a possibilidade de a vinda de Cabral ao Brasil ter sido intencional. A base do seu trabalho foi a carta escrita ao rei de Portugal pelo Mestre João (João de Faras, físico e cirurgião da Coroa), integrante da expedição cabralina, especialmente o trecho onde ele pedia ao rei para mandar trazer um certo Mapa Bisagudo, onde poderia ver o local em que ficava localizada a nova terra descoberta – “mande vosa alteza traer um mapamundi que tiene pero vaas bisagudo e por ay podrra ver vosa alteza el sytio desta terra…”. Entretanto a própria continuação da frase do Mestre João contradiz a teoria da existência de um mapa do Brasil, antes de 1500, quando diz: “mas aquele mapa-mindi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa atingo e alí achará Vossa Alteza escrita também a Mina”. Costa da Mina, com simplesmente Mina, é uma região litorânea da África Ocidental, descoberta pelos portugueses pouco tempo antes de Cabral aportar em praias brasileiras; Bisagudo é o nome pelo qual era conhecido Pero Vaz da Cunha; quanto ao mapa, este seria um portulano da parte conhecida da costa ocidental da África, contendo as famosas ilhas perdidas.

Analisada esta questão e outras dúvidas sobre a descoberta ou “achamento” do Brasil, evidencia-se apenas um cuidado com um preciosismo historicista que em nada altera o fato de terem sido os portugueses os responsáveis pela integração do Brasil no cenário mundial, os que colonizaram estas terras, dando-nos sua língua, costumes, religião e organização política. São, também, os responsáveis pela escravidão de nativos e dos africanos que para cá trouxeram – no que foram precedidos ou seguidos por todos os outros colonizadores europeus; espanhóis, holandeses, ingleses, franceses, suecos, dinamarqueses.

CABRAL, O BARBARO

Mas, voltemos ao nosso Pedro Álvares Cabral. No prosseguimento da viagem em que fez o descobrimento do Brasil ele foi para as Índias (as “Índias”, no entender da Europa medieval, compreendiam a “Ásia, além do mundo islâmico”), onde conquistou as cidades de Ormuz, Mascate, Orfação, Calayate e Calecute, entre outras. O Piloto Anônimo (Pedro Martyr de Anglesia?) assim descreveu o ataque a Calecute: “O Capitão-mor (…) mandou aprisionar dez naus dos mouros, que estavam no porto, e fez matar toda a gente que nelas se achava, que seriam de quinhentos a seiscentos homens; (…) roubamos e saqueamos o que tinha dentro; achamos numa três elefantes, que matamos e comemos. As naus depois de descarregadas foram queimadas; no dia seguinte chegaram em terra todas as nossas embarcações e bombardearam a cidade de maneira que lhe matamos infinita gente e fizemos muito dano”. Inúmeros outros exemplos podem ser citados, a título de comprovação desse método de gerar lucros. A tomada de Ormuz, a chave do Golfo Pérsico, foi uma das maiores carnificinas e razias realizadas pelos lusos. O assalto à cidade foi premeditado, tendo como base um plano que visava “estabelecer o terror”, atingindo-se essa meta com crueldade e saques em cidades que fossem próximas ou aliadas a Ormuz. Em Calayate “cento e cinquenta mouros foram metidos (abatidos) à espada e também os velhos, os pobres e os doentes. Em Mascate a grande matança foi de mulheres e crianças. Em Orfação, de mulheres grávidas! Adiante iam, aos centos, mancebos e raparigas com os narizes, orelhas e mão direita cortadas. Chegando a Ormuz o grande terror estava estabelecido”. As naus dos defensores da cidade foram incendiadas. “O fogo voltou-se para a cidade e a destruição foi terrível”. O botim do assalto foi compensador: Cem mil xarafins, mais jóias, ouro, pedras preciosas e tecidos orientais, foram arrecadados.