Besteirol Caquético

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 01 abr. 2007.
O Jornal de Hoje. Natal, 02 abr. 2007.
Metropolitano. Parnamirim, 06 abr. 2007.

Entre 1973 e 1975, fim do governo do general Médici e começo do governo do governo Geisel, o país enfrentou a primeira crise internacional do petróleo, com os preços do produto quadruplicando em um curto espaço de tempo. No início a ditadura militar preferiu fazer de conta que não estava acontecendo nada. Ingenuamente, os tecnocratas governamentais preferiam abraçar e divulgar os resultados do “milagre econômico”, como se o Brasil fosse uma ilha separada do mundo. Até que não houve mais como olvidar que a balança comercial estava sufocando a economia e desmascarando o milagre, que de milagre não tinha nada, pois na verdade era muito mais uma mágica de manipulação estatística do que um crescimento real. Ainda hoje estamos pagando a conta daquele devaneio “delfiniano”.

Mais como toda enganação dura pouco, o governo Geisel acordou e, em novembro de 1975, lançou o Programa Nacional do Álcool, o Proálcool. Maciços investimentos foram realizados, com o objetivo de estimular a produção do álcool, para substituir parcialmente o petróleo, como combustível automotivo. O programa estimulou o aumento do plantio de cana, a ampliação de usinas já existentes e a instalação de novas usinas para a produção do novo combustível. Na primeira fase, o álcool era misturado à gasolina, até que, em 1978, apareceram os primeiros veículos movidos exclusivamente a álcool.

A segunda crise do petróleo, acontecida em 1979-80, triplicou o preço do produto, fazendo com que a “conta petróleo” passasse a representar 46% das importações brasileiras. Acabou o milagre. Então o governo implementou mais ainda o Proálcool e a produção nacional de álcool combustível atingiu um pico de 12,3 bilhões de litros, enquanto que a proporção de carros a álcool passou de 0,46%, em 1979, para 26,8% em 1980, atingindo um teto de 76,1% em 1986.

O interessante é que as esquerdas de então, inclusive alguns daqueles que hoje são defensores ferrenhos e declarados do neoliberalismo ou até mesmo do liberalismo puro, se posicionaram contra o Proálcool, argumentando que em um país onde há fome a agricultura deveria produzir alimentos e não combustível; que a agricultura brasileira não teria condições de atender às necessidades da matriz alimentar e da matriz energética do país. Na verdade, esse argumento é verdadeiro somente na aparência, pois o desenvolvimento da agroindústria canavieira, do setor sucroalcooleiro, gera riquezas para a sociedade e muitos; muitos empregos.

Hoje o Brasil é líder mundial na produção de combustível renovável e ecologicamente correto, isto é, combustível menos poluente e que não agride o meio ambiente. Essa opção criou alguns problemas? Criou. Por exemplo: aumentou exponencialmente o número de bóias-frias (trabalhadores do campo que não possuem garantia permanente de emprego), intensificou a monocultura agrícola e a concentração de renda no setor primário. E isso aconteceu como decorrência do aumento da produção de cana-de-açúcar e do álcool combustível? Não. Aconteceu por omissão das autoridades governamentais. E a fome? Aumentou a fome do Brasil por falta de alimentos produzidos pela agricultura? Não. Atualmente nosso país se situa como um dos maiores entre os maiores produtores e exportadores de grãos do mundo, ao mesmo tempo em que a taxa de subnutrição diminuiu entre os brasileiros.

Pois bem, não é que Fidel Castro, após oito meses de reclusão e silêncio, resolveu ressuscitar, atacando a política energética do presidente americano George W. Bush de promover o uso de combustíveis alternativos, como o álcool. Vai mais longe, ao dizer que Bush está condenando 3 bilhões de pessoas “à morte prematura” com o plano de converter “alimentos em combustível”. Como encontrou esse número, ele não disse. Mesmo evitando atacar diretamente o Brasil, o “comandante decrépito” nos coloca no mesmo saco. Ao usar o mesmo argumento da esquerda nacional dos anos setenta, o ditador cubano somente mostra que está parado no tempo.

Teria sido muito mais recomendável que ele tivesse feito uma análise do caso brasileiro e tivesse recomendado cautela, para que os nossos erros fossem corrigidos e não reproduzidos em outros países. Fidel tem todo o direito de espalhar besteirol pelo mundo, só não tem o de querer nos fazer de besta.

OSWALDO LAMARTINE

Inesperadamente o Rio Grande do Norte perdeu esta semana um dos seus maiores intelectuais, o sertanista Oswaldo Lamartine. Além de pesquisador e escritor, era membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, onde ocupava a cadeira nº 12. Dentre suas obras estão “Notas sobre a pescaria de açudes no Seridó”, de 1950, “A caça nos sertões do Seridó”, de 1961, “Algumas abelhas dos sertões do Seridó”, de 1964, “Conservação de alimentos nos sertões do Seridó”, de 1965, “Vocabulário do criatório norte-rio-grandense” (em co-autoria com Guilherme Azevedo), de 1966, “Ferro de Ribeiras do Rio Grande do Norte”, de 1984, “Pseudônimos e iniciais potiguares”, de 1985, “Apontamento sobre a faca de Ponta”, de 1988, “Em alpendres da Acauã”, de 2001, e “Notas de Carregação”, de 2001. Em 2005, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte lhe concedeu o título de Honoris Causa.

Oswaldo Lamartine foi encontrado em seu apartamento, morto com um tiro no coração.

RACISMO

Vez por outra o racismo latente entre nós se manifesta. O mais recente foi o ato criminoso de atearam fogo nas portas de quatro apartamentos da Casa do Estudante da Universidade de Brasília, onde moram estudantes africanos. Cerca de 300 estudantes realizaram um protesto, reclamando da falta de segurança e da violência física e verbal que os estudantes africanos sofrem, além de pichações contra sua presença na universidade.

É comum ouvirmos algumas pessoas dizer que no Brasil não há racismo, que aqui no máximo teríamos alguns racistas que não contaminariam a sociedade. Pura inverdade. Se isso fosse verdade, haveria mais negros nas universidades, no governo, nos postos de comando das empresas. Até nas artes há racismo. Até há bem pouco tempo, afora raríssimas excreções, artistas negros só apareciam nas novelas como empregados domésticos.