Bebete do Beco

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 27 ago. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 30 ago. 2006.

Estava fazendo a barba, quando a campainha do apartamento tocou prolongadamente. Quando ele abriu a porta, a moça literalmente caiu em seus braços, deixando rubra a espuma branca que estava em seu rosto e seus braços, mãos e roupas. O vermelho era do sangue que jorrava de um corte, na garganta da inopinada visitante. A jovem, a essa altura um jovem cadáver, escorregou e se esparramou no chão, parte dentro do apartamento e parte no corredor do 6º andar do edifício. Alesxandro Dutra Sobrinho não reconheceu quem era a moça. Só com ele acontecia isso. Uma desconhecida esfaqueada vinha morrer em sua porta. Pior… em seus braços. Mais cismado ficou quando a polícia chegou e identificou que a moça era a Bebete do Beco, um tremendo traveco, cujo nome verdadeiro era Roberto Armindo Silva, seu vizinho.

Tão logo consegui terminar de fazer a barba, ligou para o Dr. Luiz Certino (que os inimigos preferiam chamar de Luiz Cretino), juiz de direito e pai de Priscila, sua noiva. Quando pai e filha chegaram, o cadáver ainda estava atravessado em sua porta. Sério, como deve ser um juiz, o Dr. Certino chamou o futuro genro a parte e, de chofre, perguntou: “O que diabo você estava fazendo com um homossexual, dentro do apartamento em que pensava morar com minha filha?” Ai Alesxandro caiu na real: todo mundo iria pensar que ele estava fazendo um programa com o travestir. Teve certeza quando o seu Rodrigo, o síndico do prédio e um dos primeiro a chegar à cena do crime, lhe disse que era melhor vender o apartamento e mudar de prédio, porque aquele era de famílias eminentemente sérias e respeitadas.

A essa altura o Tenente Fortuna, que comandava o atendimento à ocorrência, pediu que todo mundo saísse do “local do crime”, pois a policia iria fazer uma verificação nos aposentos a procurar de drogas, pois, para ele, aquilo estava mais parecendo com um acerto de contar entre traficantes. “Esperem ai – gritou Alesxandro – o que é que vocês estão pensando? Nem conheço esse cara e nem sou traficante”. Calmo, com voz de coroinha de igreja, o Tenente responde: “Isso ai você vai ter que provar na polícia”. Inesperada foi a atitude de Priscila. Jogou a aliança no chão, deu uma tapa no rosto de noivo, dizendo alto e bom som: “Muito bonito… fazendo programa com uma bicha e traficando drogas. Nunca mais fale comigo”. Deu as costas, pegou o pai pelo braço e saíram. Foram embora.

Sem querer, entreouviu um dos técnicos do Instituto Médico Legal falar para outro: “É bom esse cara arranjar logo um advogado, se não ele está lascado e mal pago”. Sem perda de tempo, Alesxandro Sobrinho ligou para o próprio Dr. Alesxandro, seu tio e padrinho, causídico renomado e o dono do nome que lhe foi dado como uma homenagem. Resumiu a história toda da maneira que pode e, quando disse que iria à casa dele explicar melhor, ouviu o pedido para mantê-lo longe “disso tudo”. Ainda ouviu o tio comentar com alguém que não sabia o porquê de darem o nome dele a uma pessoa tão irresponsável.

Era inacreditável. Estava em casa, tranquilamente fazendo a barba para ir dormir e agora, menos de duas horas depois, o céu tinha caído em sua cabeça. Foi ai que ele se lembrou do escrivão Pereira, pai do Fernando, seu colega de faculdade e do frescobol na praia. Ligou para Fernando, pegou o telefone do pai dele e ligou para o policial. Meia hora depois pai e filho estavam em seu apartamento. Contou novamente a história e, para sua surpresa, acreditaram nele. O escrivão Pereira era tarimbado. Já tinha resolvido vários casos, verdadeiros enigmas. Suas perguntas foram simples e direta. Quis saber quem morava no 6º andar além dele (a vitima – que ninguém desconfiava que fosse travestir – e mais dois casais que estavam viajando de férias); quem chegou primeiro ao seu apartamento após o fato (seu Rodrigo); quem era seu Rodrigo (o síndico, um viúvo que morava no 18º andar). Depois disso, Pereira pediu licença e saiu. Meia hora depois, novamente se ouviu as sirenes dos carros da polícia, que voltavam ao edifício de apartamento. Alesxandro Sobrinho, pensando que eles vinham lhe prender, ficou branco. Fernandinho lhe tranqüilizava, pedindo que acreditasse no pai dele, pois já tinha visto o coroa fazer quase que milagres. O tempo foi passando e nada da polícia chegar ao 6º andar. Mais tarde, o escrivão Pereira entrou no apartamento e anunciou: “Está tudo resolvido. Seu Rodrigo costumava sair com travestis e um dia saiu com Bebete do Beco, sem saber que ela também era o seu visinho Roberto Silva. Daí em diante, Roberto passou a fazer chantagem com o síndico. Este foi ter uma conversa definitiva com o travestir. Como o chantagista resistiu, seu Rodrigo pegou uma faca que estava em cima da mesa e, sem pensar no que estava fazendo, cortou a garganta de Roberto”.

No dia seguinte Priscila foi visitá-lo, querendo a aliança de volta. Alesxandro, não quis reatar o noivado. Quando o tio lhe ligou, dizendo que na ocasião do seu telefonema ele estava muito ocupado, com um caso muito intrincado, seu sobrinho disse que já tinha contratado outro advogado e que iria solicitar, judicialmente, a troca do seu nome, porque não queria ter o nome de um irresponsável.