Astereognosia moral

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 17 set. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 20 set. 2006.
Metropolitano. Parnamirim, 21 set. 2007.

Quando eu era assistente da diretoria (diretor adjunto) do consórcio formado pelas empresas de auditoria Deloitte e Revisora Nacional, fui convidado para integrar o staff do banqueiro Aloísio de Faria, controlador das empresas lideradas pelo Banco Real. Minha primeira tarefa foi instalar e estruturar a gerência de Planejamento e Controle da Produção das empresas seguradoras do grupo. Entre os meus funcionários estava um estudante de economia, ex-controlador de voos da Aeronáutica e morador em uma cidade próxima à capital paulista. Um dia, quando eu já era diretor adjunto, ele foi a minha sala se despedir, pois estava deixando a companhia para se candidatar a vereador em Campinas. Isso foi pelo meado dos anos setenta.

O tempo passou e, alguns anos depois, li nos jornais a notícia de que o meu ex-subordinado tinha sido eleito para a Assembléia Legislativa paulista. Mais algum tempo e leio novamente outra notícia de eleição relacionada com ele; agora tinha sido eleito deputado federal. Durante todo esse tempo não mantivemos nenhum contado. Um dia, no início dos anos noventa, quando novamente eu era diretor de empresa de Auditoria, a Soteconti, a secretária anunciou-me que o deputado Manoel Moreira estava na recepção, querendo falar comigo. Foi com alegria que o recebi; não são todos os dias que a gente recebe a visita de um deputado federal e, muito menos, um que já tenha sido nosso funcionário. Foi um conversa amena, sem rumo, apenas troca de recordações de dois antigos colegas de trabalho.

Meses depois estourou a notícia: Manoel Moreira estava envolvido no escândalo dos “anões do orçamento”, como ficou conhecida uma CPI que investigou congressistas que desviavam recursos do Orçamento Federal. Eles tinham como líder João Alves, aquele deputado baiano que justificativa sua fortuna alegando que era um homem de muita sorte, pois ganhara dezenas de vezes na loteria. A CPI apurou que três emendas apresentadas por Manoel Moreira beneficiaram a construção do prédio do Tribunal do Trabalho em São Paulo (aquele do juiz Lalau) e a construtora OAS, no valor de 100 milhões de dólares. A ex-mulher de Manoel Moreira ajudou nas denúncias e ele não conseguiu explicar a origem de 3 milhões de dólares, movimentados em suas contas. Para evitar a cassação do seu mandato e a perda dos seus direitos políticos, ele renunciou.

Mas a história não acabou ai. Em 1995, Marinalva Soares da Silva (a ex-mulher do ex-deputado) e seu pai, Marinézio Silva, foram acusados de um golpe de dois milhões de dólares, aplicado contra a Assembleia de Deus. Teriam desviado o dinheiro da igreja para cobrir dívidas da campanha eleitoral de Marinalva, que pretendeu ocupar o lugar do ex-marido na Câmara Federal, porém os votos foram poucos. Em 1998 Manoel foi novamente candidato a deputado estadual, mas não foi eleito. Foi, isso sim, expulso da igreja em que era pastor. Todavia isso ainda não foi o suficiente para afastá-lo da política. Em 1999 lançou Maeli Vergniano como candidata a vereadora da capital, sua ex-assessora quando deputado. Maeli teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por oito anos por enriquecimento ilícito, cobrança de propina, uso ilegal de carro e motorista cedidos por uma empresa contratada pela Prefeitura e por coagir testemunhas e membros da CPI da máfia da propina.

E por que estou me lembrando de tudo isso? Por causa da absolvição do Renan Calheiros pelo Senado da República. Se antes eu me envergonhava pelo simples fato de ter sido chefe de um bom funcionário que se transformou em um ótimo escroque, um indivíduo que se apoderava de recursos públicos por manobras fraudulentas, agora me envergonho do Senado do meu país. Talvez eu pertença a essa rara espécie animal em extinção, os homens que acham que honestidade é dever e não obrigação. Acho que as pessoas devem ser honestas não porque sejam obrigadas a isso, mas por convicção. Como pode um homem como o senador Francisco Dornelles, que já ocupou os cargos de Secretário da Receita Federal e de Ministro da Fazenda, fazer a defesa de Renan dizendo que ele talvez pudesse ser acusado só de crime tributário e não de falta de ética? E desde quando burlar o fisco não é falta de ética? Isso talvez seja uma forma rara de astereognosia moral, incapacidade de identificar os fatos como eles são. O julgamento de Renan Calheiros deu-se no âmbito do Senado, portanto foi um julgamento político, e não no âmbito das cortes judiciárias, quando seria um julgamento criminal. Politicamente foram julgados Collor, os anões do orçamento, ACM, Roberto Jefferson, José Dirceu e tantos outros.

Posso até ser tido como bobo, mas continuo sendo um otimista inveterado. A esperança de dias melhores para esse país e esse povo está arraigada em meu ser. Espero um dia ler a noticia que os 46 senadores que absolveram Renan não se reelegeram, que a revista Playboy com as fotos de Mônica Veloso encalhou, que todos os partidos estão respeitando e praticando a moral e os bons costumes. Que país maravilhoso poderemos ser. Basta negar votos aos mentirosos, incapazes, espertalhões e ladrões do dinheiro do povo.