As veias abertas das Empresas

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 02 mar. 2008.
Gazeto do Oeste. Mossoró, 01 mar. 2008.

Tenho por habito dizer aos meus alunos que a palavra mais bonita da língua portuguesa é “lucro” e que a palavra mais bonita em chinês, árabe, russo, turco, japonês, grego, aramaico, tailandês e até javanês (línguas que eu logicamente não falo) e em todas as outras bem como em todos os seus dialetos, é aquela que, em português, queira dizer “lucro”.

É obvio que este é tão somente um artifício que uso para chamar a atenção dos alunos para a importância do lucro, como fator multiplicador da riqueza da sociedade. Para exemplificar, afirmo que se não fora o lucro das empresas nenhum deles estaria ali, sentados nas carteiras, fazendo um curso superior. Se as organizações em que eles trabalham – ou nas quais seus pais trabalhem – não tivessem obtido resultados positivos em seus negócios, eles não teriam empregos e, consequentemente, não teriam como pagar a faculdade. Mesmo aqueles que são funcionários públicos também não, pois não haveria arrecadação de impostos e, sem dinheiro, não haveria como o governo contratar servidores.

Se assim ensino, não é porque eu seja um sujeito materialista ao extremo, arraigado às coisas do modernismo hi-tec, do consumo supérfluo e da ostentação dos ganhos. Por isso é que digo ainda que os lucros das empresas devem ser fruto de um comportamento ético e não da ganância, da exploração dos consumidores e dos empregados ou da sonegação fiscal.

Há um axioma que diz que na pratica a teoria é outra. Porém neste caso específico ele não vale. Em qualquer situação os empresários e seus executivos têm por obrigação serem éticos. Têm que respeitar os direitos dos consumidores e do empregados, assim como estes devem respeitar os empresários e seus executivos. O que acontece é que, nas ultimas décadas, em nosso país os empreendedores, aqueles que arriscam seus capitais em uma atividade de negócio, têm sido tratado como elementos a ser vistos com cautela; homens que confabulam contra tudo e contra todos; pessoas gananciosas e sem escrúpulos. O interessante é que quem tem ensinado “esta má lição” – ressaltado a parcela má dos empresários, como se ela fosse uma característica de todos eles -, são pessoas que, na primeira oportunidade que têm, terminam se transformando em negociantes, geralmente pendurados em alguma treta governamental, atrelados a negociatas sujas. Ultimamente temos exemplos de muitos “companheiros” que abriram empresas e criaram ONG’s somente para fazer parceria com o governo.

Todavia, não é ai que está o problema maior. Os nossos empresários conseguiram muitas vitórias no campo do bem administrar de suas organizações. Saíram de uma inflação estratosférica, com mais de três dígitos, pra uma outra, mais educada, com só um número. Cortaram custos, para enfrentar os tigres asiáticos e agora a China, domesticaram seus fluxos de caixa e adequaram seus quadros de pessoas. Só há uma conta que a tesoura dos executivos não alcança: aquela que contabiliza os gastos com os tributos. Ano a ano, eles crescem. Ano a ano, o Leão leva uma parte maior do que as empresas produzem.

Agora, mesmo com a relutância do Ministério da Fazenda, foi anunciada mais um recorde de arrecadação da Receita Federal: em janeiro houve um crescimento de 23,97% em relação ao mesmo mês de 2007. O próprio governo federal diz que suas receitas totais atingiram R$ 64,569 bilhões no primeiro mês do ano, o que representa um volume de impostos acima das suas próprias expectativas. Essa montanha de tributos fez com que o setor público (Governo Federal, Estados, Municípios e empresas estatais) terminasse janeiro com saldo positivo de caixa de R$ 5,531 bilhões, fato que aconteceu pela primeira vez em 1991, isso mesmo sem a CPMF.

É nesse clima que o governo Lula volta a falar em reforma tributaria. E que reforma é esta? Segundo o senhor ministro Guido Mantega, o atual gerenciador da Fazenda Nacional, “nós vamos fazer uma transição de uma estrutura tributária para outra cujo efeito tem de ser neutro. Esse é o nosso compromisso”. Uma reforma neutra será mesmo uma reforma? Que me perdoe o meu ex-professor Guido, mas isso me parece mais com um ajuste e faz-me lembrar o que aconteceu quando mexeram com PIS e Cofins. Deu no que deu: passaram de “cumulativos” para “valor agregado”, gerando um aumento da fatia do Leão e uma redução dos lucros das empresas, cujas perdas terminaram sendo repassadas para os consumidores.

Reforma tributária em ano eleitoral, com redução de impostos? Duvido muito. Poucos são os políticos que realmente têm interesse da redução da carga tributária do país. Muito pelo contrario, a grande maioria deseja a sua manutenção ou até mesmo o seu aumento. Será que ninguém ver, ninguém analisa e ninguém chega a conclusão que ai é que está o fermento dos negócios enviesados e escusos, dos trambiques, da sonegação? Nenhum empresário é suicida, nenhum tem interesse em prejuízo ou vocação para falido.