As ciências e os cantos de sereias

Tomislav R. Femenick – Contador, Mestre em Economia.

 vinheta175

Há algumas ciências que, embora não aparentem, têm um grande dinamismo. Tomemos o exemplo da astronomia. Desde os gregos até Copérnico, Galileu e Kepler, ficou com os mesmo fundamentos e, de lá para esta nova era – o tempo dos grandes telescópios e das sondas espaciais – tudo mudou novamente. Isso acontece com todas as ciências, sem exceções. Ora o andamento é rápido, em staccato, ora é lento, piano, piano.

A contabilidade, a economia e a administração são ciências que não chamam muito a atenção do público leigo a elas. A contabilidade deve o seu grande salto ao monge franciscano Luca Pacioli, que no século XV desenvolveu os princípios da partida dobrada (a cada débito corresponde um crédito do mesmo valor e vice versa). Desde então, todas as inovações contábeis giram em torno desse mesmo princípio, com alguns novos agregados. A economia é mais dinâmica e registrou uma enxurrada de novas teorias desde os séculos XVIII e XIX, com Adam Smith e Karl Marx no centro das novas ideias. A ciência da administração, que anda pari passu com a economia e com da contabilidade, vez por outra também adota processos inovadores.

Todavia há uma diferença: os novos métodos da administração povoam o mundo dos executivos e dos empreendedores e passam a nortear seu comportamento como um modismo. Tomemos alguns exemplos do século passado e deste século XXI: o fordismo, O&M, o toyotismo (e suas variáveis just-in-time, kanban, qualidade total etc.), ISSO 9000, a reengenharia e, ultimamente, o coaching.

Nesse universo desponta a sigla EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization); em português LAJIDA (Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Refere-se a um índice que representa o quanto uma empresa pode gerar de recursos através de suas atividades operacionais, sem considerar seus compromissos com impostos e despesas financeiras e, também, os valores das depreciações, exaustões e amortizações. É uma medida aproximada do potencial de caixa do negócio e, ao mesmo tempo, da capacidade da organização em agregar valor ao seu produto.

Em síntese é a rentabilidade operacional de uma empresa, um método de se mensurar a capacidade que uma empresa tem em gerar receitas, sem levar em conta os custos financeiros, os abatimentos concedidos e os impostos de qualquer natureza. No Brasil, a CVM – Comissão de Valores Imobiliários uniformizou os procedimentos para as empresas de capital aberto evidenciar sua Ebitda, estabelecendo uma fórmula que, simplificada, é a seguinte: Lucro operacional líquido menos depreciações e amortizações.

A Ebitda pode variar de um número negativo até um número positivo – mas tende a ser positivo – e tem sido considerada um importante indicador para se analisar o desempenho das organizações, sem computar influências externas (impostos e custos financeiros, não custa repetir) e, também, para identificar a capacidade da sociedade como ente gerador de fluxo de caixa. Esse entendimento simplista a transformou em um “padrão popular para se medir o desempenho dos negócios”.

Porém não se deve entender que a Ebitda seja um indicador da possibilidade de lucros verdadeiros. É apenas uma boa métrica para indicar a rentabilidade operacional e não o fluxo de caixa real, pois não leva em conta os valores necessários para financiar o capital de giro e para substituir máquinas e equipamentos obsoletos, o que transforma o sistema em um processo de esconder fatos relevantes no quesito custo.

Entre as principais críticas feitas a esse método está o fato de superestimar o potencial de caixa da empresa e na minimização da necessidade de recursos de terceiros de curto e longo prazo, na forma displicente como trata a carga fiscal e os dividendos e de esconder a carência de investimentos para renovação operacional e tecnológica. Isso tudo criaria um falso indicador de liquidez.

A lição que se tira é que em ciência há que se tomar cuidado com os cantos de sereias.

Tribuna do Norte. Natal, 16 ago. 2015