AS ÁGUAS DE MARÇO E ABRIL

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 20 abr. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 18 abr. 2008

Foz do Rio Mossoró

Em seu estado natural, a água é uma substância insípida, inodora e incolor. Maleável e suave, ela se acomoda aos espaços, tomando a sua forma e, quando menos se espera, ela some como que por um passo de magia, mas que nada mais é que a evaporação causada pelo calor do sol ou pela força do vento. Água é a substância mais abundante no planeta Terra, cobrindo cerca de três quartos da sua superfície.

Entretanto, dizia o meu avô, ninguém ou nada tem mais força que boi manso quando fica bravo, juiz de direito no uso da Lei e água de rio em ano de cheia. E este é um ano de cheia. Do início de março até o dia 17 passado, na bacia do Rio Piranhas-Assu já havia chovido, em média, 550 mm, enquanto que na bacia do Rio Apodi-Mossoró essa média foi de 570 mm – segundo dados fornecidos pelo meteorologista Girmar Bristot, encarregado pela Unidade especializada da Emparn-Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte. Isso equivale dizer que caíram 550 e 570 litros de água, em cada metro quadrado das bacias desses rios, respectivamente. Em alguns Municípios essa média foi ultrapassada em muito. Em Portalegre as chuvas atingiram 907 mm, em São Francisco do Oeste 913 mm e em Martins mais de 1.000 mm. No geral, este ano já registrou precipitações pluviométricas entre 40% e 50% maiores que nos anos anteriores.

O Nordeste brasileiro – e especialmente a região chamada de Polígono das Secas – é conhecido pelos seus longos períodos de estiagem, quando as chuvas se fazem ausentes por vários meses e, em casos extremos, até por vários anos. Entretanto a seca é justamente uma das causas das enchentes, isso porque se não há chuvas não há água correndo pela terra. Sem água para rasgar a terra ou com água correndo esporadicamente, nas regiões onde há estiagem os rios têm leitos estreitos e pouco profundos. Dessa forma, eles não são capazes de escoar as águas das chuvas, quando estas ultrapassam o seu volume corriqueiro.

Este ano, o reflexo das enchentes dos rios Mossoró e Assu na economia do Estado tem sido catastrófico. Além das perdas sofridas pelas pessoas que se viram privadas de moradia, móveis e outros bens, a economia das regiões afetadas pelas enchentes foi fortemente atingida. Calcula-se que entre 5 e 10 mil pessoas ficaram sem trabalho, nos quatro principais setores atingidos pelas águas que extravasaram das represas e açudes e foram para os leitos e várzeas dos riachos e rios: a fruticultura, a carcinicultura, a produção de sal e, também, a extração de petróleo. A produção de bananas, melão e, em menor escala, manga e outras frutas foi duramente abalada. No auge da crise a Del Monte, que possui doze fazendas no Vale do Assu, cogitou dispensas a maioria dos seus empregados. Com o recuo das águas, a empresa voltou atrás. Todavia, no setor o prejuízo pode chegar a US$ 70 milhões.

No estuário do Rio Assu fica localizado um grande número de empresas produtoras de camarão, que representam 30% da produção do Estado, empregando diretamente cerca de duas mil pessoas. Se consideradas em unidades localizadas nos rios Mossoró e Upanema, em Areia Branca, esses números podem dobrar. As perdas da carcinicultura potiguar com a destruição de canteiros, tanques de viveiros e, principalmente, com as benfeitorias atingem alguns milhões de reais.

No que diz respeito à indústria salineira, em Macau a safra deste ano sofreu uma queda que pode ficar entre 30% e 35%, quadro que se repete na foz do Rio Mossoró. Além das perdas do sal estocado e das águas em processo de decantação, as salinas registraram grandes prejuízos com o desmantelamento do seu sistema viário interno e externo, perda de maquinaria e outros instrumentos de trabalho. Enfrentando a concorrência do sal importado do Chile – cujo preço de venda, em algumas situações é inferior ao preço de custo do produto do Rio Grande do Norte – dificilmente os produtores locais poderão transferir esses custos inesperados para o cardápio de vendas. Porém, como nas empresas que produzem camarão, ainda não há condições para mensurar os prejuízos da indústria salineira.

O setor petrolífero também reduzirá sua produção no Estado, em função das fortes chuvas de março e abril deste ano. Dos 4.985 poços aqui existentes, 250 cessarão de produzir, o que representará uma queda de 2.862 barris/dia, ou seja, 3,45% da produção normal da Diretoria RN-CE. A causa da paralisação desses poços é a interdição da Estação de Captação de Águas do Município de Alto do Rodrigues e a precariedade das estradas vicinais, que dão acesso a alguns deles. A Petrobras deixará de faturar mais de US$ 15 milhões.

A estimativa de alguns economistas é de que o prejuízo total (público e privado), causado pelas águas de março e abril, chegue a mais de US$ 250 milhões.