MADRUGADA... E ANA MARIA
Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 29 nov. 2004.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 25 nov. 2004.

Eu e meu amigo estávamos deitados na areia da praia, olhando fascinados para aquele mundão de estrelas que se espalhava pelo céu de uma noite sem nuvens. Estávamos levemente bêbados, mas éramos jovens; ele com poucos anos mais que vinte, eu com alguns menos. Ali adormecemos.
Esta seria simplesmente uma das muitas histórias de bebedeira inebriante e ressaca, se não for contada desde o começo. Estávamos em férias, em Tibau, a praia dos mossoroenses, o meu amigo era Vicente de Paula Morais e era o fim de uma noite que começou no ?morrinho? em frente a casa do velho Lauro Escóssia. O ?morrinho? era apenas uma despretensiosa elevação de terra, que mal dava para apoiar as costas, quando se estava sentado na areia do chão da rua. Ali era o que hoje chamariam de ?point? de encontro da juventude. Lá Vicente e eu começamos a paquerar duas garotas. Até ai nada de mais. O que diferenciou a nossa noite veio depois.
Em uma determinada hora, todos foram para suas casas, menos nós dois, mosqueteiros desgarrados. Resolvemos ir para o forró de Pedro Cem. Lá bebemos, dançamos, bebemos, conversamos, bebemos e contratamos a orquestra para fazer serenata para as duas moças que, coincidentemente, estavam hospedadas na casa do velho Lauro, e eu também. Realiza o pensamento: Tibau era uma vila, meio aldeia, pacata, quase sem movimento noturno. A casa de forró só funcionava nos períodos de férias, quando o povo de Mossoró ia desfrutar a paz da sua desafetada praia.
Voltemos à nossa história. Chegamos devagar, sem fazer barulho mas, como em toda bebedeira, teve início uma grande discussão: como começar a serenata? Eu queria que fosse com um suave toque de violão e depois os outros instrumentos entrariam. O Monsieur Vicent queria um grande, alto e sonoro toque de pistão, de preferência com o início da música Cerejeira Rosa, que estava em moda na época. A conversa acordou todo mundo da casa, sem que se chegasse a um acordo. O velho Lauro saiu com um cabo de vassoura na mão, para enfrentar os desordeiros. Quando viu que éramos nós, quis saber a causa da falação toda. Resolveu a questão. A orquestra de quatro músicos ? pistão, violão, sanfona e zabumba ? tocou Chão de Estrelas, cantada pelo sanfoneiro que não sabia a letra toda mas teve a ajuda do dono da casa. Tudo foi ótimo, maravilhoso e ficou melhor quando as doutas donzelas trouxeram o complemento, fartas doses de Cuba Libre; Rum Merino com Coca-Cola. Terminada a serenata e a garrafa de Rum, fomos nós, os dois intrépidos cavaleiros, em direção ao mar, com a intenção de tomarmos um banho que cortasse a bebedeira. Entramos na água, saímos, deitamos na praia e estávamos olhando as estrelas quando ouvi de Vicente: ?É Madrugada, o sol vai nascer, estou bêbado mas vou me casar com Ana Maria?. Depois adormecemos.
A história continuou. Eu e o meu amigo Vicente casamos com as duas moças. A filha deles, quando engatinhava, brincava e desarrumava a minha casa e eu achava bonito. Quando ficou maiorzinha, fazia da nossa mesa de centro pista de desfile de miss. Arranhava a mesa toda, mas eu continuava achando bonito. Depois, eu descasei, fui embora, casei de novo e voltei. Reencontrei Vicente, morando aqui em Natal. Não revi a minha amiga Ana Maria, só falei com ela por telefone. Agora soube que ela foi falar com Deus e qualquer dia desses um astrônomo detraído descobrirá uma nova estrela e nem desconfiará que ela é Ana Maria.
Por enquanto, eu estou sem coragem para rever o meu querido Monsieur Vicent. O que é que eu vou dizer a ele? Não sei mesmo. Por isso escrevi esta crônica que conta um pedaço bom das nossas vidas, pois só o que é bom interessa e nos deixa saudade. E Ana Maria Morais foi um pedaço bom na vida de quem a conheceu... e nos deixou plenos de saudades.

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