O umbigo DE ALBERT CAMUS
Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 01.11.2004.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 31 out. 2004.

O meu artigo da semana passada foi sobre os anos sessenta do século XX. Tinha no título uma referência a um estilo de calças e saias femininas chamado de Saint Tropez, que foi inspirado em Brigitte Bardot, a grande e ex-bela artista francesa que encantou o mundo com o seu ar de inocência, sua faceirice e, principalmente com o que deixava ver do seu belo corpo. Hoje... bem. hoje a lembrança é melhor que a realidade. Ela é assumidamente uma senhora de idade que, entre outras coisas, diz que nunca se submeteu à cirurgia plástica.
Numa reunião com amigos, um deles disse-me, em tom de desafio: ?Escrever sobre o umbigo de Brigitte Bardot é fácil. Quero ver escrever sobre o umbigo de Albert Camus?. Isso é o que dá ter amigo culto. Realmente não é tão fácil, pois o umbigo de Albert Camus era o existencialismo, um conjunto de teorias desenvolvidas no decorrer do século passado, numa Europa em conflitos racionais e bélicos, um contexto de interesses divergentes que ameaçava a individualidade e a realidade concreta da pessoa. Muitos seguiram o caminho da fuga para o abstrato, para a introspecção. Outros procuraram racionalizar sobre a irracionalidade humana ? nada mais irracional que o homem canibalizando o próprio homem, espiritual e fisicamente. Talvez por esse lado se explique o porquê dessas doutrinas se voltarem para o estudo do isolamento e da solidão do indivíduo enquanto ?ser?, já que era impossível encontrar uma explicação para a existência na vida real. O melhor era considerá-la ? a própria vida ? como uma expressão subjetiva.
Entretanto um traço comum a todos os pensadores existencialistas era tratarem a verdade como algo plausível, admissível mas não absoluta e incontestável. Ela seria uma categoria em perpétua mutação, ampliando-se, contraindo-se, misturando-se com outras verdades, dividindo-se em verdades convergentes ou opostas, de acordo com a concepção da existência de cada individuo.
Albert Camus foi um dos pensadores mais representativo do existencialismo francês, mesmo que jamais tenha formalmente aderido a esse movimento e tenha rompido com o seu líder, Jean-Paul Sartre, atacando suas idéias marxistas, primeiro subliminarmente na obra ?Os justos?, e depois abertamente. Se sua produção intelectual conseguiu atingir a âmago do existencialismo, isso foi porque seu umbigo, seu ?eu?, era existencialista. Embora tenha falecido em 1960, seus escritos influenciaram as gerações até o final do século.
Autor de livros de ficção e de ensaística, suas concepções filosóficas estão, via de regra, imbricadas no comportamento dos seus personagens. No romance ?O Estrangeiro? ? considerado o epítome, a síntese, do existencialismo ? um personagem busca uma justificativa para a existência porém não a encontra, o que o faz ser um estranho, um estrangeiro, para si mesmo. Em ?O Mito de Sísifo?, Camus encontra uma certa moral e um quê de heroísmo no suicida, desde que este tenha lucidez e plena consciência da existência e de que estaria praticando um ato que o leva à não-existência. No romance ?O Homem Revoltado? aponta que só a revolta pode dar sentido à existência de uma vida pautada pelo sem sentido. Nesse longo ensaio, em que analisou a ideologia revolucionária, conclui que o individuo revoltoso, ao abraças a luta, nega a concepção de Deus.
Analisada em seu conjunto, a obra de Albert Camus mostra uma progressão que se inicia com reflexões sobre temas tais como o absurdo, o suicídio, a solidão e a morte, e vai, progressivamente, em direção à esperança e à solidariedade humana, soluções possíveis à problemática do absurdo da existência. Entrementes, em todos os escritos há quase que uma constante: a verdade é algo difuso, fugidio, discutível. Se a existência ? assim como a razão e o próprio ser ? é objeto de suscitação de dúvidas, a verdade, que poderia ser um elemento de confirmação da realidade, é também constantemente posta como uma categoria simplória, ilógica e que não se definiria se não pela contradição.
Antes de mandar para o jornal, dei o artigo para aquele meu amigo ler. Suas palavras: ?É isso ai... mas, eu achava o umbigo de Brigitte Bardot muito mais bonito?. Eu também.

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