PELÉ É O REI; MARADONA É SÓ MARADONA
Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 24 jun. 2004.
Jornal de Hoje. Natal, 28 jun. 2004.
Dizem que o melhor negócio do mundo é comprar um argentino pelo preço que ele vale e revendê-lo pelo preço que ele pensa que vale. Dizem, também, que o argentino é um espanhol que fala como um italiano, quer se comporta como um inglês e age como um francês. Sua capital, Buenos Aires, é uma cidade latino-americana mais seus habitantes dizem que tem ares de européia. Talvez por essas indefinições de identidade, é que a capital portenha seja a cidade que conta com o maior numero de psicoterapeutas. Isso tudo é piada, brincadeira de amigos, principalmente de nós brasileiros. Eu simplesmente adoro Buenos Aires. Lá tenho vários e ótimos amigos e já a visitei pelos menos uma dúzia de vezes. Rivalidade mesmo temos só no futebol. Na minha opinião Pelé é o rei e; Maradona é só Maradona.
O grande problema de indefinição de personalidade da Argentina está no querer implícito de não reconhecer a sua verdadeira origem. O povo argentino, como nós brasileiro, tem formação étnica tríplice: européia, índia e negra. Sim, negra também. Oito censos demográficos, realizados na cidade de Buenos Aires de 1778 a 1887, mostraram que praticamente um terço da população era de origem africana (a variação era de 24,7% a 30,1%). Afora os números frios das estatísticas, têm-se evidências outras para comprovar o grande contingente de negros na população da capital portenha. Uma dessas comprovações está no número de bairros cuja população negra era bem representativa, se não majoritária. San Telmo, Monsarrat, Concepción, La Piedad e Balvanera eram alguns deles. Outra é que o primeiro presidente argentino, Bernadino Rivadavia, apelidado de ?doutor chocolate?, seria um mestiço com ancestrais africanos.
A grande pergunta que se faz é: e o que aconteceu com os negros argentinos, pois hoje é raro encontrar um só que seja nas ruas de Buenos Aires? Os estudiosos do assunto dão algumas explicações para o declínio da população negra da capital portenha: a grande imigração de europeus; a extinção da importação de escravos; a grande mortandade de soldados negros nas guerras de 1810 a 1870; as péssimas condições de vida que os sobreviventes das guerras tiveram que enfrentar no regresso (libertos porém sem trabalho, sem ter onde morar e sem ter o que comer); o baixo índice do crescimento vegetativo e, não menos importante, a mescla racial que teria embranquecido os argentinos de origem africana. De todas as causas apontadas para o desaparecimento dos negros, a mais importante talvez tenha sido o embranquecimento censuário da população, ou seja, o falseamento das estatísticas, quando grande parte da população se declarou branca ou simplesmente foi transferida da categoria parda-morena para a branca.
A maior prova da presença da raça negra ? e a sua maior contribuição para a própria formação da entidade nacional Argentina ? não foi a força de seu trabalho físico, mas sim a sua expressão artística, resultando naquela que é hoje considerada como a personificação mais legítima da alma portenha, o tango. É uma formação musical impar, cuja beleza está no realçar das heranças atávicas, uma música que envolve o homem e a mulher dançantes em um clima de indizível sensualidade. Até os músicos tocadores de tango têm uma maneira própria de se apresentar, pois eles também são envolvidos pelo sincopado do ritmo, pelo frasear da melodia. Daí porque o tango é belo de ouvir, de ver e de dançar. E, da próxima vez que você ver Al Pacino e Gabrielle Anwar deslizando pelo salão ao som de um tango argentino, lembre-se que eles estão sob a excitação de uma música de origem negra.

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