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ILETRADO, POSUDO, MALCRIADO E MEDROSO
Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 29 mai. 2004.
Jornal de Hoje. Natal, 31 mai. 2004.

De comum sou uma pessoa cordata, sociável. Contrariado, procuro contornar a situação ou, quando não, finjo que não vejo. Esse é o meu jeito corriqueiro de ser, mas tudo tem limite, principalmente quando me encontro diante da prontificação de nulidades. Parto do princípio de que a ?falsa? cultura é mais nociva do que a ?falta? cultura.

Tudo isso vem a propósito de um e-mail que recebi ? anônimo e com endereço do remetente falso. O intuido do remetente era me dar uma aula de história, a propósito do meu artigo intitulado ?Sou mais Brasil?, no qual faço despretensiosos comentários sobre um acampamento de sem terra e sem teto, chamado de Leningrado. O e-mail diz: ?V. deve ser um desse reacionários burgueses, que trepudia sobre a miséria. Se diz historiador e erra sobre a cidade de Kaliningredo (você escreve Leningrado) q. recebeu esse nome em louvou ao grande Lênin, o pai da revolução bulchevista russa. Era uma região arruinada e ele embelesou a cidade que tinha seu nome para alegria dos povo. Aprenda sobre um assunto para falar dele e não. Um socialista? (sic ? reproduzido como o recebi, inclusive com os erros). Analisado, temos um texto primário em vários sentidos: estilo, português e, principalmente, conteúdo.

Mesmo assim vou responder ponto-a-ponto. Primeiro, se sou burguês o sou no sentido original da palavra, a pessoa que não vive no campo, e não por ter apego a valores materiais, por ter hábitos convencionais ou ser ligado nas tradições. A minha história de vida contradiz tudo isso. Segundo, não tripudio sobre a pobreza. No artigo que provocou a contestação eu ressalto que o assentamento era um retrato da ?miséria, com barracos construídos com pedaços de madeira, lonas, palha de coqueiro, pedaços de pano. Mesmo assim era a única esperança para uma multidão de desesperados; homens e mulheres desempregados?. Isso é denúncia.

Agora o cerne da questão. Kaliningrado é uma cidade e Leningrado é outra. Kaliningrado é a antiga Königsberg (terra natal de Immanuel Kant), localizada no enclave russo entre a Polônia e a Lituânia, às margens do mar Báltico, que até a segunda guerra mundial fazia parte do território alemão, como capital da Prússia Oriental ? após a guerra, a União Soviética apropriou-se da região. Seu nome atual é uma homenagem a Mikhail Ivanovitch Kalinin, participante das revoluções de 1905 e de 1917, um dos fundadores do jornal Pravda, membro do Politburo (órgão mais importante do comitê central do partido comunista) e presidente do Soviete Supremo (parlamento soviético) de 1938 a 1946. A cidade é conhecida, também, por causa do enigma matemático, chamado de ?As Sete Pontes de Königsberg?, criado em 1736 pelo matemático suíço Leonard Euler, e que teria dado início à Análise Combinatória.

Quanto à cidade de Leningrado ela foi fundada com o nome de São Petesburgo, depois foi chamada de Petrogrado e Leningrado. Atualmente voltou ao nome original de São Petersburgo (Sankt Peterburg ou Piter, como é carinhosamente chamada pelos seus habitantes). Lênin não ?embelezou a cidade que tinha seu nome?, pois a cidade somente recebeu o nome de Leningrado após sua morte e os comunistas não foram muito pródigos em matéria de embelezamento. Uma das jóias mais caras à alma de São Petersburgo era a celebre Câmara de Âmbar, considerada a 8ª maravilha do mundo, um salão adornado com seis toneladas de âmbar, no palácio Pusjkin (Pushkin) ? que pertenceu à rainha Catarina, a Grande ? localizado em Tsarskoje Selo, nas cercanias de São Petersburgo. Dizia-se que os alemães, durante o ataque a Leningrado na segunda grande guerra, teriam saqueado a Câmara de Âmbar e a levado para a Alemanha no navio Wilhelm Gustloff. Mas, em 2003, uma equipe de mergulhadores ingleses localizou os destroços do navio, afundado nas costas da Polônia, e não encontrou a valiosa carga. Havia outras versões. Agora os jornais publicam que arquivos da KGB e da Stasi (a polícia secreta da extinta Alemanha Oriental) revelaram que o salão de âmbar pode ter sido destruído pelos próprios soviéticos. Tornaram São Petersburgo menos bela e mais triste.

A única coisa que une São Petersburgo (Leningrado) a Kaliningrado (Königsberg) é justamente a Câmara de Âmbar. Ela foi originalmente construída nesta última cidade a mando de Frederico I, primeiro rei da Prússia que, em 1716, a deu de presente a Pedro I, o Grande, czar russo.



   

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