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EM BUSCA DA DOSAGEM CERTA
Tomislav R. Femenick
Jornal de Hoje. Natal, 09 fev. 2004.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 25 mar. 2004

Em nossa sociedade há, principalmente entre os jovens, um fenômeno estranho ao qual chamo de imediatismo cultural (é cruel usar aqui o termo ?cultural?), cujo maior sintoma é o desejo de estar ?enturmado?, isto é, saber o que todo mundo sabe para ser bem aceito pelo grupo. Esse comportamento tem provocado um nivelamento por baixo, fazendo com que se aprenda apenas o que se necessita para aplicação imediata, quer na vida pessoal, na escola ou no trabalho. É comum encontrarmos jovens que, apesar de bem informados e de terem uma relativa convivência com seus país e avós nada saberem sobre sua história de vida, que no trabalho só conhecem suas responsabilidades básicas e na escola só aprendem para passar de ano.

Procurando desatar o imbróglio, alguns pensadores do ensino universitário buscam soluções, fazendo alterações de conteúdos e programas, mudando métodos e comportamentos, numa tendência que se vem impondo pela sua visão utilitária e prática do conhecimento, ao pregar uma efetiva interação vida-escola-empresa. Nessa corrente há várias vertentes, das mais "praticistas" às mais realistas. Umas dão mais ênfase ao atendimento imediato à demanda do mercado profissional, outras procuram profissionalizar o aluno dentro do conceito do que seja mais avançado no momento, a última onda das novas técnicas. Em todas essas concepções há um consenso: o entendimento de que o mundo profissional invade a sala de aula que, por sua vez, estende-se ao mundo externo à escola. Entretanto, alguns desses educadores concedem um ensino com feição "praticista" demais, dando aos alunos uma carga eminentemente técnica, um ensino superior profissionalizante, privando o aluno de uma visão ampla das coisas e lhe negando o sagrado direito de formular raciocínio.

Isso distorce a razão de ser da universidade, que deve ter por objetivo fazer que o aluno aprenda novos conceitos, novas matérias e adquira uma maneira própria e individual de pensar por conta própria (o célebre saber universitário), que lhe dê espírito crítico suficientes para desenvolver suas aptidões científicas, filosóficas, estéticas, profissionais e éticas. A maneira de ensinar adotada por certas escolas superiores atende às expectativa da universidade? Faz acordar nos universitários a necessidade de pesquisar, raciocinar logicamente e formular idéias próprias? Fichar livro, se bem que seja recomendável, nunca foi e nem será substitutivo para a pesquisa; resumir texto não é raciocínio lógico e fazer certos seminários nunca será pensar por si mesmo. Será que não estão apenas querendo manter um imobilismo insustentável?

Certamente há outros problemas no ensino universitário. Entre eles há um lugar especial destinado à ?verdade absoluta?. Muitas vezes, aquilo dito ou estabelecido pelo professor é sacralizado e, não somente passa a ser a verdade absoluta, mas se transforma no "absoluto" em si. O absoluto impede o uso racional e democrático da mente; só se pode praticar o uso da mente quando se pode questionar, inclusive, as verdades absolutas. Foi ao se questionar o "geocentrismo" que se descobriu a insignificância da terra perante o universo; foi ao se duvidar da forma plana da terra que se descobriu a sua esfericidade e a América. Então por que não permitir e mesmo incentivar que se questione uma fórmula matemática não muito clara, uma teoria econômica ou do direito, um conceito de administração, um princípio de contabilidade?

A universidade não pode apenas se preocupar em formar candidatos a ocupar cargos no mercado de trabalho. A articulação sociedade-universidade-empresa deve ir mais longe, deve se preocupar com o estado de arte do que ensina, com a formação da cidadania e da vida profissional do aluno. A prática pedagógica deve simular a vida social e empresarial, de modo a estimular e incentivar a visão criadora e crítica dos alunos, sem permitir que eles se desvinculem da realidade concreta. A busca constante do educador deve ser a dosagem certa da teoria e da prática.



   

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