O HOMEM TRISTE
Tomislav R. Femenick
O Mossoroense. Mossoró, 04 abr. 2005.
O Jornal de Hoje. Natal, 10 abr. 2006.

Taciturno, sorumbático e ensimesmado. Assim teriam classificado aquele homem que estava sentado em um banco do calçadão, com o olhar fixo na imensidão do mar, vendo o sol se por. Taciturno porque calado e tristonho; sorumbático porque mantinha as feições sombrias e carrancudas; ensimesmado porque estava concentrado, absorto consigo mesmo, pensando sobre os seus pensamentos. Entretanto, se olhassem de perto, veriam que uma lagrima, uma solitária lagrima, corria sobre a sua face. Uma só. Mas, naquele rosto traçado pelos anos vividos, era o suficiente para revelar uma fecunda e abundante tristeza.
Estava ali há mais de hora, quase que na mesma posição. Embora ainda forte, devia ter um pouco mais de setenta anos. Usava sapatos sem meia, camisa social e terno preto, porém sem gravata. Via-se logo que suas roupas, embora daquelas compradas feitas e amarrotadas pelo uso não eram de confecção barata, se bem também não fossem do tipo das usadas pelos muito bem aquinhoados pela vida. As pessoas passavam e pareciam não o ver. Um casal de namorados desavisados se sentou no mesmo banco, mas logo se sentiu incomodado pela indiferença do velho. Levantaram-se e foram em busca de outro lugar, como que dizendo que aquele clima pesado, carregado e macambúzio que dele emanava não era condizente com a alegria que precisavam para gozar o seu amor.
E em que estaria aquele homem a pensar? Pensava na vida, na sua vida que hoje tomara um rumo inesperado. Estava de terno porque, no dia anterior, disseram que hoje ele seria homenageado pela diretoria da empresa onde trabalhava há cinqüenta anos. De fato foi. Deram-lhe uma caneta e o aviso prévio; até lhe dispensaram de trabalhar durasse o período do aviso. A desculpa foi que a empresa está fazendo corte de pessoal e, como ele já estava aposentado e era viúvo, o seu nome entrou na lista. Ora, durante meio século a empresa foi mais que o seu mundo, era o seu refúgio de uma vida familiar sem sabor e medíocre. Sua aposentadoria nem chegava a três salários-mínimos, pois trabalhara muito tempo sem carteira assinada. Ainda bem que tinha economias suficientes para se manter sem se preocupar com o futuro. A homenagem foi só desculpa, para amenizar o fato de que lhe estavam mandando embora. No seu lugar botaram um menino novo.
Pensava no desamor, no desapego dos seus pais para com todos os filhos. No esforço que fizera para se formar, porque queria melhorar sua posição na empresa. Posição que nunca melhorou além do cargo de encarregado de seção; nem o cargo de chefe lhe deram. Pensava na mulher com quem se casara; uma vizinha sem graça e sem animo para nada. No começo até que iam ao cinema. Depois só gostava de comer, dormir e assistir novela de televisão; nessa ordem. Nunca se amaram de fato. Foi só uma vida na mesma casa e não um casamento. Pensava no filho que, quando jovem fora um menino alegre, ativo, que gostava de esportes e de estudar. Adulto não suportou o ambiente misantropo dos pais e foi embora de casa, sem deixar endereço.
Nunca entendeu a sua mulher. Quando ela morreu, ele não sentiu saudades, sentiu apenas falta de sua figura sentada na cadeira de balanço olhando para a TV, de seus longos silêncios à mesa de refeição e de sua presença na cama de casal, onde ocupava um largo espaço. Logo quando se casaram, sua indiferença a tudo fez com ele pensasse que ela teria alguma paixão enrustida. Mas se convenceu que ela era daquelas pessoas sem sentimento algum, incapazes que são de ter qualquer emoção com calor. Por isso era que exigia muito pouco da vida; pouco saía de casa, não tinha amizade com ninguém, sua comida favorita eram os pratos do dia-a-dia, suas roupas sempre foram de tons pasteis. Se sentia falta do filho, não deixava transparecer. Desconfiava até que ela morreu sem nunca ter se apercebido da própria existência, do fato de viver.
A noite já ameaça chegar e lá continuava o homem sozinho com os seus pensamentos quando uma mulher, com idade parecida com a sua, porém ainda vigorosa, passou por ele andando a passos largos, como fazem os idosos que se exercitam. Passou, parou e voltou. ?Vicente? Vicente Dutra, o Vicentinho do Ateneu?? ? Perguntou. O homem demorou a sair da penumbra do seu devaneio, mas respondeu: ?Sim. Sou eu?. Ficaram a conversar. No início só ela falava. Depois, ele também. Falaram sobre o professor Aleixo, o Desleixo, que andava sempre com uma parte da camisa fora da calça; de D. Flora, a mestra de português, e do inocente flerte que tiveram. Ele até sorriu; ela riu. Ele disse que era viúvo, ela também. ?Que coincidência?, disseram os dois ao mesmo tempo. Saíram juntos, um casal de velhos passeando no calçadão da praia, no início da noite.

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