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AS «lógicas» DA COLONIZAÇÃO
Tomislav R. Femenick
O Mossoroense. Mossoró, 02 mar. 2006.



Na época da descoberta da América, as relações comerciais dos europeus mantinham com os outros povos eram realizadas sob dois sistemas do domínio: monopólio de trocas de mercadorias ou estabelecimento de feitorias no exterior. No primeiro caso, poderia haver vários vendedores de um mesmo lugar, os preços eram estabelecidos mediante acertos entre vendedores locais e compradores europeus, sendo que estes últimos deveriam ser sempre os mesmos, sob rígido esquema de monopólio. No segundo eles instalavam feitorias (entrepostos comerciais) que, às vezes, contavam com um contingente de homens armados.

A descoberta da América exigiu um sistema diferente. Aqui tinha riquezas demais e potencial de lucro em tal monta que as trocas, as feitorias e os saques não poderiam esgotá-las. Era um mundo vasto, desconhecido e desprotegido contra a cupidez européia. Em poucos anos as razias dizimaram as riquezas acumuladas, as feitorias e as trocas garantiam somente o comércio de pequenos excedentes da população local. O grande potencial de exploração que a nova terra oferecia teria só poderia ser ativado de outra maneira. Os dominadores teriam que arrancar da terra americana os seus minerais, o lucro agrícola e pecuário ? na sua ótica, fazendo que outros trabalhassem para eles. Nisso eles tinham experiência: as colônias das ilhas africanas, pertencentes aos portugueses.

Três outros fatores garantiram a implantação do sistema colonial. No século XIV, a Europa foi devastada pela ?peste negra? que, em algumas regiões, fez perecer um terço da população. Aldeias inteiras desapareceram, outras se viram reduzidas a poucos sobreviventes. As guerras intermináveis também contribuíram para esse quadro de despovoamento. No século XVI, no entanto, a Europa já tinha recomposto a sua população e possuía um contingente de habitantes que lhe permitiu se lançar na conquista colonial. Além do mais essa população, que crescia e não encontrava ocupação, formava uma legião de desocupados e famintos, que infestava as cidades grandes. Lisboa, Paris, Londres, Amsterdã eram alguns dos centros para onde se dirigia essa massa de desocupados e desesperados. Dela se formou a parcela principal dos povoadores brancos da América; voluntários ou forçados pelas leis que foram instituídas especialmente para empurrar essa mão-de-obra para o Novo Mundo.

Por outro lado, a acumulação de capitais, já existente na Europa no século XVI, propiciou os recursos que a burguesia necessitava para financiar tal empreendimento; sem esses recursos não teria havido a colonização. Por último, grande parte da nobreza estava empobrecida, principalmente por dois motivos: o uso mais generalizado do costume da progenitura (pela qual somente o filho mais velho tinha direito aos bens e ao título do pai falecido) e o seu enfraquecimento econômico (causado pela ocupação de espaço e crescimento da burguesia que quebrava os privilégios que o feudalismo proporcionava aos nobres).

Aos fatos econômicos juntou-se uma ideologia de exaltação ao Novo Mundo. Dizia-se que aqui a calma e o ar que se respirava era tão puro que as pessoas só morriam de velhice. Pregava-se a imagem do bom selvagem (?Ignorantes, iletrados, sem lei nem rei, nem religião alguma, sua vida desenvolve-se numa admirável simplicidade. Os homens têm várias mulheres, em tanto maior número quanto mais famosos e valentes?) e de uma vida igual a do Paraíso. Dizia-se que era freqüente homens idosos ou de saúde decadente, sem esperança de ter mais do que um ou dois anos de vida, viverem longamente depois de aqui chegarem ? às vezes vinte, trinta, ou mais anos.

Além dessa visão paradisíaca outras mais práticas, ajudaram na formação mítica da América: aqui estaria a fonte de juventude eterna e aqui existiria o Eldorado, o estuário de muitas riquezas. A fonte da juventude era uma lenda em que acreditavam os europeus, antes mesmo de saberem da existência do novo continente. Com as descobertas, para cá foi transferido o sonho. Sua localização foi imaginada na Florida. Diziam que os velhos rejuvenesceriam, quando se banhando nessa fonte. Essa crença era compartilhada por nobres, burgueses e plebeus pobres, todos enfim.



   

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