A SENHORA VIRTUOSA
Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 30 jan. 2006.
O Mossoroense. Mossoró, 26 jan. 2006.

O dia tinha amanhecido claro e quente. Porém, pouco-a-pauco o sol foi sendo escondido por nuvens que anunciavam chuva. Era um bom prenúncio, pois naquele período do ano o calor sempre era insuportável. No começo da tarde havia caído uma chuvinha fina, uma leve neblina que levantara um mormaço do chão quente. Quando o seu carro, junto com os outros, parou na porta do cemitério, visto de longe o asfalto parecia ondular.
O sepultamento seria na parte nova do campo santo, onde não havia muitos túmulos e o espaço entre eles era maior. Lá na frente iam o marido, os irmãos e o pai empurrando um carrinho com rodas de bicicleta, em cima do qual estava o caixão ? bonito, de madeira envernizada, com apliques e puxadores de metal da cor de cobre; deve ter sido caro. Atrás deles estavam os dois filhos e, depois, os outros participantes de cortejo fúnebre. Agora a chuva estava mais forte e as pessoas começaram a abrir seus guarda-chuvas. Todos pretos. Parece até que para combinar com as roupas das pessoas que, coincidentemente, todas também eram pretas. Interessante: também não havia ninguém louro. Todos tinham cabelos pretos ? até os pais e o marido pintavam o cabelo dessa cor, com pequenas variações de tonalidade.
O marido! Que cachorrão. Agora com cara de choro, mas ontem mesmo estava em um barzinho da moda com aquela ex-funcionária, para quem ele comprou uma loja de lingerie, sem nenhuma preocupação de ser visto ou não na companhia da amante. Aliás, todo mundo da cidade sabe do caso. Depois devem ter ido para algum motel. O caso da loja ele sabia muito bem, pois era o financeiro da empresa do descarado e foi ele quem fez toda a negociação para a compra do estabelecimento. Tratou de tudo, até do saque do dinheiro da conta de poupança que estava reservada para pagar a universidade dos filhos. Quanto cinismo e hipocrisia.
Dona Lurdinha, a falecida era diferente. Uma mulher virtuosa, de caráter. Séria, dedicada ao lar. Cuidava dos filhos e da casa, dos compromissos sociais do casal e até do guarda-roupa do esposo. Fazia parte do movimento social da paróquia que freqüentava, onde ajudava na manutenção do abrigo dos órfãos. O fulano não ia nem a missa, pois se diz agnóstico. Considera as religiões como coisas inúteis. O que ele gosta mesmo é de aparecer nos jornais como homem de ação, empresário bem sucedido. Está até sendo cogitado para assumir a presidência de um importante órgão representativo das ?classes conservadoras?.
Deixou os seus devaneios para prestar atenção ao que o padre dizia: ?Senhor receba em seu seio a alma de nossa irmã. Ela, que em vida foi um exemplo de retidão e bondade, merece o convívio eterno dos bons e honestos, dos puros de intenções e ações. Vinda da terra, volta à terra; vinda do pó volta ao pó, mas permanecerá na lembrança dos seus amigos e dos seus entes queridos, principalmente do seu esposo, dos filhos, dos pais, dos parentes?. Olhou para o marido. Chorava, abraçado com os filhos. Queria demonstrar um sentimento louvável que não tem. Só poderia ser uma forma de preservar sua imagem. Se gostasse tanto assim da mulher não teria tantos casos ? a amante atual era somente a mais recente de uma grande lista.
Na semana seguinte ao enterro, recebeu um telefonema de um amigo que era delegado de polícia. Pedia que ele fosse à delegacia, mas guardasse sigilo. Lá foi informado que o médico de Dona Lurdinha desconfiou de sua morte, cuja causa tinha sido uma parada cardíaca e ela nunca tinha sofrido do coração. O que a polícia queria saber mesmo era como era o relacionamento do casal, pois tinha em mãos um documento, achado por uma empregada no quarto deles, entre as coisas da falecida, que transformara o caso em suicídio.
Não conseguiu se conter e abrir o jogo: o marido era um crápula. Traia a mulher há muito tempo, tinha amantes seguidamente, sendo que a última era a dona da loja de lingerie, com quem gastara até o dinheiro que estava reservado para a formatura dos filhos. O delegado disse que sabia disso tudo. O que ele queria saber é quem era Luiz Walfredo.
? O Luiz? É o advogado da empresa e amigo da família, casado com uma prima de Dona Lurdinha. E que ele tem a haver com a morte dela?
O delegado passou às suas mãos um pedaço de papel amassado e rasgado um pouco acima do meio, onde ele leu: ?... e casei com o meu marido forçada pelos meus pais, que nunca me respeitaram. Nunca o amei. Meus filhos acham que sou uma inútil. Na igreja sou somente uma simples ajudante. O Luiz Walfredo se aproximou de mim e tivemos um caso, que eu pensei ser o meu último, pois por ele me apaixonei de verdade. Depois de contratado pela empresa, veio com a história de que está arrependido e que ama mesmo a mulher dele e não a mim. Mas eu já não posso mais viver sem ele?.

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