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A CAVILAÇÃO DE DORIAN
Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 23 mai. 2005.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 18 mai. 2005.



Não sei porque carga d?água ele é o único amigo a quem não consigo chamar simplesmente pelo nome de batismo, pelo nome próprio, pelo prenome. Sempre tem que haver o segundo nome e o nome de família. Talvez seja porque Dorian e Jorge há muitos e, também, porque sem o Freire ele não seria identificado como o filho de seu Jorge Freire, aquele meu vizinho ?seco de carne, gestos e palavras? ? como diz o seu filho ? mas que, quando eu era menino, sempre me cumprimentava com um passar de mão na cabeça, embora sem palavras.

Houve quatro momentos distintos das minhas relações com Dorian Jorge Freire. O primeiro deles foi meio a distância. No final dos anos quarentas, eu era criança e ele tinha alguns anos mais que eu e não tínhamos amizade. Nesse período simplesmente eu lia seus artigos ? e os de Jaime Hipólito ? em O Mossoroense. Como eu ainda não sabia ler direito, o meu primo Jorge Ivan Cascudo Rodrigues me explicava o sentido dos textos, quase frase por frase. Acredito que foi daí o despertar do meu desejo de escrever para jornal. Depois, no início dos anos sessenta, nos encontramos em São Paulo. Ele pontificando na Ultima Hora e eu simples reporte do Diário de São Paulo e do Diário da Noite. Muitas das minhas matérias eram baseadas em dicas dadas por ele, que já era bastante conhecedor e conhecido lá nas plagas paulistanas. Eu que já trabalhara nos Diários Associados de Alagoas e mesmo em O Mossoroense, voltei a beber na fonte.

Depois trabalhamos juntos no Diário de Natal ? ele na capital e eu em Mossoró. Era um eterno trocar de bilhetes. Ele com pedidos para que eu escrevesse determinadas matérias e o enfoque que deveria ser dado em cada uma delas. Eu, com a minha experiência já acumulada, às vezes concordando e outras discordando. Assim foi que fiz uma série de reportagens sobre um prédio construído pelo governo do Estado e não inaugurado (que mais tarde viria a ser o Esperança Palace Hotel e que hoje serve de sede à Câmara Municipal); sobre a prostituição no famoso bairro de ?Art Nouveau? (mais conhecido pela sua corruptela de ?Alto Lovou?), sobre política etc. Em certas ocasiões o papel se invertia e eu dava dicas ao meu amigo. Isso aconteceu na célebre entrevista em que Raimundo Soares de Souza explicou porque abdicou de ser candidato a governador ? quase ungido pelo governo e pela oposição ?, que na época foi um marco do jornalismo político do Estado.

No começo dos anos setentas, nos encontramos novamente em São Paulo. Católico ele e eu pensando que não acreditava em Deus. Nem agnóstico eu me dizia. Um belo dia, vi a minha besteira: não se pode descrê de alguém a quem se contesta; no máximo se pode descordar. Quis comunicar o fato a Dorian Jorge Freire, mas ele tinha voltado para Mossoró, para morar na mesma casa da Praça da Redenção. Depois eu soube de seus problemas de saúde.

Crie um habito. Desde quando morava em São Paulo, todos os domingos leio, pela Internet, a sua coluna publicada na Gazeta do Oeste. Sempre que ia a Mossoró reunia forças para visitar o meu amigo. Reunia força, mas não ia. No ano passado eu e minha mulher o visitamos, na companhia de Camilo e Ana Maria Cascudo Barreto. Matamos saudades. Conversamos sobre a coleção Brasiliana, sobre literatura e sobre Deus. Um dínamo de estrutura mental, como ele é, sempre tem algo a nos ensinar.

Há poucas semanas, sua coluna passou a ser assinada por um interino. Preocupado liguei para o prof Vingt-un: ?O que há com Dorian Jorge Freire??. A resposta me tranqüilizou: ?Cavilação?. Domingo passado ele voltou a assinar a sua coluna com a mesma verve, lucidez e um quê de leveza. Não me contive e ligue para ele. Tive vontade de reclamar de sua cavilação. Mas não se pode reclamar dos amigos.



   

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