AS REVOLUÇÕES NA INTERNET
Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 16 mai. 2005.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 21 mai. 2005.

Meu primeiro contato direto com um computador foi em São Paulo, quando trabalhava no antigo Banco Cidade. Foi com um IBM 360/. Nós precisávamos de uns cálculos para risco de seguro, que exigiam a utilização de regressão linear de quinto grau. Esperamos mais de duas horas pelo resultado. Hoje o meu PC caseiro faz o mesmo cálculo em menos de dois segundos. Sempre mantive uma distância respeitosa com o computador, até o dia em que resolvi enfrentá-lo, mesmo que não o vencesse. E estamos nos dando relativamente bem.
Os leitores desta coluna já sabem de minha relação de admiração e desespero com essa coisa. De minha brigas com essa máquina que nos compraz e frustra com a mesma facilidade. De mesma forma que facilita, também emperra a vida da gente. É muito bom poder enviar este artigo para a redação via Internet, sem sair de minha casa ? nos anos sessentas e início dos setentas, quando eu morava em Mossoró, minhas matérias eram mandadas de ônibus para os jornais de Natal, Recife e Fortaleza. Para os do Rio, São Paulo e Brasília iam mesmo por carta, ficando na dependência dos percalços dos Correios. Mas, ás vezes, misteriosamente, o computador engole meus artigos e só os devolve dois, três e até seis meses depois.
Pois muito bem. Agora tenho uma outra percepção para com o computador, a computação e toda a parafernália que o cerca: espanto. Este sentido veio-me quando resolvi manter um site (uma página, como dizemos nós, os não entendidos), na rede mundial de computação: www.tomislav.com.br. Isso tudo vem à baila por causa da série de crônicas que escrevi sobre o caráter antropofágico e autofágico das revoluções. Foram somente oito artigos, mas recebi mais de 1.200 e-mails, vindos de Brasil e de países como Portugal, Espanha, Argentina, Peru, Paraguai, México, Colômbia, Chile, Uruguai, Venezuela, Angola (previsíveis), Itália, França, Estados Unidos (nem tanto), Alemanha, Holanda, Grã Bretanha, Israel, Cabo Verde, República Checa, Tunísia, Dinamarca, Tailândia, Bélgica, África do Sul, Suécia, Noruega, Eslovênia, Finlândia, Suíça, Áustria e China (totalmente inesperados). Também vieram da Austrália, mais foram dos meus sobrinhos australianos.
A maioria deles veio em português, mesmo que vindos de fora do Brasil. Da Espanha e da América Espanhola, eram redigido em espanhol e espanguês (uma mistura de espanhol e português, o nosso portunhol). Dos outros países vinham em inglês e português ? a maioria das vezes ver-se que traduções automáticas, feitas por softs de versões lingüísticas. Justifica-se o meu espanto com a Internet. Este ano, até o dia 12 de maio, a minha página foi visita por 215.508 pessoas. No ano passado foram 476.237. Note-se que o sistema de estatística usado pelo meu provedor só registra a primeira visita do internauta; as demais não são contadas. O que isso que dizer? Que qualquer pessoa que tenha uma página na Internet, está exposta aos olhos do mundo.
Quanto aos e-mails em si, eles foram de teor os mais variados. Alguns me davam parabéns por denunciar genocídios praticados por governantes de esquerda e direita, morticínios feitos em nome do povo mais que somente interessavam a uma minoria de gananciosos em busca do poder. Uns remetiam mais informações sobre algumas das revoluções enfocadas. Outros discordavam, diziam que eu estava equivocado e procuravam me convencer de erros, mas lhes faltava a imparcialidade ideológica com que eu procurei revestir os textos. E, como sempre, os extremistas da esquerda e da direita simplesmente remeteram impropérios, geralmente sem se identificar e adulterando o endereço do remetente. Uns poucos escreveram artigos para contradizer as denuncias implícitas e explicitas contidas na série. Entretanto ficavam na periferia do assunto. Por exemplo: ao querer contestar os crimes do governo soviético na época de Stalin, citavam os crimes do capitalismo, como se este último justificasse aqueles; citavam a anarquia reinante na Itália logo após a Primeira Guerra ou o Tratado de Laterano, assinado em 1929 entre a Santa Sé e o governo da Itália (pelo qual à Igreja foi concedida a soberania sobre a Cidade do Vaticano, embora a perdesse sobre outros domínios anteriores), para justificar o fascismo de Mussolini.
Desculpem-me os discípulos extremados da esquerda e da direita, mas no século XXI, a era da informática e da globalização, ferramentas do século XIX, como a retórica e a dialética primária (aquela que parte de premissas falsas), já não servem como argumento entre pesquisadores sérios. E, como dizia Ibrahim Sued, o maior de todos os colunistas sociais, que todos criticavam e todos liam: ?Sorry periferia. Olho vivo que cavalo não desce escada. Stop e ademã, gente, que eu vou em frente?.

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