AO MERCADO TUDO

Tomislav R. Femenick
O Mossoroense. Mossoró, 15 set. 2005.
O Jornal de Hoje. Natal, 06 out. 2003

 

Quem me disse foi um meu amigo e quem disse a ele foi um seu amigo bem particular, o seu anjo da guarda. Sim, um anjo celestial, daqueles que têm asas, que são seres espirituais, bons, virtuosos e que não mentem jamais.

Mas vamos a história que me foi contada. Um dia desse, em uma nuvem branquinha, estavam conversando os mestres Aurélio Buarque de Holanda e Antonio Houaiss, dicionaristas e etimólogos, respeitados aqui na terra e lá no céu também. O assunto que prendia a atenção de tão ilustres personagens era a conceituação econômica do tão falado mercado. Mestre Aurélio afirmou: ?Esse ente é apenas um conjunto de atividades de compra e venda de bens ou serviços, em certa região, tais como o mercado de ações, o mercado de trabalho, o mercado imobiliário etc. Já escrevi isso lá nos anos cinquenta do século passado? ? disse o tio de outro Buarque famoso, o Chico, compositor e escritor, e irmão do Sérgio, historiador sociólogo e pai do Chico. Por sua vez, o falecido imortal Houaiss, mais chegado a uma pompa verbal, parolou: ?O mercado é uma concepção das relações comerciais baseada essencialmente no equilíbrio de compras e vendas, segundo a lei da oferta e da procura. Essa minha concepção é mais moderna, mais atual, coisa mais nova, já da passagem do século XX para o XXI?.

O nível da conversa, como não poderia deixar de ser, atraiu a atenção dos que passavam em outras nuvens. O primeiro a se apear foi o satírico irlandês e prêmio Nobel George Bernard Shaw, enquanto vivo famoso pelo seu espírito irreverente. Logo em seguida, a eles se juntou o escritor, estadista, filósofo, gênio da ciência política, pioneiro na descrição da amoralidade política e do exercício do poder, o italiano Nicolau Maquiavel. Se o papo já era bom, agora ficou melhor. Coisa de alto nível.

O irlandês foi direto, franco e rude, como às vezes era seu costume enquanto vivo: ?Esse negócio de equilíbrio entre a oferta e a demanda é balela, coisa para inglês ver, como dizem vocês brasileiros. Quem manda no mercado é o lado mais forte. Veja o que acontece agora. Os Estados Unidos estão querendo a abertura do mercado na América Latina, mas se reservam o direito de fechar o seu para a entrada dos principais produtos dos cucarachas. Mercado é coisa séria, não é coisa para dicionaristas; muito menos para economistas?. Embora relutando, os etimologistas tiveram que concordar que os fatos eram mais fortes que os conceitos, que o sentido das palavras muda, que elas devem ser entendidas não somente pela sua origem, mas (e principalmente) pelo significado presente, resultado da evolução histórica sofrida pelos vocábulos.

O celular de um deles tocou e a reunião ia se dissolvendo, mas o italiano entrou na conversa: ?Na minha não tão humilde opinião, para existir mercado é necessário que existam de um lado mercadorias, serviços, técnicas, ideias e pessoas ou entidades que queiram vender e, do outro, pessoas ou entidades que queiram comprar essas mesmas mercadorias, serviços, técnicas e idéias. Já que a maioria aqui é de brasileiros, por que nós não levamos a discussão para o Brasil? Lá alguns ditos representantes do povo ? senadores, deputados e vereadores ? estão enlouquecidos para se vender e alguns governantes federal, dos Estados e de cidades, querem comprar esses políticos. Criou-se um mercado, onde há os que têm os cofres públicos e mandam e os outros que aderem em troca de uma verba grande aqui, uma verbinha pequena ali, um cargo público acolá. Então é um troca-troca de lado, de apoio e de partido. É um desvirtuamento da política mas a realidade é realidade. É um mercado aético, mas é um mercado.?

Faz sentido. É uma opinião maquiavélica, mas retrata o nosso mercado de políticos, digo eu.