ALÔ, ALÔ REALENGO, UM NOVO ABRAÇO

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje
. Natal, 12 abr. 2011.

Realengo é um bairro carioca, localizado na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, com vizinhos mais famosos; Bangu, Jacarepaguá e Campo Grande. Seu nome, dizem, tem origem em uma carta régia assinada por Dom João VI em 1814, transferindo terras pertencentes à coroa portuguesa (terras realengas) ao Senado da Câmara da então capital provisória do reino. Fica entre as serras da Pedra Branca e do Mendanha e nessa região registram-se as temperaturas mais altas da Cidade Maravilhosa, porém o calor arrefece nas noites de inverno, devido aos ventos frios que descem das encostas das serras próximas. É uma área cujos habitantes são pessoas de classe média e que se desenvolveu em virtude da presença de unidades militares e fabris, entre elas fábrica de armamentos, quartéis e escola militar, fábricas de vestuário, colchões, componentes eletrônicos, calçados e outras.

Na última vez que lá estive, pude notar cenas que atestam o status assumidamente suburbano que seus habitantes adotam. As crianças ainda soltam pipas e balões caseiros, correm e brincam nas calçadas, jogam peladas de futebol em campos improvisados no meio das ruas menos movimentadas e nas poucas ruas não pavimentadas, depois das rápidas chuvas de verão sobe da terra aquele cheiro de terra molhada. No final do dia de muita labuta e de longa jornada espremidos em transportes públicos, os amigos se encontram no bar da esquina para um papo longo e preguiçoso, como devem ser todos os papos entre amigos; sempre parando para olhar as moças bonitas, quando elas passam com aquele andar gingado bem característico das cariocas. Os vizinhos se tratam de compadres, porque são compadres mesmo; padrinhos dos filhos dos vizinhos.

Esse bairro tipicamente carioca somente ficou relativamente conhecido de todo o Brasil por causa do brado “Alô, alô, Realengo, Aquele Abraço!”, na famosa canção composta por Gilberto Gil no fim do seu exilo em Londres, já às vésperas do regresso ao Brasil. A origem da citação está no fato de ter sido em um quartel do Exército ali localizado que Gil e Caetano estiveram presos na época da ditadura militar, suspeitos de atividades subversivas. Época em que não era proibido proibir e a ditadura usava e abusava do direito do arbítrio.

Semana passada o Realengo ficou bem conhecido do Brasil e seu nome se fez presente na imprensa do mundo todo, acompanhado de imagens de violência, insensatez e da mais pura alma bruta que o ser humano trás consigo, talvez como herança atávica de sua origem animal. Um marginal, portando duas armas e farta munição, assassinou a sangue frio doze crianças e feriu gravemente mais outras tantas, alunos de uma escola pública municipal. Tudo sem indicativos, sem razão, sem lógica. Foi um massacre frio, minuciosamente calculado, somente contido pela pronta e profissional intervenção do Sargento Marcos Alves, do Batalhão da Polícia Rodoviária. Foi um herói.

As grandes indagações que ficam dessa tragédia exigem grandes respostas. O que motivou essa loucura toda? Como as pessoas têm acesso tão fácil a armas e munições? Por que não há controle sobre a posse e o tráfego de armas – este quase que “risonho e franco” – em nossas fronteiras, principalmente as com o Paraguai, Bolívia e Colômbia, usando os mesmos caminhos das drogas? O que os governantes vão fazendo?

A magnitude da tragédia do Realengo até agora calou a boca dos defensores dos direitos dos criminosos. Não duvido que, tão logo o clamor esfrie, tão logo a revolta da opinião pública amorteça, apareça alguém querendo processar o Sargento Marcos, a direção da escola, o padre, o pastor, o bispo, o papa ou as famílias das vítimas pelo suicido do matador.

Para o bairro simples de Realengo, novamente aquele abraço. Para as famílias das vítimas, solidariedade.