ALGODOAL “AO DEUS DARÁ”

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 30 maio 2010

Em análise sobre o Nordeste Brasileiro, apresentada às Nações Unidas em 1963, o economista norte-americano Stefan H. Robock evidenciou que “a escassez de técnicos e o nível geralmente baixo de conhecimentos técnicos constituem os principais obstáculos ao desenvolvimento”. Isso se aplicava muito bem à nossa cotonicultura. Muito se tem dito sobre as causas da crise da cotonicultura no Estado, que era a cultura agrícola de maior importância econômica para o Rio Grande do Norte. Porém se passa ao largo sobre a ausência de uma política governamental para o setor, sobre as fontes de financiamento e o baixo índice tecnológico. A verdade é que nunca houve uma planificação séria para essa cultura. O agricultor plantava de acordo com a sua concepção e experiência, que nem sempre eram as mais indicadas, e ficava “ao Deus dará”; largado à própria sorte.

Em terrenos com as mesmas características uns cultivavam o algodão herbáceo, poucos cultivam o arbóreo e a maioria dava preferência às sementes não selecionadas, ou seja, a uma mistura de sementes de algodão mocó, verdão e branco, resultando numa hibridação profundamente prejudicial. Os primeiros visavam à vida longa da planta e colheitas seguidas, outros bons resultados no mesmo ano, enquanto que muitos, os menos esclarecidos e com poucos recursos, eram levados a um sistema de pouco rendimento e baixa qualidade. Por essa desordem três causas foram responsáveis: falta de um órgão técnico de orientação eficiente, escassez de sementes selecionadas na época do plantio (as que haviam eram poucas e caras) e carência de conhecimento técnicos, por parte dos agricultores.

Por sua vez, o combate às pragas era incipiente. Só se combatia – e precariamente – o curuquerê (a lagarta verde), enquanto que outras pragas não sofriam combate. Em determinados anos, do fim das chuvas para o começo da época de mais calor, a folhagem do algodoal sofria uma mudança de coloração, sinal do ataque do “vermelhão”, doença causada pelo pulgão “Aphis gossypii”. O fato é que o algodoal, assim atacado, enfraquecia e perdia muito de sua produtividade. Essa praga nunca foi eficazmente combatida.

A mecanização da lavoura algodoeira também sempre foi muito precária. Raríssimos eram os agricultores que usavam tratores com os necessários implementos. A grande maioria não podia comprar esse importante instrumento de trabalho. Isso para não falar no emprego de colheitadeiras, já fartamente utilizadas em outros Estados. O destocamento do terreno e seu preparo para o plantio, a sua limpeza após as primeiras chuvas e a colheita, tudo era efeito manualmente, com largo emprego de mão-de-obra e altos custos.

Outro grande problema para a cotonicultura do Estado estava no processo de comercialização da safra. A primeira fase da comercialização era realizada entre os plantadores e as empresas maquinistas (as descaroçadoras e enfardadoras). Este sistema, que fazia a ligação direta da firma compradora com o produtor, visava evitar a ação dos intermediários, oferecendo aos agricultores opção entre: a) vendas para entrega futura, sistema comum no período inicial da safra, quando os compradores adiantavam de 70 a 80 por cento do valor negociado, sem incidência de juros, e o restante para ser pago contra a entrega da algodão; b) pagamento a vista, quando o produto era para pronta entrega; c) deposito do algodão na firma compradora, para fixação posterior do preço, contra um pequeno adiantamento; d) emissão de Nota Promissória Rural, para financiamento da safra.

Entretanto do meado da safra em diante, ocorria o inverso da medalha, isto é, os produtores só conseguiam vender o algodão para recebimento futuro, às vezes até 90 dias. Nestas operações os compradores pagavam ágio sobre o preço do dia, correspondente aos juros do período.

A segunda fase de comercialização do produto envolvia as empresas maquinistas e a indústria têxtil, nacional ou internacional. Para o mercado nacional o algodão em pluma era negociado a prazos que variavam de 120 a 130 dias, sendo que as vendas eram realizadas para embarques futuros, parcelados conforme a escala de entrega mensal estabelecida pelos compradores. E não havia como modificar essas condições, isso porque as fábricas de tecidos também atravessam um período de crise e o Nordeste não possuía outras fontes compradoras. E a consequência disso? Simplesmente, por incrível que pareça, o Rio Grande do Norte, por vias indiretas, estava financiando a indústria têxtil do sul do país.

Em resultado dessa situação – mercado interno sem elasticidade, compradores com poucos recursos e demanda externa reduzida – de ano para ano, o Rio Grande do Norte lutou contra a escassez de capitais, para financiamento do setor algodoeiro. Logo nos primeiros meses de cada ano, os limites operacionais dos bancos oficiais eram tomados. Dai em diante, se ficava na expectativa do rodízio do crédito: a liquidação dos primeiros empréstimos é que abria margem para novos contratos.