AINDA O ENSINO E A ECONOMIA

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 13 abr. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 12 abr. 2008.

O artigo aqui publicado na semana passada teve como resultado mais de três centenas de e-mails, surpreendentemente nenhum contrário aos conceitos e opiniões contidos no texto. Esse fato me estimulou a prosseguir no mesmo assunto, até porque algumas notícias dos últimos dias vão na mesma direção, isso é, comentam o desempenho do nosso ensino e seu reflexo nas atividades produtivas.

Muito embora, até aqui, o Brasil tenha aparecido bem na foto que retrata a crise por que passam as economias do mundo desenvolvido, no ano passado o nosso país caiu de posição no ranking tecnológico mundial. Em 2005 nós ocupávamos o 52ª lugar, em um levantamento feito entre 175 nações. Em 2006 perdemos uma posição, passando para a 53ª colocação. No ano passado, fomos ultrapassados pela Turquia, México, China, Jamaica, Arábia Saudita, Índia e Barbados e agora estamos no 59ª lugar (alguns desses países ocupam a mesma posição). O levantamento é realizado anualmente pelo Fórum Econômico Mundial e, no caso do Brasil, tem sistematicamente apontado as falhas do nosso sistema educativo como uma das causas da baixa produção tecnológica e, consequentemente, do baixo uso de novas tecnologias para incrementar a produtividade na agropecuária, na indústria, no comércio e nos serviços em geral.

Realmente, somos forçados a concordar com essa análise, pois “no ranking mundial de indicadores de qualidade do ensino de matemática e ciências, por exemplo, o Brasil está na 114ª posição. No critério de qualidade do sistema educacional, o País ocupa a embaraçosa 117ª posição”. E quais as causas de nosso ensino ser de categoria tão lamentável? Primeiro há uma inversão de posição: o ensino público de primeiro e segundo graus é péssimo, enquanto que as universidades públicas são incontestavelmente as melhores. Ora, num país com uma população pobre como a nossa, a posição deveria ser o contrário. Então o que vivenciamos é uma situação paradoxal: as universidades públicas recebem os alunos formados nos melhores e mais caros colégios particulares, enquanto que as instituições privadas de ensino universitário recebem os alunos oriundos das escolas públicas de primeiro e segundo graus.

Até bem pouco tempo eram poucas as instituições privadas – faculdades isoladas, agregadas ou universidade – de terceiro grau. De uma hora para outra o “mercado” se encheu delas, com algumas fazendo guerra de preço atrás de alunos, como se eles fossem simplesmente clientes e não pessoas que devem receber formação técnica, cientifica e conceitual, visando o desenvolvimento pessoal e principalmente, da sociedade. O resultado tem sido um desastre homérico. Os cursos de direito são a melhor vitrine dessa situação calamitosa, mas os outros desfilam no mesmo corso do mesmo carnaval.

O Ministério da Educação, que tem a responsabilidade regulatória do ensino no país, tem se preocupado com minúcias e em unificar procedimentos, fugindo de sua função principal, a de responsável pela qualidade do ensino. O exemplo maior é o tratamento dado à carga horária em algumas escolas superiores privadas: houve um substancial aumento no semestre, porém o MEC aceita que as instituições reduzam o número de horas/aula diárias (baixando de quatro para três horas), acobertando a perda de um quarto do horário com o eufemismo de atividades assistidas, atividades acompanhadas etc. O certo mesmo é que os professores também perderam 25% dos seus ganhos e a perda da qualidade do ensino. O outro lado da questão é o achatamento dos salários dos professores, que vem acontecendo nos últimos cinco anos. O sindicado dos professores tem uma existência meramente formal e só existe para receber o imposto sindical.

Há outras contorções no processo universitário. Além dos cursos seqüenciais e das franquias, agora a novidade são os cursos à distância. Nesses cursos, o aluno não conta com a presença do professor, no máximo ele é assistido por um único monitor, para todas as matérias. As aulas podem ser gravadas, igual aos tele-cursos. Dia desse recebi em minha casa um folheto oferecendo um curso de doutorado à distância, com duração de seis meses, com mensalidade de apenas R$ 280,00 e com diploma emitido por uma Universidade do interior da Argentina. Pode?

O efeito dessa situação absurda – que não é de hoje – é que todos os semestres está sendo jogada no mercado uma enxurrada de portadores de títulos universitários e poucos, muitos poucos, conhecedores da ciência e das técnicas de suas respectivas especializações. O reflexo disse é o que se está vendo acontecer nos vários setores produtivos: carência de profissionais qualificados. Temos pessoas habilitadas (que possuiu o diploma e registro no órgão de sua categoria), porém sem competência para desempenhar as suas habilitações. O efeito dessa situação é um elevado custo para as empresa no “treinamento” de seu pessoal e um elevado “desgaste moral” para as pessoas que saíram da universidade pensando que tinham aprendido tudo o que era necessário. Isso quando conseguem emprego, pois é comum formandos ficarem desempregados.