Ainda não existe vacina

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 27 jan. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 27 jan. 2008

Na semana que passou, a notícia dominante no cenário econômico internacional ainda foi a crise norte-americana. Três assuntos dominaram o palco: os prejuízos dos grandes bancos do mundo em decorrência da crise dos Estados Unidos, a queda generalizada registradas nas bolsas do mundo todo e a redução da taxa de juros de curto prazo, determinada pelo Federal Reserve (Fed), o banco central daquele país.

Também não era para menos. O Citigroup, o maior banco do mundo, perdeu 18 bilhões de dólares com as hipotecas podres, as chamadas, subprime; o UBS, o maior banco suíço, 13,5 bilhões; o americano Merrill Lynch, 8 bilhões; o inglês HSBC, 3,4 bilhões; o norte-americano Bear Stearns, 3,2 bilhões; os estadunidenses Bank of América e Barclays, 3 e 2,6 bilhões, e o suíço Credit Suisse, 1 bilhão. Somados, os prejuízos desses bancos atingiram a estrondosa montanha de quase 53 bilhões de doláres. Entretanto, os prejuízos dessas instituições foram muito mais expressivos. Suas ações despencaram nas bolsas do mundo, gerando perdas muito maiores. Se em 15.01.2007, o valor de mercado desses papéis (volume de ações em bolsa x cotação) era de 1 trintão e 94,5 bilhões de dólares. Na mesma data deste ano elas valiam somente 759,9 bilhões, ou seja, 334,6 bilhões ou 30,6% a menos. Uma senhora perda. Afora esse bancos, também apresentaram prejuízo com as subprime o americano Morgan Stanley, 9,4 bilhões; o alemão Deutsche Bank, 3,2 bilhões; o escocês Royal Bank of Scotland, 2,6 bilhões, e o americano Freddie Mac, 2 bilhões, perfazendo mais de 17 bilhões de dólares.

Enquanto isso acontecia, alguns analistas tentaram fazer com que o mercado financeiro acreditasse na tese de que atualmente a economia global estava “descolada” e menos dependente dos Estados Unidos e que, por isso, o mundo sofreria muito menos com uma eventual recessão americana, cujo reflexo seria muito menor em outros países. Essa tese não está “colando” na realidade. O que se viu na semana passada foi um movimento de fortes quedas e pequenas recuperação nas bolsas do mundo, evidenciando uma tendência de baixa continuada, com pequenas fases de recuperação. No meio da semana, o índice Euro Stoxx 50, que mede o desempenho das bolsas da zona do euro, caiu 5,5%; o índice FTSEurofirst 300, que reúne as principais ações das empresas européias, caiu 5,79%, e a Bovespa desceu, subiu e desceu novamente, mantendo o viés de baixa. Parece que ainda não existe vacina contra esta crise.

Mesmo o pacote apresentado ao Congresso norte-americano pelo presidente Bush, com isenções fiscais de US$ 145 bilhões (que representar cerca de 1% do Produto Interno Bruto dos EUA), incluindo benefícios para empresas e para as pessoas físicas, não surtiu muito efeito prático, não acalmou os investidores, empresários e consumidores. Os primeiros com receio de maiores desvalorização das cotações das ações e da inadimplência dos devedores (forte nos setores de venda de automóveis e cartões de credito); os empresários por verem reduzidas as encomendas e as vendas; os consumidores estão comprando menos, porque estão com medo de perderem seus empregos.

A grande surpresa da semana esteve por conta Fed que, pegando todo mundo de surpresa (sua reunião oficial estava agendada somente para a semana que hoje se inicia) anunciou, no dia 22 passado, uma agressiva redução na taxa básica de juros a curto prazo, diminuindo de 4,25% para 3,5% ao ano, que corresponde a 0,75 ponto percentual. Surpresa pela antecipação e porque foi a primeira vez, desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que o Fed ajustou os juros de forma extemporânea.

Mesmo assim, o mercado não se acalmou. Não se tranqüilizou. E por quê? É que existe uma falta de credibilidade nos rumos da economia norte-americana, desde o fim do primeiro mandato de George W. Bush. Quando ele recebeu o governo, os custos correntes e os investimentos públicos se igualavam à receita. Hoje há um tremendo déficit orçamentário (em grande parte por conta das guerras do Iraque e do Afeganistão). Paralelo a esse, corre outro déficit, o da Balança de Pagamentos (os americanos importam muito mais do que exportam). Há, ainda, um descompasso na política econômica do governo de Mr. W. Bush: não existem definições de rumo. Ora, mesmo em uma economia liberal, o governo tem um papel de delineador de rumo, como agente econômico que é. No atual governo norte-americano se isto há, não aparece.

Por conta disso tudo é que as bolsas de valores e de futuro da Europa, Ásia e América Latina despencaram. Todavia, com tudo seus desacertos, os Estados Unidos continuam a ser (e parece que serão por muito tempo, quer a gente queira ou não) a locomotiva da economia mundial, mesmo com o fortalecimento dos países da União Européia, com o crescimento da China e com as reservas de moedas fortes de países como o Brasil, Índia, Rússia e outros mais.

CUBA LIBRE COM TIRA-GOSTO DE PIABA

Certo dia, no fim da noite e dos trabalhos da Snob, o maestro Batista me chamou e disse que tinha uma surpresa para mim: tinha acabado de aprender a toca “Foi Deus”, uma musica que era cantada por Ângela Maria e, se não me engano, pela cantora portuguesa Amalia Rodrigues. Então fomos esperar o sol nascer em um boteco que tinha perto da barragem – Batista, Canindé Queiros, Vilmar Pereira, Ivonete Paula, Gilmar Lopes e eu. Batista tocando saxofone ou clarinete, Ivonete Paula cantando e nós outros tomando Cuba Libre (Rum Merino com Coca-Cola) com tira-gosto de piaba; exceto Gilmar.

Bons tempos.