Ainda a Conjuntura

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 06 jan. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 06 jan. 2008.

Certa vez, quando participava de um debate na TV Ponta Negra, apresentei alguns elementos de economia, para fundamentar a minha ótica sobre determinados aspectos do desenvolvimento social do país. Mostrei que se a renda nacional não crescesse e, mesmo assim, houvesse um aumento significativo do salário mínimo, haveria diminuição da renda daqueles que ganhavam mais e, eu esperava, que esse corte não recaísse sobre a classe média, sustentáculo de qualquer economia desenvolvida. Logo em seguida a minha participação, um cidadão – que hoje ocupa um cargo de certa notoriedade – quis desqualificar meus argumentos, simplesmente dizendo que não aceitava muito essa “coisa de economia”.

Eu, por minha vez, continuo achando que essa “coisa de economia” é importante sim, até porque é determinante para o bom comportamento de outras coisas, tais como a política e o comportamento da sociedade, e ainda porque com elas está correlacionada. Os exemplos são muitos. Na França do século XVIII faltou pão; o povo se revoltou e cortou a cabeça da realiza. Na Rússia czarista faltava dignidade e a família imperial foi fuzilada. A espoliação econômica da Alemanha, pelos vencedores da Primeira Grande Guerra, gestou a besta fera nazista. Na defunta União Soviética, onde faltavam pão e dignidade, milhões de pessoas foram mortas simplesmente para que alguns burocratas aboletados no poder tivessem garantidos privilégios e regalias. Os nazistas foram destruídos militarmente e os soviéticos caíram sem que houvesse um simples tiro de estilingue. Então, economia é importante sim. E, em assim sendo, é importante que continuemos analisando as perspectivas que os indicadores econômicos apontam para este ano novo.

Primeiro as boas. Em 2008 continuará havendo crescimento econômico, embora que com uma taxa mais baixa que a do ano passado e, o mais importante, com baixa taxa de inflação. Além do PIB ter crescido 5,12%, o dobro da média do início da década, ele se apresenta como consistente, com pouca pressão sobre a inflação, que tem apresentado um viés que lhe coloca no nível da meta do governo, não obstante os juros e os impostos altos. Entretanto o ex-ministro da fazenda Mailson da Nóbrega diz que há “pressões inflacionárias inequívocas” e “sinal de excesso de demanda interna”. Isso poderia acontecer se levados em conta dois fatores: primeiro, o crescimento da renda das famílias, em decorrência do crescimento do emprego formal – 3,3%, no ano passado (3,5% no final do ano, o que aponta uma tendência de aceleração); e segundo, as instituições financeiras expandiram o crédito para pessoas físicas em 102,3%, em 12 meses (até novembro).

Mas o ex-ministro pode está enganado. A Formação Bruta de Capital Fixo – os investimentos realizados pelas empresas para aquisição de imóveis, maquinas, equipamentos e outros meios de produção – cresceram 12,4% em 2007, mais do que o dobro do PIB. Alem do mais, o financiamento às empresas pelo sistema bancário teve, no mesmo período, um desempenho 70,5% maior que no ano anterior e, o que é melhor, atingiu quase todos os setores. Na indústria, em novembro já eram R$ 205,2 bilhões, 24,7% a mais do que em 2006; na construção civil, 24,4%, e no comércio, 21,7%. Isso indica que a oferta de bens e serviços atenderá a pressão da demanda, ou seja, o aumento do consumo (provocado pelo aumento e pela melhor distribuição da renda) será atendido pela produção das empresas, fato que dará consistência a um desenvolvimento com inflação civilizada.

Há um outro campo em que o cenário se apresenta não somente bom, mas muito bom: o comportamento das contas externas. Desde nossa independência, o Brasil tem se comportado como um grande devedor e um mau pagador de suas dívidas externas. Entretanto, nesse início de 2008, as nossas reserva em moedas fortes se encaminham para um montante que superará toda a nossa dívida externa, isso é, as dividas do setor público somada às do setor privado. Assim, “a dívida externa acabou” e brevemente o país será credor externo líquido. Esse fato deve ser analisado juntamente com um outro, de igual importância: 2007 foi também o ano em que os investidores externos redescobriram o Brasil. Os Investimentos Estrangeiros Diretos Líquidos, em 2007, ficaram por volta dos US$ 38 bilhões, quase o mesmo valor do saldo do comércio exterior. Essa situação acontece em razão de dois elementos: a grande expansão da economia internacional e porque o governo Lula abandonou a pregação radical do candidato Lula, se transformou em uma “metamorfose ambulante” e manteve a política econômica implantada no governo FHC.

Agora as não tão boas. Estudo divulgado pela Cepal mostra que o crescimento econômico do Brasil (5,12%) ficará em 7º lugar, entre as 12 economias da América do Sul, superando apenas Suriname, que cresceu 5,0%; Guiana, 4,5%; Bolívia, 4,0%; e Equador, 2,7%. Se comparado com o desempenho dos 34 países da América Latina e do Caribe, o Brasil ocuporá a 17ª colocação. Por sua vez, a revista inglesa The Economist prevê que no ano que findou o PIB da China avançará 11,5%; o da Índia, 7,9%; o da Rússia, 7,2%; o do Paquistão, 6,4%; e o da Indonésia, 6,2%.

Sim, estamos crescendo… porém mais lento que outras economias do mundo e mesmo na América Latina e Caribe.