A vida era pálida, até que…

vinheta175Escritor

Sua vida sempre foi previsível e pálida. Teve asma na infância, começou a usar óculos quando estava fazendo o segundo grau, tentou e não conseguiu entrar na universidade pública. Seus pais, funcionários, de classe média-média, tiveram que bancar a mensalidade de uma faculdade particular noturna. Não era das melhores, mas também não era das piores. Como eles, estava um pouco abaixo da média. Comprar livros nem pensar. A grana não dava. O jeito era apelar para os parcos livros da pobre biblioteca da escola, ou tirar xerox. Dava sempre um jeito de estudar. Quando “fazia” o segundo ano, conseguiu, por intercessão de um primo de sua mãe, entrar em um banco como estagiário. Como era esforçado, aprendia fácil a burocracia daquele mundo de papéis e informações digitalizadas e trabalhava além do expediente normal, acabou sendo efetivado como funcionário. Aí já sobrava um dinheirinho que dava para sair com os amigos, em alguns finais de semana.

Entre as colegas de faculdade, na mesma sala havia uma que era de classe média como ele, igualmente estudiosa, que trabalhava na lojinha do pai, era acanhada e frágil e deveria ter uma vida tão insípida como a dele. E tinha, como veio a saber mais tarde. O nariz é que era um pouquinho grande demais e, dizia ela, por causa disso tinha uma rinite alérgica permanente. Fez dela a sua eleita. A progressão amizade, namoro, noivado e casamento acompanhou as suas promoções no banco; auxiliar, escriturário, caixa, encarregado e supervisor administrativo de uma agência recém-inaugurada.

Ainda no tempo do namoro fez amizade com o sogro. Um cara legal, que gostava de fazer churrasco, tomar cerveja (só em lata e só Brahma), dormir depois do almoço quando não estava trabalhando. Era pequeno comerciante de produtos populares. Bem populares: vendia refugo das fábricas de roupa. A sogra, como todas as sogras, era embirrenta, queixosa e toda cuidadosa no querer saber aonde eles iam, que horas a filha estaria de volta em casa. Seus pais gostaram da moça.

A grande surpresa veio quando eles foram à igreja, marcar a data do casamento. Lá, ela quis fazer uma confissão, não ao padre, mas a ele. Revelou que não era mais virgem. Que foi há muitos anos, com um primo, que hoje mora longe, lá pras bandas de Altamira, no Pará. Que foi algo sem importância, mas que ela se achava na obrigação de contar. Foi um choque. Matou no peito, ajeitou com a cabeça e, só depois de muito pensar, é que chegou a conclusão que foi um ato de sinceridade por parte dela. Depois até se esqueceu de tudo, que passou a ser apenas um pormenor.

Já tinham terminado o curso quando se casaram. Foi uma festa simples, com a mesma simplicidade que cercava as duas famílias. Foram morar em um condomínio da periferia, com muitos prédios de poucos andares e sem elevador. Por causa da coriza, ela fez uma operação plástica no nariz. Ganhou um afilado e arrebitado, mas não perdeu a rinite. Deixou de trabalhar, pois queria se acostumar a ser dona de casa. Tomava a pílula, porque acha muito cedo para ter filhos. Primeiro haveriam que gozar a vida, dizia. Dormia até tarde, fazia comida que já desse para o almoço e o jantar; à noite assistiam à novela e nos finais de semana almoçavam na casa dos pais dela ou dele. Ela não gostava de praia. Para ele a vida voltou a ser pálida e rotineira.

Um dia, estava no banco quando lhe chamaram ao telefone. Era um vizinho de seu pai. “Venha urgente, aconteceu uma tragédia. Seu pai descobrira que sua mãe, há muitos anos, mantinha um caso com aquele primo que lhe arranjou o emprego no banco e que, talvez, você não seja filho dele. Seu pai matou a sua mãe e se entregado à polícia”. Na hora não assimilou totalmente a tragédia; sua mãe assassinada pelo seu pai, seu pai era outro. Só ficou pensando em como dizer isso para a esposa. Não era notícia para se dar por telefone, tinha que ser ao vivo e com muito cuidado, pois ela era uma criatura frágil. Em casa, para não acordá-la de chofre, silenciosamente abriu a porta com sua chave e… sua mulher, de nariz novo e sem nada no corpo, estava na cama com aquele primo que ela dizia morar lá pras bandas de Altamira. Matou os dois.

Hoje a sua vida é bastante movimentada. Preso, com 30 anos para cumprir, é o dono de pedaço na Penitenciaria e por isso goza de algumas regalias. Controla o tráfico de drogas na cadeia, os outros lhe temem, recebe visitas íntimas quando as quer, sua alimentação é igual a dos administradores do presídio, já saiu algumas vezes por “licença de natal” e recebe, por conta do governo, assistência médica e dentária. Só tem uma queixa da vida: seu pai, que está na mesma prisão, não fala mais com ele.

Tribuna do Norte. Natal, 13 ago. 2017