A VERDADE E A ECONÔMICA

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte
. Natal, 28 nov. 2010.

Todos os esforços empregados pelos historiadores, jornalistas e outros pesquisadores têm como objeto a busca da verdade. Aqui nos deparamos com um problema: o que é verdade? Para se estudar a verdade, tem-se que enveredar pelos caminhos de outra disciplina; tem-se que se debruçar sobre os “conceitos filosóficos de verdade”, que são múltiplos e às vezes contradissestes e contestadores entre si. O problema torna-se mais complicado quando se sabe que cada um desses conceitos exige um tratamento diferente da verdade.

Essa adjetivação da verdade cria um procedimento coadjuvante para a sua investigação. Se os conceitos sobre a verdade têm origem em definições filosóficas, tem-se que concluir que a verdade como coisa única, eterna e irrefutável não existe. Essa concepção sincrética ou eterna (philosophia perenis) da filosofia morreu por volta do século XVII, quando da ruptura entre a filosofia e a ciência.

Segundo o filósofo norte-americano Donald Davidson a “verdade é uma locução que só depende de duas coisas: do que as palavras significam e de como o mundo está ordenado. Não há nada mais relativo do que isso”. Sendo assim, a verdade não poderia ser encontrada e muito menos enquadrada em uma fórmula. A verdade verdadeira, a “verdade real” seria, pois, uma “noção primitiva”. Em determinadas circunstâncias, poderiam perfeitamente ser aceitas noções múltiplas de verdade.

Outro conceito filosófico sobre o tema é aquele que busca fazer a “adequação da coisa e da ideia” (adequatio res et intellectu), encontrado no pensamento de Aristóteles e de São Tomás de Aquino. Embora seja das mais antigas, essa visão da verdade é uma das mais falhas e sua falha maior está em apresentar uma adequação perfeita entre o fato e o elemento de sua comprovação. É a “certeza” não cientifica da verdade, que acaba por induzir certos estudiosos a fazer a adequação dos acontecimentos à “sua certeza da verdade”, muitas vezes nascidas de perspectivas nada científicas, tais como a fé e a ideologia. Ai, então, cria-se mitos e não relatos verdadeiros.

E por que todo esse falar sobre a verdade; perdão, as verdades? É que certo cronista publicou semana passada, em uma dessas revistas mantidas por verbas públicas, um alentado estudo pseudocientífico falando sobre “os novos tempos da vigorosa economia brasileira, sob a bandeira do pensamento e do governo petista”. Seria risível se não fosse tolo, irresponsavelmente, propagandístico. Suas teses são como as folhas de outono: voam, mas não nem se sustentam no ar. Vejamos alguns pontos levantados pelo “eminente” sábio petista. A primeira delas é pretensiosa demais da conta, como dizem meus alunos: a inflação somente teria ir embora por causa da atuação firme de dois pilares da política econômica do governo Lula, Antonio Palocci e Henrique Meirelles. Outra: a primeira política social do governo federal foi a campanha “Fome Zero”, implantada logo no início da atual gestão. Mais uma: foi no governo do operário-presidente que a Polícia Federal começou a prender bandidos de colarinho branco e não só os “três pés”; pobre, preto e puta.

Grande cronista… Grande petista… Grande bajulador…

Vejamos o quando tem de verdade nessa versão de bajulice explicita. Não há como não concordar que a política econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva foi a coisa mais certa dos seus dois mandatos. Todavia, ela foi uma “herança bendita” do governo de Fernando Henrique Cardoso, simplesmente continuada e aperfeiçoada por Palocci (depois Mantega) e Henrique Meirelles. Aliás, este último quando foi convidado para assumir o Banco Central era deputado eleito pelo PSDB, partido do governo anterior. Ora, todo mundo sabe que o tiro mortal contra a inflação teve arma e autor identificados; o plano real (ao qual o PT foi contra) e FHC, na época ministro de Itamar Franco.

Quanto a “Fome Zero”, dizem que ela é irmã gêmea da Viúva Porcino, a que foi sem nunca ter sido. Sem sombra de dúvida, a grande atuação social do governo Lula foi a Bolsa Família, que teve origem na Bolsa Escola, no Vale Gás e outras do governo anterior. Portanto, a Fome Zero não foi a primeira nem a melhor política social do governo. Mas, justiça se faça, sua amplitude a transformou numa das melhores.

Dizer que a Polícia Federal somente começou a trabalhar agora é o mesmo que dizer que seus delegados e agentes nunca trabalharam; é uma inverdade e até uma ofensa. Eles sempre trabalharam, acontece que só agora há aqueles que trabalham para a plateia (o delegado Protogenes foi condenado por violação de sigilo e fraude processual), os mansalões e mensalinhos, dólares na cueca, sanguessugas e muito mais.