A RENÚNCIA DE DEUS

Tomislav R. Femenick

 vinheta174

A história diz que isso aconteceu de fato, no dia treze de dezembro, dia de Santa Luzia, a padroeira da cidade. Como eram devotos da Santa, no dia a ela consagrado obviamente eles não trabalhavam. Por isso era que, desde manhãzinha cedo, estavam na paria de Tibau. Não bem na praia. Estavam em um bar que ficava na praia. Tomavam cerveja, jogavam dominó e olhavam para as pernas, bundas e seios das moças que desfilavam na areia, molhando os pés nas águas que faziam o fluxo e o refluxo das ondas. De vez em quando pediam umas sardinhas ou manjubas na brasa, para tira-gosto. Tudo estava como manda a receita dos que sabem viver.

Como eles eram devotos que gozavam o dia sem trabalho e estavam entre amigos de longas datas, a conversa era devagar, composta mais de grandes silêncios e subentendidos do que mesmo de palavras. Os assuntos eram os de sempre: a chatice dos chefes, o namoro de uma colega (casada) com o político que lhe havia conseguido o emprego, o tempo que faltava para as respectivas aposentadorias, a falta de dinheiro de todos e a ranhetice da sogra de um deles – ou seja, somente sobre assuntos apropriados a um feriado. Faltava futebol. Isso porque, depois da única briga que houve no bar (de um torcedor do Vasco com outro, esse flamenguista) o dono, um funcionário público aposentado, pregou uma placa: “É proibido conversa de futebol, política e religião”.

O dia ia nessa calmaria de quase aposentados quando chegou o Almeidinha, que todos os domingos, feriados e dias santos era obrigado pela mulher e pelas filhas a assistir o culto na igreja e a presidir a ceia familiar, pontualmente às 12 horas; estivessem onde estivessem, em Mossoró, em Tibau ou em qualquer outro lugar. De longe seus colegas já notaram algo de diferente nele; estava sério, vermelho, apressado e com cara de mensageiro de más notícias. Foi direto ao balcão, pegou um copo, voltou sentou-se à mesa dos amigos, encheu o copo com cerveja, tomou tudo de uma vez, enxugou a espuma do bigode e, só aí, perguntou:

– Já sabem da nova? Viram a notícia na televisão ou ouviram no rádio?

– Que notícia? Não está vendo que a TV e o rádio daqui estão desligados – Respondeu um deles.

– Deus renunciou a nossa cidadania. Não quer mais ser brasileiro. Até já conseguiu os vistos e está decidindo se vai morar em Miami, na Suíça ou na Austrália.

– Deixa de brincadeira. Você não leu aquele artigo que saiu no jornal; invocar o Seu nome em vão é pecado?

– Que brincadeira que nada. Deus cansou de tanta esculhambação, sem-vergonhice, roubalheira. De mensalão, petrolão, caixa dois, dólares em cueca, polícia que não policia, justiça que não faz justiça, autoridades que se vendem, desmatamento desenfreado, poluição e desrespeito pelos outros. De estudantes que fingem aprender e professores que fingem que ensinam, médicos que fazem negócios escusos com a saúde pública, magistrados tendenciosos, engenheiros que não sabem engenharia, donas de casas que se ligam nas histórias das novelas, mas não querem saber o que seus filhos e filhas fazem na rua até altas horas da madrugada. Deus cansou também de tantas traições entre maridos e mulheres, políticos e negociantes. Dizem que a gota d’água foi a maracutaia envolvendo a turma do futebol. O resultado da saída Dele já está ai: seca no Nordeste, na Amazônia e no Pantanal, cheia no sul, a morte da esperança dos que acreditavam no governo do PT, os juros altíssimos, a volta da inflação, bispo fazendo greve de fome, franquia de igrejas evangélicas, zika vírus, dengue e chikungunya, Renan e Eduardo Cunha (pragas legislativas) e todas essas coisas.

– Onde é que fica o consulado estrangeiro mais próximo? – perguntou alguém, de uma mesa vizinha.