A QUADRADURA DO CÍRCULO

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 02 dez. 2007.
O Jornal de Hoje. Natal, 03 dez, 2007.

Vez por outra, alguns pretensos luminares, que se intitulam marxista, elaboram teorias mirabolantes e as apresentam como descobertas científicas. Tirando-se o fraseado embolado e o emprego de palavras não convencionais, esses “papers” (como os chamam, para mostrar erudição) não contêm nada mais que baboseiras e pose de pseudo-intelectual. Agora voltaram os que querem provar que a escravidão negra da América colonial foi um “capítulo da exploração capitalista”, mesmo que para isso tenham que inventar um capitalismo trezentos anos antes da revolução industrial.

Há economistas, historiadores e sociólogos que encontra no escravismo que existiu na América uma expressão inequívoca – ou pelo menos formas iniciais, precursoras que sejam – do capitalismo. Sua tese central é de que a sociedade colonial americana, notadamente nas regiões onde se desenvolveu o escravismo negro, teria sido capitalista desde a sua gênese, formação, estrutura ou caráter, estando sempre inserida na economia do mercado mundial, a quem estava atrelada pela compra de produtos manufaturados e mão-de-obra e pela venda de seus produtos. De forma mais direta: o capitalismo do mundo colonial seria apenas o resultado, a manifestação local, do capitalismo que séculos depois se espalharia pelo mundo todo.

Todas essas propostas teóricas – algumas bem formuladas e procurando seguir a práxis marxista, outras simples enunciados tautológicos – são refutadas pela lógica da economia política e até pelo próprio materialismo histórico. Não que seus autores sejam meros estudiosos descuidados ou aventureiros teóricos. Muito pelo contrário. Se há aqueles que buscam uma simples transposição mecânica para a América, de conceitos desenvolvidos para outras regiões, Europa ocidental principalmente; outros há que até fazem teses com formulações elaboradas, por vezes com proposições rebuscadas, quase convincentes, tal seus pendores – infelizmente só inclinações cientificas.

Um desses “veios teóricos” explora as origens e índole da civilização e cultura capitalista na América colonial, tomando o fato de aqui terem existido propriedades com grande extensão de terra. Dizer simplesmente que a grande propriedade colonial era capitalista é uma afirmação e nada mais, sem sequer uma tentativa de comprovação teórica; portanto não há o que negar. No entanto, grandes propriedades existiram na Antiguidade, na Idade Média, na América colonial e existem atualmente, também no modo de produção capitalista. Imbricar a “plantations” ou a grande propriedade com a mão-de-obra escrava e rotulá-la como capitalista é, certamente, um desvio científico maior ainda.

Uma outra “vertente capitalista” do sistema colonial americano seria o fato das colônias produzirem mercadorias para o mercado. Por essa teoria haveria o enquadramento como capitalista de toda esfera de circulação de mercadoria, de toda economia de mercado. A produção de mercadorias para o mercado é uma característica unicamente do capitalismo? É uma categoria exclusiva desse sistema? Acho que não. Sempre houve produção e comercialização de grande quantidade de produtos. Na Antiguidade Clássica os fenícios trocavam tecidos e utensílios por madeira e metais, em toda a região do Mediterrâneo (principalmente a sua parte central e também oriental), tendo ainda transposto o estreito de Gibraltar para atingir as costas atlânticas da Europa e da África. Os fenícios controlaram o comércio mediterrâneo até aproximadamente o ano 1000 a.C. A partir de então a supremacia coube aos gregos que, inclusive, assentaram colônias no mar Egeu, no mar Negro e, posteriormente, no sul da península itálica, na Sicília, e nas regiões onde atualmente se situam Málaga, na Espanha, e Marselha, na França. As trocas comerciais entre as cidades gregas e suas colônias davam à tônica nas suas relações. A imagem simplista que se tem da Idade Média europeia é de um tempo de reclusão absoluta, de uma economia natural e fechada, quando não se buscava excedentes negociáveis com terceiros, muito menos exportações a longas distâncias. Ledo engano. A Europa feudal não se concentrava sobre si mesma. Existiam corredores de trocas de produtos com o norte da África e pelo Adriático havia comunicações com o Oriente. Pelo Rio Danúbio, e mais ao norte, ao longo das vias que uniam a Baviera ao mercado de Praga e daí, pelos flancos dos Cárpatos, eram realizadas as troças com a Europa do leste, Constantinopla e Ásia.

Voltemos ao ponto inicial: a esfera de circulação de mercadoria e, consequentemente, o seu agregado, o capital mercantil, seria uma categoria eminentemente ou, pelo menos, identificadora do capitalismo? Não. Já vimos que não. Marx já tinha esclarecido esse aspecto, quando afirmou que “O capital mercantil – e o comercio – é mais antigo que o mundo capitalista de produção; é na realidade, do ponto de vista histórico, o modo independente de existência mais antigo do capital”.

FESTA DAS PERSONALIDADES

A mais alta sociedade mossoroense estará reunida sábado próximo, dia 5 de dezembro, na Boite Snob, por ocasião da grande “Festa das Personalidades do Ano Centenário”. Serão apresentadas as dez senhoras e as dez senhoritas, bem como os dez rapazes mais elegantes. Também serão conhecidas as pessoas que mais se destacaram no comércio, na indústria, na pecuária, nos serviços comunitários, na justiça, bancos etc., durante o presente ano.

A promoção do SERPES e da Comissão do Centenário congregará gente de sociedade e cronistas sociais de vários pontos do Nordeste, os quais já confirmaram suas presenças em Mossoró naquela data. Colunistas de Natal, Fortaleza e Recife participarão de grande acontecimento social de sábado próximo. A Festa das Personalidades, no Boite Snob, que é parte da programação oficial do Centenário da cidade de Mossoró, se configura como êxito absoluto, vez que as 150 mesas postas a disposição do público já foram vendidas. A animação musical será confiada ao conjunto “Os Bárbaros” (Diário de Natal – 01.12.1970).