A PRAÇA DOS VIGÁRIOS

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 18 jun. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 21 jun. 2007.

Certa vez, assistindo uma missa na igreja de Santa Luzia, lá na capital paulista, a minha memória levou-me ao passado. Vi-me na Mossoró de meu tempo de criança, sentado nos degraus do patamar da igreja Matriz de Santa Luzia, olhando para a Praça dos Vigários Antonio Joaquim e do Padre Mota. A recordação fez-me vez coisas do meu tempo de menino e rapaz.

Voltando os olhos da memória à esquerda, lá estava o prédio do Ginásio (ainda não era Colégio) Diocesano Santa Luzia, onde eu fiz o exame de admissão, a primeira e a segunda séries ginasiais. Lá estavam os padres Cornélio (o diretor holandês e professor de Civilidade – antigamente a escola também ensina educação) e André (pernambucano, professor de Música), Ozelita Cascudo Rodrigues, Sólon Moura e Mozar Astigarriga Menescal, os meus colegas de turma Gileno Marcelino, Genival Melo, José Arimatéia Cascudo Rodrigues, Carlos Costa, Darwin e tantos outros. O Ginásio hoje é Colégio, está em outro prédio, este já cinqüentenário, o prédio antigo foi demolido e em seu lugar está uma agência do Banco do Brasil.

Na minha frente estava a Amplificadora Mossoroense, “A Voz da Cidade”, serviço de som mantido pela Prefeitura, que funcionada das “seis às nove horas da noite”. De sua programação o que eu mais gostava era a “Hora da Saudade”, que apresentava músicas dos anos vinte e trinta. Isso é algo que me intriga ainda hoje: qual a saudade musical que um menino de dez anos pode sentir? Talvez eu gostasse mesmo era porque o programa era ao vivo, com um conjunto musical e cantores da cidade – como era harmonioso o som das flautas, dos bandolins e o ritmo; alegre dos chorinhos e indolente das canções. O prédio da Amplificadora foi substituído por uma edificação ainda hoje moderna. Já foi o Cine Cid, uma igreja evangélica e hoje é o Teatro Lauro Monte Filho.

A praça em si tinha três atrativos: o coreto, localizado junto à calçada, na esquina que fazia frente à Catedral e à casa de Delfino Freire; o caramanchão, coberto de plantas trepadeiras, localizado perto de onde hoje está o monumento a Dix-sept Rosado, e o seu contorno, todo feito com pés de fícus-benjamim podados à altura de cerca de cinquenta centímetros, acompanhado de uma grossa corrente de ferro. Nada disso existe mais.

Lá em São Paulo a missa terminou, recebi a benção do padre, fui ao altar de Santa Luzia me despedir, mas não pude desligar as recordações. Já em casa, o livro aberto à minha frente não me atraia – também pudera, a “Fenomenologia del Espiritu”, de Hegel, é um osso duro de roer, mesmo para uma re-leitura acadêmica. Fechei o livro e abri os olhos e as portas às lembranças, que foram mais longe, se ampliaram. Agora à minha direita eu poderia ver a Praça do Pax (só muito depois é que passei a chamá-la de Rodolfo Fernandes). Vi o Pavilhão da Vitória, o próprio Cine Pax, a Chevolet de Humberto Mendes, a Ford do doutor Zé Holanda, o Armazém Caxias, a Loja Paulista (antes de mudar de nome para Casas Pernambucanas) e a casa de tio Osmídio (Ormídio Juvino, casado com minha tia Franscinha Rodrigues, irmã do meu avô), onde hoje é a Loja Riachuelo.

Olhando à esquerda, vi a casa do meu bisavô, o coronel Vicente Cunha da Mota (que foi demolida para dar lugar ao prédio da Telern e hoje é de Telamar), o sobrado do meu avô, José Rodrigues, as residências de meus quase sogros Alcides Fernandes e Maria Maia, do fotografo Manuelito, do seu Octavio, do dr. Soares e dos meus primos José Augusto e Oberi Rodrigues. Vi o prédio da Maçonaria (que nós crianças acreditávamos ter um bode preto permanentemente de vigia) e a Praça da Cadeia. Lá, no descampado da praça, eu, Augusto Escóssia, Ogenildo Falção, Augusto Ciarlini, Nildo e Célio Soares e toda a meninada da redondeza jogávamos futebol com bola de couro cru, costurada à mão e com pito externo (um tubo de borracha por onde se enchia a bola, com “bomba de ar” de bicicleta), amarrado como se dá laço em sapatos. À minha frente, bem mais além da Amplificadora, vi o Rio Mossoró com suas várzeas, barragem (a do Centro e a das Barrocas) e, principalmente, suas benditas águas – benditas quando existiam, pois aprendi com meu avô que elas nos davam todos os alimentos; benditas quando eram escassas, pois o pouco que se conseguia era a custo de muitos esforços.

De repente minhas recordações saíram a caminhar a ermo, fora do meu domínio. Vi-me na igreja do Alto da Conceição, diante de um frade alemão que tirava o couro de um coelho (não sei quando isto aconteceu, só sei que nunca consegui comer carne de coelho); em frente à igreja de São Vicente, tentando entrar e sem encontrar uma porta aberta (mais isto foi muito tempo depois, no final dos anos sessenta); na Biblioteca, com Vingt-un Rosado e Jorge Ivan Cascudo Rodrigues, transcrevendo as atas da Intendência Municipal de Mossoró em estêncil de mimeógrafo, para serem publicadas no Boletim Bibliográfico; cantando na Catedral, como integrante do coro do Ginásio Santa Luzia, nas comemorações do seu cinquentenário (se não me engano); tomando banho de chuva nas biqueiras da União Caixeiral; deitado nos bancos do coreto da Praça da Redenção, vendo as nuvens brancas passear pelo céu azul. Voltei a ser menino, vivendo em Mossoró no final dos anos quarenta, início dos anos cinquenta.

Bendito aqueles que têm lembranças para lembrar.